NARA LEÃO (1942-1989)

Transpondo a imagem de mera musa da Bossa Nova

NARA LEÃO (1942-1989)

Nara Lofego Leão nasceu em Vitória do Espirito Santos, mas foi na capital carioca, ainda na adolescência, que transforma o apartamento de seus pais em um ponto de encontro de jovens compositores ligados à criação da Bossa Nova.

Nara Leão em 1964

Nara Leão, como ficou conhecida, era a segunda filha do casamento entre o advogado Jairo Leão e a professora Altina Lofego Leão, e, irmã mais nova da modelo e jornalista Danuza Leão.

Foi com os amigos que se reuniam no apartamento da família na zona sul que entediados com as músicas que estavam sendo feitas no país, começaram utilizar as reuniões para buscar ritmos diferentes e fazer uma nova música.


No apartamento de Nara Leão
Nara Leão, Roberto Menescal e Dori Caymmi

Foram nesses encontros com a participação de artistas como Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994), Roberto Menescal (1937) e João Gilberto (1931 –  2019), e, outros grandes nomes da música brasileira que teria nascido a bossa-nova.  Em função disso, Nara Leão, torna-se a musa daqueles rapazes que queriam fazer música com poesia.

A estreia profissional de Nara aconteceu com o musical de Vinícius de Moraes (1913 – 1980) e Carlos Lyra (1939), ‘Pobre Menina Rica‘. Apesar da superprodução, o espetáculo não fez o sucesso esperado.


Lyra (à esquerda), o produtor Aloysio de Oliveira, Nara Leão e Vinicius

Curiosamente a musa da bossa-nova alcançou o sucesso após espetáculo Opinião, juntamente com João do Vale (1934 – 1996) e Zé Keti (1921 – 1999), em uma  obra de crítica social à repressão durante o regime militar no Brasil, iniciado em 1964.


SHOW OPINIÃO
LP Nara Leão, Zé Keti & João do Vale  

Em 1966, Nara vence o II  Festival de Música Popular Brasileira da TV Record com a música “A Banda” de Chico Buarque (1944) e conquista definitivamente o público brasileiro.

Chico Buarque e Nara Leão

Foi a partir do contato com o ambiente politizado do Centro Popular de Cultura (CPC), ao lado de  Carlos Lyra (1939) e dos cineastas Ruy Guerra (1931),  Cacá Diegues (1940) e Glauber Rocha (1939 – 1981) que  Nara  passa a se interessar mais pelas ideias de esquerda.

Em entrevista em 1966 a cantora declara:

Os militares podem entender de canhão ou de metralhadora, mas não ‘pescam’ nada de política”

A repercussão da entrevista causou problemas com o, então presidente, Arthur da Costa e Silva que  pretendia  enquadrá-la na Lei de Segurança Nacional. Para a sorte de Nara, uma legião de intelectuais saiu em sua defesa, entre eles o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987).

A percepção de uma saturação da música de protesto leva a cantora a retomar o lirismo da canção popular. A partir de intensa pesquisa, Nara retoma o cancioneiro da era do rádio fazendo uma releitura da modinha imperial; do choro de Ernesto Nazareth (1863-1934); passando por sambas e marchinhas da era do rádio.

A Musa da Bossa Nova, também recebeu o convite para o álbum “Tropicália ou panis et circensis” e integrou o movimento provando toda a sua versatilidade e generosidade. Nara cantou “Lindonéia” e trouxe para o disco questões como violência e feminicidio, temas que não eram muito ventilados naquela época.

Nara Leão e a Tropicália

Casada com Cacá Diegues,  permaneceram um tempo no exílio na Itália e na França.


Casamento de Nara Leão e Cacá Diegues
26 de Julho de 1967

Voltando ao Brasil, dedicou-se quase que exclusivamente à maternidade e foi estudar psicologia.

Nara Leão e os filhos Francisco e Isabel

Nara Leão retomou aos poucos a sua carreira cantando com amigos e fazendo shows por todo mundo, principalmente no Japão, onde tinha um público cativo.

Prematuramente, aos 47 anos, na manhã de 7 de junho de 1989, Nara  morreu devido a um tumor inoperável no cérebro.

Nara Leão foi muito mais do que um ícone da Bossa Nova. Com uma obra eclética, a cantora, compositora, artista plástica, violonista e até atriz, transitou entre a bossa nova e o tropicalismo, passou pelas canções da era do rádio, visitou o samba do morro, contribuindo de forma significativa para a Música Popular Brasileira.

Ouviremos Nara Leão interpretando “QUEM É?” de Joracy Camargo (1898 – 1973) e Custódio Mesquita(1910 – 1945) do Álbum: A Lenda Viva de Carmen Miranda.

