Luz de Varanda: o Teatro Goiânia e os 92 anos de uma cidade que escuta

Teatro Goiânia em 1942, ano de sua inauguração. Batismo Cultural da cidade de Goiânia
Foto: IBGE

Há cidades que se explicam pelos seus palcos. Basta atravessar um saguão, sentir o verniz antigo das madeiras e o brilho da luz antes do primeiro acorde para entender que ali pulsa mais que espetáculo: pulsa identidade. Do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que abriu a Cinelândia para a modernidade com sua opulência à la Garnier, ao Teatro Amazonas, sonho lírico erguido no auge do ciclo da borracha, o Brasil fez de seus teatros uma cartografia afetiva. No mapa, marcos neoclássicos, art nouveau e art déco formam uma constelação de pertencimento: o Theatro da Paz, em Belém, que espelha a Belle Époque amazônica; o José de Alencar, em Fortaleza, rendado de ferro escocês e jardim sonhado; o Arthur Azevedo, em São Luís, o segundo mais antigo do país, renascido tantas vezes quanto a teimosia da própria arte; o Municipal de São Paulo, palco da Semana de 22 e de tantas rupturas necessárias.

Cada um deles guarda um capítulo da nossa história: revoluções de gosto, encontros improváveis, plateias que saíram diferentes de como entraram. São casas que não existem sem o público,  e, por isso, trabalham como corações: contraem-se no silêncio, expandem-se no aplauso, irrigam a cidade com memória e desejo.

Batismo Cultural de Goiânia – Foto: Acervo IFG

É com esse mapa no bolso que chegamos a Goiânia, jovem no calendário, grandiosa no gesto. Em 24 de outubro, a capital completa 92 anos, e seu teatro-símbolo pede licença para lembrar que, aqui, a cultura sempre foi projeto de futuro. Muito antes da festa de aniversário, a cidade já ensaiava o passo firme: em 5 de julho de 1942, o amanhecer foi de alvorada e fogos para o Batismo Cultural de Goiânia. A semana seguinte virou palco a céu aberto, atraindo personalidades políticas, artísticas, eclesiásticas e intelectuais de todo o país. Houve missa campal guiada por Dom Emanuel Gomes de Oliveira e Dom Aquino Corrêa, gesto que selou uma nova aliança entre Igreja e Estado em Goiás. Getúlio Vargas emprestou peso político à ocasião: vieram o VIII Congresso Brasileiro de Educação, a Assembleia do IBGE, discussões febris, o lançamento da revista Oeste e um cortejo de visitantes estrangeiros,  cerca de seiscentos.

No centro dessas celebrações, ergueu-se o então Cine Teatro Goiânia, inaugurado com “Deus lhe pague”, protagonizada por Eva Tudor. No mesmo palco, Pedro Ludovico Teixeira entregou a chave simbólica da cidade a Venerando de Freitas Borges, prefeito indicado da nova capital. O prédio nascera pensado para o cinema, e, embora sonhasse a cena teatral, o palco modesto ainda não comportava as montagens amplas que a cidade ensejava. Mesmo assim, durante as décadas de 40, 50 e 60, o endereço virou ponto de encontro: filmes nacionais e estrangeiros, formaturas, solenidades, encontros de uma Goiânia que aprendia a se ver na tela e na sociabilidade.

Margot Fonteyn e David Wall

Veio a década de 70 e, com ela, a derrocada dos grandes cinemas. Em 1976, as portas se fecharam para uma reforma decisiva. A cidade não desistiu. Ao contrário: decidiu que era hora de abandonar o “cineteatro” e entregar-se ao teatro, com todas as letras, e com toda a técnica. A aposta foi recompensada na noite de 15 de março de 1978. A Associação de Ballet do Rio de Janeiro trouxe ao palco Margot Fonteyn e David Wall. Depois do espetáculo, Fonteyn disse à imprensa o que os goianienses já intuíram ao primeiro levantar de pano:

“O equipamento eletrônico do Teatro Goiânia coloca esta casa na liderança dos teatros do Brasil e

Em 1998, o Teatro Goiânia passou por uma nova reforma, que o modernizou sem perder o encanto original. A consagração veio em 2003, com o tombamento pelo IPHAN, reconhecendo-o como parte do conjunto moderno e urbanístico de Goiânia, ícone do estilo Art Déco. Hoje, com capacidade para 850 espectadores, o Teatro Goiânia acolhe: teatro, dança, concertos, festivais, shows,  e reafirma, em cada luz acesa, a vocação luminosa de sua primeira juventude. A plateia, essa sim, permanece a mesma: curiosa, calorosa e fiel ao belo hábito de encontrar-se com a arte.

Há, no entanto, um detalhe que diz muito sobre quem somos: o hall leva o nome de “Tia Amélia”. Amélia Brandão Nery nasceu em Pernambuco, brilhou como pianista e compositora nos grandes centros, e escolheu Goiânia para viver seus últimos anos. Abriu uma escola, agregou na  formação  de grandes artistas. Alguns nomes de sua linhagem afetiva: Heloisa Barra, Estércio Marquez Cunha, Maria Augusta Callado e Glacy Antunes de Oliveira. É justo que, ao atravessar o foyer, a cidade seja recebida por uma musicista que fez da arte um ato de amor.

Se os grandes teatros do Brasil são faróis, o Teatro Goiânia é a nossa luz de varanda: próxima, quente, acesa todas as vezes que a cidade precisa se reconhecer. Ele guarda o eco de 1942 e a ousadia de 1978; guarda a persistência das reformas, o zelo do tombamento, o burburinho dos festivais e a respiração prendida nos silêncios antes do primeiro gesto do maestro.