Observe como Nara Leão consegue recuperar a oralidade e ritmo do álbum original, porém em um registro mais conciso, eliminando vibratos e outros tipos de ornamentação. Fantástico!

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ERIK SATIE (1866-1925)

Um compositor excêntrico

Erik Satie, por Gabriele Donelli (2016)

Dono de uma personalidade curiosa, o compositor francês Erik Satie (1866-1925), não está na lista dos mais conhecidos. Porém sua obra está nos nossos ouvidos, principalmente na espera do telefone comercial de consultórios médios, em salas de espera e em propaganda de sabonete.

As Gymnopédies são três composições para piano. Curtas e atmosféricas.   Escritas pelo polêmico Erik Satie que você com certeza já ouviu.

Publicadas em Paris a partir de 1888, as peças compartilham um tema e uma estrutura comum. Coletivamente, elas são consideradas precursoras da música ambiente – que Satie chamava de musique d’ameublement, a música que preenchia o ambiente.

Paris, 1888

Para Satie, essa música deveria fazer parte dos ruídos naturais, sem se impor, tomando por base os estranhos silêncios que ocasionalmente caíam sobre os convidados, neutralizando os ruídos da rua.  Mas, na época, isso tudo parecia até mesmo uma piada e as pessoas insistiam em ficar quietas prestando atenção na performance.

Erik Satie então gritava nervoso:

Falem alguma coisa! Mexam-se! Não fiquem aí parados só escutando!”

As Gymnopédies são peças calmas e excêntricas. Ao compor este conjunto de obras, Satie desafiou a tradição clássica, usando dissonâncias deliberadas contra a harmonia e produzindo um efeito melancólico que combina com as instruções de execução, que são tocar cada peça lentamente e dolorosamente.

Ramom Casas Erik Satie (El bohemio; Poet of Montmartre), 1891 óleo sobre tela ,
198.8 x 99.7 cm (78 1/4 x 39 1/4) Northwestern University Library

O título Gymnopédie é tido como derivado do antigo Festival Grego Gymnopadia, dedicado ao Deus Apolo, no qual jovens nus dançavam ao som da flauta e da lira.  

A música de Satie foi, em seu tempo, apreciada por poucos e desprezada pela maioria dos compositores e críticos musicais. Diversas fragilidades eram apontadas, como por exemplo, a deficiência na formação enquanto compositor e pianista. Diziam que as suas miniaturas musicais com escalas pouco convencionais, harmonias estranhas e uma total ausência de virtuosismo instrumental eram apenas o reflexo de um compositor de fracos recursos técnicos.

Embora excêntrico e duramente criticado pela academia, era admirado por personalidades como Maurice Ravel (1875-1937), Claude Debussy (1862-1918) e Pablo Picasso (1881-1973).

Pablo Picasso (1881-1973)

Segundo o pintor espanhol:

“Satie foi uma das mais importantes influências em minha vida” Pablo Picasso

Erik Satie compôs uma música inovadora e original, incorporando em suas obras títulos bem humorados e sons extravagantes como de máquina de escrever, sirene e tiro de pistola, o que era  objeto de grande escândalo.

O irreverente e excêntrico Satie media 1,67 metros, sendo famoso por possuir doze ternos idênticos, cinza de veludo, e fazia coleção de guarda-chuvas e cachecóis. Além destas particularidades ainda detestava sol e tinha a estranha mania de comida branca como: arroz, ovo, coco, peixe, nabo, queijo, entre outras.

Erik Satie , por Alfred Frueh

 Após anos de vida boemia, morreu de cirrose em 1 de julho de 1925.    Além de compor também escrevia e fazia caricaturas, inclusive dele mesmo.  

Ouviremos as famosas “Trois Gymnopédies” (1888), interpretadas pela pianista francesa Anne Queffélec (1948).

Observe à calma e excentricidade das “Trois Gymnopédies” de Erik Satie.

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TOM JOBIM (1927-1994)

“muito mais do que uma unanimidade, no restrito círculo dos decanos da crítica de jazz mundial”

Tom Jobim (1927-1994)

O carioca Antônio Carlos Jobim estudou música com grandes ícones da música de concerto. Entre seus mestres estão o alemão radicado no Brasil, Hans Joachim Koellreutter (1915 – 2005) e Lúcia Branco (1903 – 1973), também professora do pianista Nelson Freire (1944).  


Nelson Freire, olhando para a foto de sua professora Lúcia Branco, entre fotos de Liszt e Guiomar Novaes

Outra importante aprendizdo, foi, a partir de 1954, quando contratado pela gravadora Continental, começou fazer seus primeiros arranjos supervisionado pelo grande maestro Radamés Gnatalli (1906 – 1988).