Ao celebrar os 92 anos de Goiânia, em 24 de outubro, celebramos também o lugar que nos ensinou a ver e a ouvir, e que, tantas vezes, nos ensinou a sermos plateia um do outro. Que os próximos atos sejam de casas cheias, artistas bem recebidos e bem remunerados e de um palco que continue sendo o ponto de encontro entre o que fomos e o que ainda seremos.

Vida longa ao Teatro Goiânia. Vida longa à Goiânia que a aplaude.

E porque um teatro também se explica pela música que carrega, sugerimos um pequeno ritual para este aniversário: antes da próxima sessão, procure ouvir a “Valsa Gratidão”, de Tia Amélia, composta quando ela tinha apenas 12 anos, em gravação delicadíssima, com Hércules Gomes (piano) e Rodrigo Y Castro (flauta). Note como essa gravação é refinada, um encontro entre a técnica e a ternura emocional que marcam a obra de Tia Amélia.

Ao fim, a “Valsa Gratidão” parece nos devolver à entrada do Teatro Goiânia, um lugar onde a música e a história se encontram de mãos dadas, olhando o futuro com esperança.

Raul Seixas aos 80: o maluco que sabia demais

Raul Seixas (28/06/1945 – 21/08/1989)

Se estivesse vivo, Raul Seixas completaria 80 anos nesta semana. Seixas é daquelas que não passam em branco, não apenas por se tratar do “Maluco Beleza”, mas porque sua obra continua a incomodar, provocar e emocionar. E isso, convenhamos, é um feito raro.

Raul foi mais que um cantor de rock. Foi um pensador popular,  talvez o mais desconcertante que o Brasil produziu. Sua voz rouca, letras delirantes e postura anárquica disfarçavam um intelectual autodidata, profundamente interessado em filosofia, esoterismo, literatura e história das religiões. Poucos sabem que lia Aleister Crowley e Krishnamurti com a mesma fome com que ouvia Elvis Presley, Luiz Gonzaga ou Little Richard. E dessa mistura improvável — misticismo, baião e rock’n’roll — nasceu uma das linguagens mais originais da música brasileira.

Raul falava sério brincando e brincava falando sério. Em canções como Metamorfose Ambulante, Gita ou Ouro de Tolo, ele dava forma a angústias existenciais com um vocabulário simples, direto e impactante. Transformava o caos em poesia popular. E talvez por isso tenha incomodado tanto. Era rebelde sem pose, niilista de chinelo, messias de esquina.

O escritor Paulo Coelho (à esq.) e o cantor Raul Seixas, em foto de 1973 – Acervo Instituto Paulo Coelho/Divulgação

O Brasil dos anos 1970 e 80, pleno de autoritarismo e “caretice”, não estava preparado para a Sociedade Alternativa que ele e Paulo Coelho idealizavam. Foram presos e exilados. Raul resistia com humor ácido, como em Mosca na Sopa ou Aluga-se, sempre cutucando os poderes, as convenções, a “pasmaceira” geral.

Mas sua transgressão vinha da lucidez, não do delírio. Quando dizia “faz o que tu queres, há de ser tudo da lei”, não estava incitando o caos, e sim propondo responsabilidade individual, autonomia e liberdade como pilares de uma nova ética, conceitos que vigoram  até hoje, especialmente entre os jovens que descobrem suas canções como quem encontra um manual secreto de insubmissão.

A série “Raul Seixas: Eu Sou”, recém-lançada pelo Globoplay, traz à tona um lado mais íntimo do artista. Depoimentos de familiares, amigos e parceiros revelam o homem por trás do mito: tímido, afetuoso, cheio de medos, mas também encantado pela própria capacidade de fabular. Sua filha Vivian, ainda menina quando ele morreu, lembra com doçura do “Capitão Garfo”, personagem que Raul inventou para assustar e divertir a filha, um gesto que diz mais sobre sua humanidade do que mil reportagens biográficas.

Mesmo em declínio físico e marginalizado pela indústria, Raul jamais deixou de produzir. Seu último disco, A Panela do Diabo (1989), feito em parceria com Marcelo Nova, é um testamento de lucidez e resistência. Dois dias depois do lançamento, morreu de forma súbita. Estava debilitado, mas consciente,  de si, do mundo e de sua obra.

Raul Seixas não teve medo de morrer. Teve medo de ser esquecido. Mas o tempo o desmentiu: nunca foi tão ouvido, tão citado, tão atual. Seu legado atravessa gerações porque não está ancorado apenas em acordes ou melodias, mas em ideias. Ele nos ensinou a rir da desgraça, a questionar os dogmas,  e,  talvez o mais difícil, a pensar com a própria cabeça.

Raul é daqueles artistas que não cabem em rótulos. Cabem em baús, como o que ele próprio mantinha desde criança, cheio de chicletes mascados, desenhos, cadernos e memórias. Um gesto de arquivamento afetivo que já apontava para a ideia de permanência.

O Brasil ainda precisa de Raul. Não o Raul-mito, ídolo plastificado de camiseta em feiras alternativas, mas o Raul-homem, o criador de perguntas incômodas. Talvez por isso seja tão simbólico que, aos 80, ele volte à cena em uma série documental e em álbuns tributo. Porque o “maluco beleza”, como a “mosca na sopa”, nunca desaparece: volta sempre para lembrar que ainda há muito o que sacudir.