Tom Jobim e Radamés Gnatalli

Seu primeiro grande sucesso, na gravadora, foi com a música “Teresa da Praia”, uma parceria com Billy Blanco, gravada em 1954 por Lúcio Alves e Dick Farney. Não por acaso, seu primeiro casamento (1949), foi com uma Teresa, paulista que conheceu na praia aos 15 anos, e com quem, mais tarde teve dois filhos.

“muito mais do que uma unanimidade entre o restrito círculo dos decanos da crítica de jazz mundial”

Antônio Carlos Jobim tocando violão junto à primeira esposa, Thereza Otero Hermanny, e aos filhos Elizabeth Jobim e Paulo Jobim, na Rua Nascimento Silva, 107, em Ipanema.
Autor: Vincent Ciantar – 1959

Talvez o maior acontecimento em sua vida, tenha sido encontro com Vinícius de Moraes (1913 – 1980), em 1956. O “Poetinha” andava procurando um músico para trabalhar com sua peça “Orfeu da Conceição”. A obra já existia, Tom a harmonizou e orquestrou. Nascia aí uma das mais importantes parcerias da música popular brasileira.

Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Seu grande sucesso, “Garota de Ipanema”, marca da parceria Tom e Vinicius, chegando a figurar entre as dez canções mais executadas em todo o mundo. Foi à obra que mais projetou o nome de Jobim no exterior. Garota de Ipanema foi gravada pelos maiores ícones da música internacional, entre eles, Frank Sinatra (1915 – 1998).

Requintado e dono de um rico repertório cultural, Tom Jobim (1927-1994) foi muito mais do que uma unanimidade entre o restrito círculo dos decanos da crítica de jazz mundial. A influência de sua obra alcançou inúmeros músicos populares espalhados no Brasil e ao redor do planeta.

Segundo Leonard Feather (1914-1994), um dos maiores críticos de jazz norte-americano:

Águas de Março, sem dúvida, é uma das cem maiores melodias do século 20. A sensibilidade de Jobim é algo único. Coisa de Mozart e Erik Satie”.

Amante da natureza e deslumbrado por pássaros, compôs poemas líricos dedicados a sabiás, matitaperês e urubus, Jobim foi um apaixonado pela vida. Morreu aos 67 anos, vítima de um câncer de bexiga, em dezembro de 1994.

Tom Jobim

Ao completar 41 anos Tom Jobim foi entrevistado por Clarisse Lispector (1920-1977) em matéria publicada pela revista Manchete em 21 de setembro de 1968. Indagado sobre o ato de compor, assim responde Tom Jobim à pergunta: “Como é que você sente que vai nascer uma canção”?

“As dores do parto são terríveis. Bater com a cabeça na parede, angústia, o desnecessário do necessário, são os sintomas de uma nova música nascendo. Eu gosto mais de uma música quanto menos eu mexo nela. Qualquer resquício de savoir faire me apavora”.

Em fevereiro de 2012 Tom Jobim foi homenageado na cerimônia do Grammy pelo conjunto de sua obra e foi o primeiro brasileiro a conquistar tal honraria.

Ouviremos “Fantasia Tom Jobim” em concerto realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em Janeiro de 2014, tendo como solistas: Marcos Nimrichter, piano; Daniel Guedes, violino; Carmem Monarca, canto; com participação do Quinteto Villa-Lobos. A regência é do Maestro Norton Morozowicz com a orquestra Sinfonia Brasil. A obra executada foi especialmente arranjada por Rodrigo Morte

Observe a riqueza desta música. Viva a música brasileira!

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BACH OU VIVALDI?

Concerto para quatro pianos e orquestra de cordas em lá menor

Antônio Lucio Vivaldi e Johann Sebastian Bach

O compositor alemão Johann Sebastian Bach  (1685-1750), tido como o maior nome da música barroca, sendo, por muitos, considerado o maior compositor de todos os tempos, deixou um grande volume de obras que validam o grande gênio que foi.

Johann Sebastian Bach  (1685-1750)

Já o italiano Antônio Lucio Vivaldi (1678-1741), compositor e sacerdote, também alcunhado de “o padre ruivo”, é autor de mais de setecentas obras, reconhecido através dos tempos, principalmente, por seus quatro concertos para violino e orquestra denominados “As Quatro Estações”.

Antônio Lucio Vivaldi (1678-1741)

Por volta de 1730, o compositor alemão, com intenções pedagógicas, transcreveu uma série de dezessete concertos para tecla. Um destes concertos era para quatro cravos e orquestra de cordas. Bach, com sua conhecida ética e retidão, anotou na partitura “segundo Vivaldi”.

Família Bach

Os concertos para cravo e orquestra foram uma novidade no tempo de Bach. Jamais os instrumentos de tecla haviam assumido o primeiro plano em uma composição orquestral antes de Bach.

“Trabalho incessante, análise, reflexão, escrever muito, autopunição infinita, esse é o meu segredo.” J. S. Bach

Em 1850, estudos musicológicos na Alemanha comprovam e atestam que o concerto para quatro cravos de Bach, era na realidade, uma transcrição do concerto para quatro violinos em si menor Op. 3 n.10 RV 580 de Vivaldi. Nessa época, por ser o compositor veneziano ainda pouco conhecido, alimentou-se rumores de que a obra do célebre Bach havia sido transcrita pelo “Padre Ruivo”.

 Em 1905 o musicólogo e violinista alemão Arnold Schering (1877-1941), responsável pela ressurreição moderna de Vivaldi, investigou e analisou minuciosamente vários manuscritos do compositor italiano, provando a procedência da obra e a realidade dos fatos. Segundo Schering, a obra era uma transcrição de Bach do original de Vivaldi.

Arnold Schering (1877-1941)

Quatro cravos; quatro solistas de peso; dois dos maiores compositores de todos os tempos – Não podia ser de outra forma – o Concerto para quatro cravos e orquestra de cordas em lá menor é uma obra prima.

Ouviremos de Johann Sebastian Bach o Concerto para quatro pianos e orquestra de cordas em lá menor  – Transcrição do concerto de Antônio Vivaldi para quatro violinos em si menor Op. 3 n. 10 RV 580, com solistas de tirar o folego. A argentina Martha Argerich (1941), o russo Evgeny Kissin (1971), o americano que partiu em março deste ano, James Levine (1941 – 2021), e, o russo Mikhail Pletnev (1957). Esse concerto foi gravado no prestigiado Festival Internacional de Música de Verbier na Suíça em 22 de Julho de 2002.

Martha Argerich ; Evgeny Kissin; James Levine e Mikhail Pletnev

Observe, nesse concerto, as combinações de novas texturas e sonoridades experimentadas pelo compositor alemão para os instrumentos de tecla.

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SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO E O CANTO DA VERÔNICA

Canto da Verônica consiste na história de uma jovem que transporta um véu no qual está impressa uma representação da face de Jesus Cristorasileiro do século XX
Santa Verônica

Por mais um ano, a Covid-19, pandemia pela qual o mundo está atravessando, faz com que as celebrações religiosas sejam virtuais. Lembramos então, de um tempo, em que a Semana Santa era celebrada presencialmente em várias partes do planeta.

A Quaresma começa na quarta-feira de cinzas e termina no Domingo de Ramos, que antecede ao domingo de Páscoa. Durante os quarenta dias que precedem a Semana Santa e a Páscoa, a tradição cristã recomenda a reflexão, a conversão espiritual, rememorando  os 40 dias passados por Jesus no deserto e os sofrimentos que ele suportou na cruz.

Um canto tradicional deste período, especialmente da Semana Santa, é o Canto da Verônica. O nome Verônica vem do latim e grego: vero ícone, que significa verdadeira imagem. Embora não haja nenhum registro Bíblico quanto à figura de uma personagem denominada Verônica, a Igreja Católica e seus fiéis, tradicionalmente representam nas Igrejas, em latim ou em português, o canto pungente de uma mulher, ritual ao qual se deu o nome de Canto da Verônica

Retirado de um trecho do Livro das Lamentações de Jeremiasversículo 12capítulo I, o Canto da Verônica consiste na história de uma jovem que transporta um véu no qual está impressa uma representação da face de Jesus Cristo. A personagem entoa um canto litúrgico e ao mesmo tempo, desenrola e exibe a estampa da face de Jesus Cristo.


Xilografia de Lamentações de Jeremias (1860),
por Julius Schnorr von Carolsfeld.

A tradição narra que essa jovem teria se aproximado de Jesus enquanto ele carregava a cruz, e ao limpar a sua face cheia de sangue e suor com seu véu,   a figura do rosto de Cristo ficou estampada no pano, que passou a ser chamado de Santo Sudário. O canto, ou o grito de lamentação, tinha o intuito de anunciar que o homem que seria crucificado era o verdadeiro Cristo.

Santo SudárioTurim- Itália

 Mais do que comprovar a existência de Verônica, podemos nos atentar à importância da tradição que este rito representa. Vale ressaltar que este canto/lamento é entoado em forma de responsório, uma forma de canto litúrgico na qual uma solista entoa versos, respondidos pela congregação ou coro. 