Raul Seixas  – “Ouro de Tolo”,

Ouça  “Ouro de Tolo”, uma das obras  emblemáticas de sua carreira e da história do rock brasileiro.

Observe que essa canção tem  um acompanhamento simples: voz, violão e discreto arranjo. Raul quis que a letra fosse protagonista, como num monólogo musicado. Não há refrão tradicional. Há um fluxo contínuo de pensamento, quase um discurso falado com base harmônica repetitiva. É uma crítica feroz ao conformismo da classe média brasileira dos anos 1970, que aceitava a “vida arrumada” como fórmula de felicidade.

Fique atento a ironia aos valores da época: carro do ano, televisão, apartamento na planta, enquanto afirma: “Eu devia estar contente / Porque tenho um emprego / Sou um dito cidadão respeitável…” 

“Ouro de Tolo”  nós ajuda a entender Raul Seixas como pensador libertário, um artista que desafiou o status quo com filosofia popular, humor ácido e rebeldia refinada. Seu gênio está no fato de falar com o povo, sem jamais subestimá-lo.

Nana Caymmi: uma voz inconfundível, um legado irredutível

Nana Caymmi (1941 – 2025)

Na quinta-feira, 1º de maio de 2025, o Brasil perdeu uma de suas intérpretes mais intensas e singulares: Nana Caymmi, aos 84 anos, após nove meses de internação para tratar uma arritmia cardíaca. O corpo foi velado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em uma despedida carregada de emoção, com familiares, artistas e admiradores rendendo homenagens à cantora que, mesmo nos silêncios, impunha presença.

Nascida Dinahir Tostes Caymmi em 1941, filha de Dorival Caymmi e Stella Maris, Nana carregava a música no sangue, mas o talento que herdou da família nunca a impediu de construir um caminho próprio. Ao contrário: fez questão disso. Recusou-se a ser moldada pelo mercado, recusou modismos, recusou até o sucesso fácil. Preferiu o rigor. Gravou apenas o que queria da forma como queria. Foi temperamental, foi polêmica, foi intensa. Mas também foi dona de uma voz inconfundível: grave, emotiva, de afinação precisa. Atravessou décadas e fez da canção um território de verdade.

Danilo, Nana e DoriFamília Caymme

Nana era muitas: a jovem que estreou no disco do pai cantando “Acalanto”, a mulher que encarou vaias no Maracanãzinho ao vencer um festival com “Saveiros”, a artista que encantou a Argentina nos anos 70 e reescreveu o bolero nos anos 90. Gravou Tom, Vinicius, Tito Madi. Transformou “Resposta ao Tempo” em hino nacional do lirismo, eternizando a canção de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc. Foi parceira de palco e de vida de figuras como João Donato, Claudio Nucci e Gilberto Gil, este último, ex-marido e amigo até o fim, que lhe prestou as últimas homenagens com um beijo de despedida no velório.

Nana Caymmi e Gilberto Gil

Sua trajetória artística composta de 25 álbuns e interpretações históricas como “Sentinela”, “Só Louco” e “Cais” é  marcada por coragem e coerência. Nana nunca se aposentou: apenas resistiu até onde pôde. Mesmo ao declarar, já nos últimos anos, que se sentia “defasada”, sua música seguia reverberando em quem sabia ouvir.

Teve três filhos, duas netas, quatro casamentos e muitos amores. Viveu cercada por afetos e contradições. E fez disso tudo uma arte. Sua filha Stella Teresa, ao se despedir, lembrou-se da canção que Dorival compôs para embalar o berço da primogênita:

“Mamãezinha precisava descansar”

 Nana não quis ser ícone. Preferiu ser fiel. À própria história, à sua forma de cantar, às dores e delícias que a vida impôs. O Brasil perde uma artista que jamais fez concessões, mas ganha um legado impossível de apagar. Como escreveu o irmão Danilo:

“ela era muito emotiva e carregava isso para dentro da música”.

Descanse, Nana. O tempo, este que você desafiou tantas vezes com sua voz, agora é quem se cala para te ouvir.

Como epílogo desta despedida, sugerimos a audição de Resposta ao Tempo (Cristóvão Bastos e Aldir Blanc), gravada ao vivo por Nana Caymmi em 2012 no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, acompanhada por Wagner Tiso e pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, sob a  regência de Roberto Tibiriçá.

Disponível no Youtube, essa interpretação é marcada pela delicadeza do arranjo orquestral e pela voz madura, grave e serena de Nana. Fique atento à interpretação de Nana nessa gravação que condensa a essência de sua arte: o domínio absoluto da emoção, o fraseado preciso, o respeito ao silêncio e à palavra cantada. Nana não interpreta a música: ela a respira, a entrega e a transcende.

Se a morte a silenciou, essa canção, comovente como um adeus sussurrado ao ouvido do tempo, assegura que sua voz permanecerá entre nós.

Palais Garnier: 150 anos do palácio onde a ópera virou monumento

Palais Garnier, Paris

Há teatros que acolhem espetáculos. E há palácios que são eles próprios, o espetáculo. O Palais Garnier, em Paris, que completou 150 anos em janeiro de 2025, pertence a essa segunda categoria. Mais que um palco para a ópera, é uma obra de arte total, um monumento erguido para o encantamento.

Retrato de Charles Garnier, um amigo do artista, 1868

Projetado pelo jovem arquiteto Charles Garnier, o edifício foi inaugurado em 1875, ao fim de uma construção marcada por guerras, inundações e mudanças políticas. Surgia ali um novo ideal de espaço cultural: não apenas um local para ouvir música, mas um ambiente de convivência, de deslumbramento, de afirmação social e estética. Um lugar em que o público não assistia apenas como expectador, mas, era também parte do espetáculo.