Verônica e as três “béus”

Ouviremos um exemplo vindo da Basílica Nossa Senhora do Carmo da cidade de Campinas (SP), apresentada em março de 2016.

Esse Canto da Verônica é de autoria de José Pedro de Sant’Anna Gomes (1834 – 1908), irmão do afamado Carlos Gomes (1836 – 1896) . A obra foi composta para a Paróquia Nossa Senhora a Conceição de Campinas.

José Pedro de Sant’Anna Gomes
(1834 – 1908)

A Verônica é interpretada por Adriana Kayama.  As três “béus” (mulheres chorosas), por Jussara Maria Oliveira; Elaine Virginia Dias Marchi e Beatriz Suzzara que cantam as três vozes o “Heu Domino” de um compositor anônimo de Minas Gerais do século XVII.

Adriana Kayama

Observe o grito de lamentação da Verônica e o canto das “Béus” também conhecidas como as “carpideiras” que acompanham e respondem o canto da Verônica.

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EUNICE KATUNDA (1915 – 1990)

Uma das musicistas mais atuantes no cenário musical brasileiro do século XX
Eunice Katunda (1915 – 1990)

A mulher inspiradora dessa semana é a pianista, compositora, regente, arranjadora, Eunice do Monte Lima, ou Eunice Katunda que também já foi Catunda.

Eunice Katunda foi brilhante! Mas, como muitas mulheres no mundo, ainda tem sua história pouco ventilada. Graças a autores como Ester Scliar, Carlos Kater, Joana Holanda, Iracele Souza, bem como, o Instituto Piano Brasileiro,  o nome de Eunice Katunda  se mantem vivo.

Curiosamente, aos sete anos, a carioca Eunice entrou para a escola regular, mas nunca chegou a completar nem mesmo o curso primário, recebia ensinamentos em casa em forma de tutoria.

Eunice Katunda

Na música, foi considerada menina prodígio, iniciado cedo os estudos com a filha do compositor Henrique Oswald (1852 – 1931) – Mina Oswald. Entre os 9 e 12 anos passa a integrar a classe da pianista e compositora Branca Bilhar (1886 – 1891), em seguida, estuda com o célebre crítico musical Oscar Guanabarino (1851 – 1937).

Oscar Guanabarino (1851 – 1937)

Com onze anos deu um concerto no Instituto Nacional de Música recebendo uma quantia em dinheiro suficiente para comprar um piano Steinway.

 Aos 18 anos casa-se com o matemático Omar Catunda, muda-se para São Paulo, e, recebe aulas do compositor Camargo Guarnieri (1907 – 1993).

Eunice , Omar e Igor Catunda

Em 1944, muito bem recomendada pelo compositor Heitor Villa Lobos (1887-1959), realizou uma série de concertos na Argentina. No programa, Eunice já demonstrava sua preocupação em divulgar a música brasileira contemporânea, interpretando obras de Villa-Lobos, Oscar Lorenzo Fernândez (1897-1948), Camargo Guarnieri e dela própria.

Camargo Guarnieri (1907 – 1993)

Posteriormente, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro passando a integrar o Grupo Música Viva, liderado por Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), desafeto de Camargo Guarnieri.

O Grupo Música Viva, numa primeira fase, foi integrado por figuras tradicionais do meio musical carioca, como Luiz Heitor (1905 – 1992), e Villa-Lobos (1887 – 1959); sendo, logo a seguir,  integrado pelo jovem aluno de Koellreutter, Claudio Santoro(1919 – 1989).

A partir de 1944 entram no grupo os novos alunos de Koellreutter – Guerra Peixe(1914 – 1993), Eunice Catunda e Edino Krieger (1928). Nesta ocasião o grupo foi assumindo um ar de modernidade radical, confrontando-se com as tradições estabelecidas no meio musical.

Koellreutter
Claudio Santoro; Edino Krieger; Guerra-Peixe e Eunice Catunda

Nesta época Katunda faz uma importante viagem à Europa, junto com colegas e com o mestre Koellreutter, para fazer um Curso Internacional de Regência na Bienal de Veneza, onde permaneceu por nove meses, estabelecendo contatos importantes com músicos como Hermann Scherchen (1891-1966), Bruno Maderna (1920-1973) e Luigi Nono (1924-1990). 

Hermann Scherchen (1891-1966), Bruno Maderna (1920-1973) e Luigi Nono (1924-1990)

Em 1948 o grupo Música Viva sofre uma ruptura, praticamente deixando de existir, por divergências políticas entre Koellreutter e os jovens compositores, filiados ou simpatizantes do  Partido Comunista Brasileiro que passam a seguir a estética do realismo socialista com a qual Koellreutter não concordava.

Na década de 50  Katunda atua predominantemente em São Paulo. Entre suas atividades destacam-se: ministrar cursos de iniciação musical no Museu de Arte Moderna de São Paulo em iniciativa pioneira; criação e direção de um programa semanal na Rádio Nacional de São Paulo intitulado Musical Lloyd; atuação como pianista da Rádio Gazeta, além de atuar como compositora e arranjadora durante todo este período.

Katunda começa a rever os conceitos propagadas por Camargo Guarnieri e passa a concordar com muitas de suas ideias.

Em 1958 Eunice  recebe, pelo trabalho junto à Rádio Gazeta, o prêmio Radiolândia de melhor pianista atuante em emissoras brasileiras.

A década de 1960 foi marcada por uma intensa atividade como instrumentista e por mudanças na vida pessoal. Neste período realizou duas turnês aos Estados Unidos, apresentando-se no Carnegie Hall.

Carnegie Hall

Em 1964, separou-se de Omar Catunda. Em função disso, trocou o “C” de Catunda por “K” para dissociar seu sobrenome do ex-marido. Faleceu em 3 de agosto de 1990 na casa de seu filho Igor Catunda, em São José dos Campos (SP).

Infelizmente a obra de Eunice Katunda é pouco frequentada. Compositoras desta magnitude devem ser lembradas, estudas e divulgadas.

Ouviremos a obra Brasília de Eunice Katunda interpretada pela Orquestra sinfônica Nacional sob a regência de Ligia Amadio (1964) com a participação do Coral Brasil Ensemble da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Observe a a riqueza desta obra composta por uma brasileira sob a regência de uma maestrina.

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DE CHIQUINHA GONZAGA A MARIELLE FRANCO

Mulheres que Inspiram
Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935) Marielle Franco (1979 – 2018)

No mês das mulheres, o Papo Musical, se propôs a escrever sobre mulheres inspiradoras na música.  Este março, diferentemente de outros, chegou sem grandes comemorações.  Uma Pandemia em seu pior momento, mortes, desemprego, desespero, abandono.

Mulheres inspiradoras foi uma maneira de lembrar que a luta continua. Uma das sugestões vindas das redes sociais foi Chiquinha Gonzaga (1847 -1935). Mulher que nunca se negou a lutar por direitos, na época, inimagináveis, e, já foi tema de postagens anteriores desse Blog.

Chiquinha Gonzaga, pianista e compositora.

Chiquinha contrariou as normas sociais vigentes, separou-se do marido e conseguiu, contra tudo e todos, impor-se ao realizar sua música fora da vida doméstica, tornando-se a primeira maestrina a reger uma orquestra no Brasil. Ao se rebelar contra os costumes da elite carioca, Chiquinha Gonzaga passa a integrar um grupo de músicos que viria a se constituir no núcleo embrionário da música urbana brasileira. É autora de Abre Alas, primeira marchinha de carnaval brasileiro.

Chiquinha Gonzaga foi uma das mulheres a inspirar compositores a contar a história de “mulheres de luta” através de samba enredo nos carnavais cariocas.  Em 1985 e em 1997,  foi enredo das escolas Mangueira e Imperatriz Leopoldinense. 

Imperatriz Leopoldinense (1997)

Na década de 1960 as escolas de samba ganham força nas ruas, momento em que entra em cena o chamado samba enredo (também conhecido como de samba de enredo), subgênero do samba moderno, surgido no Rio de Janeiro nos anos de 1950, especialmente para o desfile de uma escola de samba. 

Carnaval Carioca (1960)

Todo ano, as academias,  promovem concursos internos, onde várias composições são apresentadas ao público em suas quadras, sendo que ao final, normalmente entre os meses de setembro e outubro, uma dessas músicas é escolhida como samba-enredo oficial para o carnaval do próximo ano.   

O samba campeão embala a escola durante a fase de preparação, ensaios técnicos até ser o ator principal no desfile de carnaval.  Interessante notar que para que um samba seja considerado samba-enredo, deve retratar, de forma fiel e inequívoca, o tema escolhido pela direção da escola.

Em 2021 não houve carnaval.  Não houve samba enredo, nem mesmo homenagem as “mulheres de luta”.

Lembramos, nesta edição, o samba enredo campeão de 2019. A Estação Primeira de Mangueira  sagrou se campeã do carnaval do Rio de Janeiro com o enredo  criado por Leandro Vieira, no qual, exaltou líderes que influenciaram a história do Brasil. O carnavalesco procurou retratar os marginalizados pela  história oficial, defendendo os pobres, negros e indígenas.