Por fora, a fachada em estilo neobarroco exibe colunas, frisos, esculturas.  Por dentro, a opulência dos veludos, dourados e espelhos faz com que cada visitante se sinta como se estivesse entrando num sonho. No centro da sala de espetáculos, um candelabro de mais de seis toneladas coroa a plateia. Acima dele, uma pintura do teto feita por Marc Chagall, em 1964, se sobrepõe à original de Jules Lenepveu – gesto polêmico que ainda hoje suscita debates.

Mas o Garnier não é apenas beleza. É também um feito de engenharia. Sua estrutura foi pensada para acomodar grandes montagens e abrigar complexos sistemas de iluminação, cenografia e acústica,  quase uma “máquina de sonhos”. E foi essa visão de um teatro monumental que inspirou, no Brasil,  a construção de edifícios como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e o de São Paulo.

A ópera que ali floresceu era a chamada grand opéra, um gênero tipicamente francês que unia música, teatro, dança, pintura e arquitetura. Uma experiência artística completa.

No subsolo do Garnier, há ainda outra história: a de um misterioso lago subterrâneo, origem do imaginário que inspirou O Fantasma da Ópera, romance de Gaston Leroux. Verdade ou ficção, o que importa é que o lugar nunca deixou de alimentar fantasias.

Como lembra o historiador Jorge Coli, em reportagem publicada na edição de abril da Revista Concerto:

“a perfeição propriamente técnica não bastava: era preciso criar um fabuloso palácio dos sonhos, onde, ao entrar, os espectadores se sentissem imersos na opulência dos ouros, dos bronzes, dos cristais e dos espelhos”.

Visitar o Palais Garnier é entrar em contato com uma ideia poderosa: a de que a arte pode ser um acontecimento urbano, uma experiência coletiva, um reflexo de época. E, mais que isso, é lembrar que certos lugares não apenas guardam memórias, eles moldam o próprio modo como a gente sonha.

Você já sonhou com um teatro assim?  Se as palavras ainda não forem suficientes para traduzir a grandiosidade do Palais Garnier, convido você a visitar virtualmente o interior desse “palácio dos sonhos”. Em um vídeo disponível em alta definição, é possível percorrer seus salões, escadarias e galerias como se estivéssemos ali, em silêncio, diante de uma ópera arquitetônica. Observe a opulência dos espelhos, dos cristais, dos mármores e dos tetos pintados como se tudo conspirasse para que o próprio edifício fosse um espetáculo. Uma experiência visual que faz compreender, com os olhos e com a alma, por que esse teatro é um dos grandes monumentos do imaginário artístico europeu.

Escadaria Central

Logo na entrada, a escadaria principal é um espetáculo à parte. Inspirada nos palácios barrocos, ela não serve apenas como passagem, mas como palco social — onde o ato de subir e descer já era, no século XIX, uma performance.

Sala de Espetáculos

Ricamente decorada com ouro, veludo vermelho e lustres de cristal, essa sala de espetáculos,  foi pensada para deslumbrar. O teto pintado por Marc Chagall em 1964 contrasta com a ornamentação original e cria um diálogo fascinante entre o passado e o moderno.

O Grand Foyer

Inspirado na Galeria dos Espelhos de Versailles, O Grand Foyer, era um espaço de convivência da elite parisiense. Observe os detalhes em bronze dourado, os espelhos, as pinturas alegóricas no teto e a luz dourada que parece intencionalmente teatral.

Mais do que um edifício funcional, o Palais Garnier foi concebido como um “palácio dos sonhos”, como diz Jorge Coli na Revista Concerto. Tudo ali — do mármore às esculturas, dos candelabros aos balaústres — é pensado para causar um encantamento quase onírico.

Maurice Ravel, 150 anos: quando o som se faz imagem

Maurice Ravel (1875 – 1937)

Em 7 de março de 1875, nasceu no sul da França um dos compositores mais singulares da música ocidental. Maurice Ravel cresceu entre culturas: o pai suíço, engenheiro de espírito aberto; a mãe basca, apaixonada por canções populares. Essa mistura de referências ajudou a formar um artista que, mesmo inserido no ambiente acadêmico do Conservatório de Paris, sempre trilhou seu próprio caminho.

Ravel não era dado a grandes gestos. Preferia a solidão do ateliê ao barulho dos salões. Trabalhava com minúcia, quase como um relojoeiro,  buscando em cada obra o equilíbrio entre clareza, cor e invenção. Para ele, a música não precisava contar histórias. Bastava sugeri-las.

Na sua juventude, ainda estudante, Ravel compôs uma peça que, anos depois, se tornaria um dos seus maiores sucessos: “Pavane pour une infante défunte” ou “Pavana para uma princesa morta”. O título soa melancólico, mas o próprio compositor dizia que o escolheu apenas pelo som das palavras. A peça não descreve uma morte, tampouco uma princesa real. É antes uma dança lenta, como as que eram feitas nas cortes espanholas do século XVII, embalada por uma delicadeza quase suspensa no tempo.

“As Meninas” (no original Las Meninas) Pintada em 1656 pelo artista espanhol Diego Velázquez (1599-1660). Atualmente ela faz parte do acervo permanente do Museu do Prado, em Madrid (Espanha)

Alguns dizem que Ravel se inspirou em quadros de Velázquez, como As Meninas, para imaginar essa princesa ausente. Outros falam da atmosfera de um sonho distante, de algo que se desvanece sem pressa. O que importa é que, ao ouvir a Pavane, temos a impressão de estar olhando para uma pintura feita de som.