Desfile da Mangueira (2019)

Um dos momentos mais marcantes do desfile foi à inclusão de uma homenagem à vereadora  e ativista Marielle Franco (1979 – 2018), assassinada em março de 2018 e cujo crime permanece sem solução.

Ouviremos o samba campeão de 2019 de autoria de Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, com solo da jovem, na época com 11 anos de idade, Cacá Nascimento.

Cacá Nascimento

Cacá assim se expressa sobre sua atuação:

“Estou muito feliz em representar essas mulheres. Mulheres que sofreram ou sofrem até hoje. Guerreiras que lutam por alguma causa.”

Observe a expressividade da interpretação da pequena Cacá Nascimento neste belo samba enredo.

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MARTHA ARGERICH

Toca com tamanha profundidade, emoção e risco que encanta plateias de todo o mundo.
Martha Argerich (1941)

Uma lenda viva, a pianista de sorriso fácil é reclusa, temperamental e imprevisível. Toca um piano como poucos no planeta, é mesmo um gênio que não consegue deixar de falar em música e de viver intensamente as obras que executa.

Martha Argerich tem uma vida bem fora dos padrões ortodoxos. Propensa a cancelar apresentações, há tempos deixou de assinar contratos, tendo os organizadores de assumir o risco de um cancelamento de ultima hora.

Martha Argerich

Muitos músicos vivem uma vida de uma ordem monástica, se concentrando na disciplina da música. Diferentemente da maioria, Argerich, acorda por volta de duas da tarde e estuda pela madrugada a fora. A história da pianista argentina é também sobre alguém com dons fora do padrão tentando encontrar um jeito de viver uma vida casual.

Martha Argerich

A filha mais nova de Martha, Stéphanie Argerich (1975), no documentário “Meu Sangue” (2012), retrata a intimidade da mãe. Segundo Stéphanie, ser filha de Martha Argerich é “como ser filha de uma deusa (…) ela é metade humana, metade deusa”. A filha do meio, Annie Dudoit, conta às câmeras que frequentar a escola era, em seu lar, uma espécie de rebelião.  Stéphanie termina o documentário de forma surpreendente. Ela pergunta à mãe se tocar o mesmo concerto várias vezes desgasta a obra, a pianista responde que não, pois a música sempre se renovava de algum modo, “um pouco como o amor”.

Martha Argerich e a três filhas

Uma das características de Martha é a lealdade com os amigos. Entre eles, dois dos pais de suas três filhas, o regente Charles Dutoit (1936) e o pianista e maestro Stephen Kovacevich (1940), foram sempre, além de companheiros, amigos muito presentes. 


Martha e Charles Dutoit
Martha e Stephen Kovacevich

São também muito próximos a ela, o pianista brasileiro Nelson Freire (1944), e seus parceiros de música de câmara, o violoncelista Mischa Maisky  (1948) e o violinista Gidon Kremer (1947). 

Nelson Freire e Martha Argerich

O pianista e regente Daniel Barenboim (1942) que a conhece desde que eram crianças prodígios na Argentina, há mais setenta anos, em depoimento sobre ela, diz:

Martha Argerich e Daniel Barenboim

“Não há ninguém hoje que eu conheça há tanto tempo quanto Martha, nosso relacionamento é baseado na música, é claro, mas também há um amor muito humano que nos conecta. (…) apenas os maiores artistas são capazes de manter o frescor da descoberta com a profundidade a reflexão, Martha Argerich é um deles. (…) Desde o começo, ela não era uma virtuosa mecânica, apenas preocupada com destreza e velocidade. Ela as dominou também, é claro, mas sua criatividade a permitiu criar uma quantidade e uma qualidade de sons no piano muito singulares.”

Seu fenomenal talento foi percebido desde a infância em Buenos Aires, onde estudou com o professor de origem italiana Vincenzo Scaramuzza (1885-1968) que disse sobre a aluna: “Argerich pode ter seis anos, mas sua alma tem 40”.

Martha ainda criança na Argentina

Sua carreira ganhou notoriedade aos 16 anos ao vencer os dois mais importantes concursos de piano europeus, o Busoni, na Itália, e a Competição Internacional de Genebra, consecutivamente, no intervalo de poucas semanas. A isso se seguiu uma série regular de concertos e louvores da crítica em uma vida itinerante para a qual Martha , revela que era jovem, tímida e despreparada para tamanho sucesso.