Ravel compôs para muitos formatos: orquestras, piano solo, pequenos conjuntos, vozes. Era capaz de brincar com o jazz americano, homenagear danças antigas, ou evocar paisagens imaginárias. Em “Boléro”, talvez sua peça mais conhecida, um único tema se repete incansavelmente, ganhando força até atingir um clímax avassalador. Em “Jeux d’eau”, para piano, a água parece ganhar vida em notas que cintilam. Em “Ma mère l’Oye”, ele narra contos infantis com sons quase mágicos.

Por trás de tudo isso, há uma escuta muito atenta do mundo: dos ritmos de outros povos, das vozes do passado, dos gestos simples da vida cotidiana. Ravel não queria reinventar o mundo,  queria organizá-lo num delicado jogo de formas, onde cada detalhe importa.

Em 2025, celebramos os 150 anos de seu nascimento. Um bom pretexto para ouvir — ou redescobrir  essa música que diz tanto com tão pouco. Quem nunca ouviu Ravel pode começar pela Pavane. São apenas seis minutos, mas que podem abrir uma porta para algo maior. Basta estar disposto a escutar com calma. Como quem olha uma pintura antiga, sem pressa, deixando os olhos, ou os ouvidos,  encontrarem os contornos da beleza.

E talvez esse seja o maior presente de Ravel: nos lembrar que há beleza nas coisas pequenas. Que a música pode ser suave e, mesmo assim, ficar gravada na memória.

Martha Argerich (1941) e Yuri Temirkanov (1938 – 2023)

Sugerimos a audição do Concerto para piano e orquestra em Sol maior de Ravel. Entre as muitas gravações disponíveis, a interpretação de Martha Argerich, acompanhada pela Royal Stockholm Philharmonic Orchestra, sob a regência de Yuri Temirkanov, é um verdadeiro espetáculo. Argerich, conhecida por sua expressividade eletrizante e virtuosismo intuitivo, é uma das maiores especialistas nessa obra.

Vale observar, logo de início, como ela encara o “Allegramente”: com energia viva, precisão quase acrobática e uma leveza contagiante. A sua maneira de lidar com o ritmo sincopado, os timbres brilhantes e os contrastes dinâmicos revela tanto domínio técnico quanto inteligência musical refinada. No “Adagio assai”, é o lirismo que domina. Argerich sustenta a longa melodia com um toque tão delicado que parece fazer o tempo parar — um momento de pura contemplação, em que cada nota respira. Já no terceiro movimento, “Presto”, ela retorna com fôlego renovado: os saltos, os trilos e os ataques rápidos surgem com precisão e espontaneidade, como se tudo fosse fácil — embora saibamos que não é.

É uma escuta que evidencia justamente o que Ravel desejava: brilho, cor e leveza — tudo com um toque pessoal de gênio. Uma interpretação à altura de uma obra que, mesmo sem a “profundidade” pretendida, revela o quanto a leveza também pode ser uma forma de arte profunda.

Os 340 anos de Johann Sebastian Bach

Johann Sebastian Bach(31 de março de 1685 –28 de julho de 1750)

No dia 31 de março de 2025, Johann Sebastian Bach completaria 340 anos. E se ainda nos perguntamos por que falar de um compositor tão antigo, a resposta é simples: porque poucos nomes na história da música continuam tão vivos.

Bach não inventou a música que conhecemos hoje, mas a reorganizou de forma tão decisiva que sua obra é como uma espinha dorsal da tradição ocidental. Em sua música, tudo parece surpreendente: o encadeamento harmônico, o entrelaçamento das vozes, a arquitetura das formas. Mas essa aparente perfeição não é fria,  nela pulsa uma vitalidade rara, que emociona e desafia intérpretes e ouvintes até os dias de  hoje.

Como artista do  período barroco, Bach era um trabalhador incansável. Organista, professor, maestro e copista, tudo isso em meio a prazos apertados e critérios práticos. Sua produção é monumental: mais de mil obras catalogadas, incluindo cantatas, missas, paixões, oratórios, concertos, música de câmara e uma extensa literatura para instrumentos de teclas. Mas, para além da quantidade, o que impressiona é a coerência estética e o rigor técnico.

Bach escreveu uma música funcional: para cultos, para exames, para benefícios específicos. Mas, de alguma forma, ele extraiu a beleza universal dessas tarefas diárias. A música de Bach funciona como um mecanismo preciso, onde cada parte tem sua função, mas ao mesmo tempo existe liberdade, invenção e expressão. Um paradoxo que o torna único.

Uma das obras que melhor resume essa genialidade é “O Cravo Bem Temperado” , escrito em duas partes, sendo cada uma com 24 pares de prelúdios e fugas, uma para cada tonalidade maior e menor. Trata-se de um verdadeiro laboratório de formas, texturas e afetos. Não à toa, Chopin estudou seus prelúdios todos os dias.

Fuga em lá menor do segundo Livro de Das Wohltemperierte Clavier (manuscrito)

O compositor Adam Schoenberg disse:

“Com Bach, nada se perdeu: tudo é desenvolvimento”.

 O pianista Glenn Gould afirmou:

“a obra de Bach é a gramática da música ocidental”

Órgão Barroco de 1650 Jörg Hansen, diretor do Museu  “Casa de Bach” Turíngia, no leste da Alemanha

O termo cravo, no Dicionário Grove, é descrito como: “instrumento de teclado com cordas, diferenciado do clavicórdio e do piano, pelo fato de suas cordas serem pinçadas e não percutidas”. O cravo é um instrumento de teclas anterior ao piano.  

Ao compor O Cravo Bem Temperado, Bach usou o titulo: Das Wohltemperierte Clavier. Talvez, o título alemão, poderia ser mais preciso se traduzido como O teclado bem temperado. Uma obra prima que fala diretamente ao ouvinte: basta ouvir.

Nesta data simbólica, sugerimos a audição do Prelúdio e Fuga nº 17 em Lá Bemol Maior, BWV 862, do Livro 1 do “O Cravo Bem Temperado’”.

Observe que o prelúdio tem uma leveza luminosa, quase pastoril. Já a fuga é mais recolhida, com ressonâncias introspectivas, como se Bach se voltasse para dentro, sem deixar de olhar o mundo com ternura.

Ouvir Bach aos 340 anos de seu nascimento não é apenas um exercício de memória. É um gesto de atualidade: porque sua música nos reconecta ao essencial — à escuta, à ordem, à complexidade, à emoção.

Como escreveu o regente John Eliot Gardiner,

“Bach não precisa ser entendido. Ele precisa ser ouvido”.

No vídeo abaixo, Prelúdio e Fuga nº 17 em Lá Bemol Maior, BWV 862, do Livro 1 do  “O Cravo Bem Temperado” interpretadopelo pianista András Schiff.

“Ainda Estou Aqui”: filme com Fernanda Torres

 A Música e a Resistência Brasileira no Globo de Ouro

Fernanda Torres Vence o Globo de Ouro

A recente conquista de Fernanda Torres no Globo de Ouro por sua atuação, como atriz, em “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, reafirma não apenas o poder do cinema brasileiro, mas também a importância da música como fio condutor das nossas histórias. O reconhecimento não é apenas de uma performance impecável, mas também de uma narrativa que usa a música para representar o tempo.

Fernanda Torres como Eunice Paiva

Em seu papel como Eunice Paiva, Fernanda Torres interpreta uma mulher que luta contra o silenciar da história, insiste, e, principalmente, carrega o peso de uma memória coletiva. Essa resistência, porém, não estaria completa sem a trilha sonora que dá voz aos silêncios e sustenta a história em momentos cruciais.

Walter Salles, com sua direção sensível, utiliza a música como um personagem. Warren Ellis, responsável pela trilha original, busca nomes como Tim Maia, Gal Costa e Caetano Veloso e tece uma colcha sonora que une o íntimo ao coletivo: a memória ao presente. No último ato do filme  a combinação entre o olhar de Eunice e os acordes sutis de Ellis traduz a profundidade da cena. Essa singularidade,  ganha mais peso, com o discurso emocionado de Fernanda ao receber o prêmio e homenagear sua mãe, Fernanda Montenegro, que dá vida a Eunice dos últimos anos de vida.

Fernanda Torres e Fernanda Montenegro

É também notável como a seleção musical do filme é  capaz de levar ao público internacional partes do Brasil. De Falsa Baiana, com a voz cristalina de Gal Costa, à energia ritualística de Tim Maia em A Festa do Santo Reis, as canções não são apenas ilustrações do período retratado; são documentos históricos que representam o passar do tempo. Petit Pays, de Cesária Évora, uma ressonância universal, em contraponto  conecta e ancora a família Paiva,  às ausências que  e permeiam a saudade.

Mais do que uma obra cinematográfica, “Ainda Estou Aqui “ é um testemunho de que a música possui a capacidade  de  permitir que as  emoções  nos conecte com memórias coletivas. Como bem disse Walter Salles em entrevistas recentes,

“a música não está no filme apenas para pontuar emoções, mas para construir a narrativa junto com os personagens”.

Na solenidade de premiação Globo de Ouro no ultimo 05 de janeiro, ao ouvir o nome de Fernanda Torres, entre aplausos, não foi apenas sua vitória que celebramos, foi à confirmação de que o Brasil insiste em contar suas histórias, com coragem e arte. E que a resistência, tal como nossa música, não se cala diante do tempo.

Mais uma vez, não foi tarefa fácil destacar apenas uma das obras da trilha sonora de “Ainda Estou Aqui”. Ouviremos Falsa Baiana na voz de Gal  Costa.

Observe e comtemple uma das vozes mais agradáveis de ouvir.

Vitória da PesquisaNova Valsa de Chopin Descoberta em uma  Biblioteca de Nova York

Chopin (1810 – 1849)

Dizem que, de tempos em tempos, a história revela surpresas inestimáveis para aqueles pesquisam nas páginas amareladas e nas prateleiras esquecidas das bibliotecas. Em uma tarde comum, o curador Robinson McClellan, da Morgan Library & Museum de Nova York, teve o que ele chamou de “encontro de uma vida”. Em meio a uma coleção variada que incluía cartões postais assinados por Picasso e cartas de Tchaikovsky e  Brahms, McClellan parou ao abrir uma partitura que, sob o rótulo modesto de “Valse”, carregava o nome enigmático de Chopin.

The Morgan Library and Museum in New York City

A descoberta é um tesouro raro e inesperado: uma valsa inédita de Frédéric Chopin, perdida no tempo e nas mãos de colecionadores que talvez desconhecessem seu verdadeiro valor. Desde 1849, ano da morte do compositor, o mundo musical achava que já conhecia todos os legados possíveis deixados pelo mestre polonês, mas esta valsa, curta, com apenas 48 compassos, parece desmentir essa suposição.

A peça é peculiar em vários sentidos. Com uma abertura marcada por “fortíssimo triplo” (uma indicação de intensidade extrema), seu tom melancólico e dramático foi descrito por Lang Lang, pianista escolhido para a primeira gravação pública da valsa, como uma música “incrivelmente Chopiniana”, evocando as dores e incertezas de seu tempo. Não é uma peça de virtuosismo grandioso, mas carrega a essência melódica e emocional que é a marca registrada do compositor. A tonalidade de lá menor parece remeter diretamente ao inverno sombrio do interior polonês, uma melancolia que Chopin carrega em algumas de suas obras mais intensas.

Além do encanto musical, a descoberta tem gerado debates entre especialistas sobre sua autenticidade. A caligrafia minúscula e peculiar de Chopin, a mesma que assina a clave de fá de maneira inconfundível, é uma das evidências que reforçam a autenticidade do manuscrito. Outros elementos, como o tipo de papel e a tinta, também se alinham com os materiais que o compositor usava. Ainda assim, há algo que permanece em aberto, quase como um enigma deixado de propósito, talvez pela própria indecisão de Chopin em relação à obra.

O curador McClellan acredita que a peça foi escrita para alguém próximo, talvez uma dedicatória não formalizada, uma pequena recordação para um amigo ou uma admiradora. Chopin era conhecido por sua generosidade musical; em diversas ocasiões, presenteava pessoas com manuscritos de valsas ou outras peças menores. Não é difícil imaginar o jovem Chopin, entre seus 20 e 25 anos, ainda apegado à terra natal, compondo algo breve e sincero, como um pedaço de alma que pudesse carregar um instante efêmero, uma espécie de melancolia alegre.

Lang Lang (1982)

Na execução o pianista  Lang Lang, buscou capturar cada nuance do estilo chopiniano, a peça ganhou vida para o público em Manhattan. Lang Lang  cuidou da interpretação como quem entende que esta valsa é mais do que uma descoberta musical: é uma janela para as emoções de Chopin, um fragmento da alma que o compositor deixou escapar, talvez por acidente ou intencionalmente. O pianista refletiu sobre como cada toque e cada nota conseguem, ainda hoje, transportar o ouvinte para um universo de saudade e introspecção, um reflexo da jornada de Chopin entre Paris e a Polônia, lugares que nunca deixaram sua música.

É fascinante que Chopin, um gênio que se dedicou a escrever para o piano como poucos,  tenha deixado ainda tantas dúvidas e mistérios em suas partituras. Ele próprio, que ordenou que suas obras inacabadas fossem destruídas, talvez se surpreendesse ao ver que, séculos depois, um mundo inteiro celebra essa “pequena valsa” como uma vitória da pesquisa. Essa descoberta reforça a atemporalidade de Chopin e, mais uma vez, nos lembra de que, no universo da música, o passado nunca está realmente enterrado. Cada nota recém-descoberta tem o poder de transcender o tempo e de nos fazer vislumbrar um pouco mais da alma de um artista imortal.

Ouviremos essa gravação  realizada pelo afamado  pianista chinês,  Lang Lang, em 07  outubro de 2024 na qual foi apresentada essa obra inédita ao mundo.

Observe a beleza desta “pequena valsa” em lá menor, composta provavelmente  entre os anos de 1830 e 1835,  nessa interpretação cuidadosa e genial de Lang Lang.

O adeus ao Pianista Arthur Moreira Lima

(1940 – 2024)

Arthur Moreira Lima

Arthur Moreira Lima, um dos maiores pianistas brasileiros, saiu de cena nesta quarta-feira, aos 84 anos de idade. Nascido no Rio de Janeiro em 1940,  iniciou sua jornada musical aos seis anos sob a orientação de Lúcia Branco, a mesma professora que formou ícones como Nelson Freire e Tom Jobim. Desde cedo, o talento extraordinário de Arthur o destacou, culminando em conquistas históricas: o segundo lugar no Concurso Internacional de Piano Frédéric Chopin, em 1965, em Varsóvia, e o terceiro lugar no Concurso Tchaikovsky, em Moscou, em 1970. Essas conquistas abriram-lhe portas pelo mundo, onde interpretou compositores como Chopin e Liszt com a profundidade e a paixão de um mestre.

Arthur, no entanto, não se contentou em apenas brilhar no repertório clássico europeu. Ao longo de sua carreira, foi um defensor incansável da música brasileira, incluindo em seu repertório compositores como Ernesto Nazareth, Villa-Lobos e Radamés Gnattali. Em suas apresentações pelo mundo,  se destacava ao executar obras como o tango “Odeon” e a valsa “Coração que Sente”, levando a riqueza da nossa música para plateias internacionais. Seu piano revelava o coração do Brasil, que pulsava em cada interpretação, engrandecendo a música popular ao lado das grandes obras  da música de concerto.

Álbum  (1975) Arthur Moreira Lima, dedicado a Ernesto Nazareth

O álbum de 1975 de Arthur Moreira Lima, dedicado a Ernesto Nazareth, é amplamente reconhecido como um marco no resgate da obra do compositor, então pouco lembrado. Durante os anos 1970, Moreira Lima dividiu-se entre Rússia, França e Brasil, apresentando-se com prestigiadas orquestras europeias e participando de gravações de música brasileira, como no álbum “ConSertão” do grupo Época de Ouro, em 1982. Nos anos 1980, iniciou esforços de popularização da música de concerto, destacando-se o programa “Toque de Classe” na TV Manchete. Já na década de 1990, realizou concertos em comunidades cariocas.

Nos anos 2000, Arthur deu início ao projeto Um Piano pela Estrada”,  com a missão de democratizar a música  de concerto em pequenas cidades e comunidades do Brasil. Em um caminhão-palco,  percorreu o país, tocando em praças e ruas, criando momentos memoráveis ao unir o erudito e o popular. Em suas performances ao ar livre, com uma mescla única de Chopin e Pixinguinha, ele aproximava o público brasileiro da música de concerto e, ao mesmo tempo, exaltava o valor da música nacional.

Moreira Lima gravou mais de 60 discos e se apresentou com as principais orquestras do mundo, incluindo a Filarmônica de Leningrado, Moscou, Varsóvia, Berlim, Viena e Praga, além da BBC de Londres e a National de Paris.

Morador de Florianópolis desde 1993, recebeu em 2003 o título de Cidadão Honorário da cidade, refletindo o carinho e o respeito que nutriu por sua terra adotiva. Sua última aparição pública foi em setembro deste ano, em uma cerimônia virtual na UFRJ, onde foi homenageado com o título de doutor honoris causa, reconhecimento por sua trajetória artística e por seu papel essencial na popularização da música.

Arthur Moreira Lima em dois momentos

Em sua carreira internacional, Arthur conquistou a crítica especializada  por onde passou.

A revista suíça La Suisse o batizou de maneira alegórica:

“Pelé do piano”

A crítica norte-americana reputou sua gravação dos Noturnos de Chopin como:

“o registro pianístico mais importante do ano”.

 O crítico londrino Dominic Gill, do Financial Times, declarou:

“Moreira Lima sabe tudo sobre o piano romântico, fazendo seu instrumento falar.”

O falecimento de Arthur Moreira Lima nos recorda o poder da arte em aproximar e inspirar. Assim como Chopin era a voz da Polônia, Arthur soube fazer seu piano falar o Brasil, ecoando sua alma em cada nota. Ele permanecerá vivo na memória daqueles que, em cada um de seus acordes, puderam sentir o pulsar da cultura do nosso país.

Ouviremos Odeon de Ernesto de Nazareth,  em gravaçãode 1975,  do pianista Arthur Moreira Lima.

Observe nesta interpretação de Odeon à brasilidade rara de Ernesto Nazareth, e o pianismo particular de Arthur Moreira Lima.

“O Eco Perdido de Mozart: A Redescoberta de um Trio Inédito”

Partitura inédita encontrada em Leipzig na Alemanha

Uma descoberta extraordinária abalou o mundo da música clássica: uma obra inédita de Wolfgang Amadeus Mozart foi revelada ao público. Encontrada em uma biblioteca de Leipzig, na Alemanha, essa composição, que data dos anos 1760, quando o gênio ainda era um adolescente prodígio, oferece um vislumbre inestimável do jovem Mozart em pleno processo de desenvolvimento criativo. Trata-se de um trio para cordas com sete movimentos-miniatura, que, com cerca de 12 minutos de duração, foi nomeado de “Ganz kleine Nachtmusik” (ou “Música Noturna Muito Pequena”).

Essa obra representa mais do que uma simples adição ao catálogo do compositor austríaco; é um novo fragmento de sua história, uma parte perdida que se reintegra ao vasto legado de um dos maiores compositores de todos os tempos. O manuscrito não foi escrito pelas mãos do próprio Mozart, mas acredita-se que seja uma cópia feita por volta de 1780. Sua revelação ocorreu com a mais recente edição do catálogo Köchel — a referência definitiva da obra de Mozart.

Ulrich Leisinger, pesquisador-chefe da Fundação Internacional Mozarteum

Ulrich Leisinger, pesquisador-chefe da Fundação Internacional Mozarteum, responsável pela edição mais recente do catálogo, destacou a relevância dessa descoberta:

“Até agora, conhecíamos o jovem Mozart principalmente pelas peças para piano, árias e sinfonias, mas há muito se especulava sobre a existência de obras de câmara compostas em sua juventude”.

A lista de obras, elaborada pelo pai de Mozart, já sugeria a existência de outras peças, que agora emergem com o ressurgimento deste trio.

Há quem diga que a inspiração para essa peça tenha vindo de Nannerl, irmã de Mozart, também musicista, e grande incentivadora de seu talento musical do irmão. Leisinger acredita que ela poderia ter guardado essa obra como uma recordação dos tempos em que ambos compartilhavam o gosto pela música e tocavam juntos. O trio foi executado pela primeira vez no dia 19 de setembro em Salzburgo e teve sua estreia alemã na Ópera de Leipzig, em 21 de setembro.

A plateia de Leipzig, tradicionalmente apaixonada por música, compareceu em massa, desejosa de ouvir essa joia escondida por séculos. Foram grandes momentos para um pequeno, porém precioso, pedaço de Mozart. “Ganz kleine Nachtmusik” não apenas reafirma o gênio atemporal do compositor, como também serve de lembrete de que, mesmo em um campo tão minuciosamente explorado, o passado pode sempre surpreender e emocionar.

Este trio ressurge como uma cápsula do tempo, destinada a encantar uma nova geração de ouvintes e a reforçar o legado imortal de Wolfgang Amadeus Mozart.

Ouviremos s essa obra inédita no momento em que foi apresentada pela primeira vez ao público na Ópera de Leipzig.Observe o formato da obra, com sete movimentos curtos, é incomum para trios de cordas e demonstra a capacidade de Mozart de explorar diferentes atmosferas musicais em pequenos espaços de tempo.