Martha Argerich

Aos 24 anos vence o Concurso Chopin de Varsóvia, passo decisivo para a sua carreira e reconhecimento internacional. Famosa pelas interpretações do grande repertório pianístico (Bach, Beethoven, Chopin, Schumann, Liszt, Debussy, Ravel, Bartók, Prokofiev), tendo trabalhado como solista com os mais famosos maestros e orquestras, Martha Argerich é considerada uma das maiores pianistas da atualidade.

Ouviremos o Concerto n. 3 em Do Maior, op. 26 de Sergei Prokofiev (1891 – 1953) com a pianista Martha Argerich sob a regência de André Previn (1929 – 2019) com a Orquestra Sinfônica de Londres.

Observe a intepretação dessa mulher inspiradora: “Martha toca piano brilhantemente, ferozmente e, talvez, melhor do que todo mundo na terra”.

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MÚSICA RUSSA DE CONCERTO

Produziu obras e nomes entre os mais importantes da cultura universal nos últimos duzentos anos

A Revolução Bolchevique de 1917 instaurou a União Soviética e transformou o Império Russo numa confederação de repúblicas socialistas. Atrás da “cortina de ferro” a União Soviética adotou o realismo socialista como estética oficial influenciando todas as gerações de músicos do século XX.  

Quem são estes músicos? Como é a música na Rússia? No que diz respeito à música folclórica há um som bem distinto de um instrumento de cordas com sonoridade bem peculiar, “a Balalaica”.   KalinkaKatiushaPoliushka Poliê e Suliko são algumas das  canções que compõem o repertório tradicional.

Balalaica

Já a musica de concerto produziu obras e nomes entre os mais importantes da cultura universal nos últimos duzentos anos. Os balés de Tchaikovsky, o afamado “grupo dos cinco” formado por Balakirey, Mussorgsky, César Cui, Kosakoy e Borodin, que influenciaram e formaram uma geração de sucessores representados pelos músicos: Stravinski, Prokofiev, Rachmaninov, Shostakovitch, Alyabyev, Glinka, Khachaturian, Scriabin e tantos outros.


Peter Ilyich Tchaikovsky (1840 – 1893)

A partir de consulta feita nas redes sociais sobre qual compositor russo falar no Papo Musical, o vencedor da enquete foi Alexander Nikolayevich Scriabin (1872 – 1915). O compositor e pianista russo iniciou com um estilo de composição tonal, inspirado na linguagem harmônica do afamado compositor polonês, da era romântica, Frédéric Chopin (1810 – 1849). Scriabin tinha apego ao passado e uma mente imaginativa que o transportava ao futuro.

Alexander Nikolayevich Scriabin (1872 – 1915)

O compositor russo desenvolveu, no decorrer de sua carreira, uma linguagem musical altamente  atonal que pode, atualmente, ser comparada com composições dodecafônicas e serialistas. É  considerado uma das figuras mais importantes da escola russa de composição do inicio do período moderno. Para o compositor austríaco, Arnold Schoenberg (1874 – 1951), criador do dodecafonismo,

Arnold Schoenberg (1874 – 1951)

“Scriabin é um dos mais originais, fascinantes, enigmáticos, revolucionários […] compositores do século”.

O compositor russo buscava incansavelmente uma linguagem própria emoldurada pelo período romântico, que se caracteriza pela valorização da individualidade dos artistas.  Seu catálogo de obras é prioritariamente composto por obras para piano solo, que inclui prelúdios, estudos, noturnos, valsas e mazurcas, entre outras formas musicais.  

A Grande Enciclopédia Soviética revela:

Nenhum compositor foi mais desprezado e ao mesmo tempo mais agraciado por amor…”.

Ouviremos o Estudo N.5 opus 42 de Alexander Scriabin interpretado pelo pianista russo Evgeny Kissin (1971).

Evgeny Kissin (1971)

Observe a identidade musical de Scriabin nesse estudo. Contrapondo com o seu misticismo há um pensamento bastante racional no que se refere à construção musical – geométrica e harmoniosa como a matemática. Scriabin é “Patologicamente Megalomaníaco”, e, ainda assim, extraordinário.

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UFG RECEBE IMPORTANTE ACERVO DE JOSÉ EDUARDO MARTINS

O pianista pesquisador do repertório não frequentado
José Eduardo Martins (1938)

O pianista e pesquisador brasileiro José Eduardo Martins nasceu em São Paulo em 1938. Oriundo de uma família dedicada às artes e ao conhecimento. O pai, o português José Martins, dedicou a fazer dos filhos homens que viriam ao mundo para fazer diferença. Dentre seus irmãos, o renomado jurista Ives Gandra Martins (1935) e o maestro João Carlos Martins (1940), que desde muito cedo iniciaram o estudo do piano.

José Eduardo Martins aos 9 anos de idade

Professor titular aposentado da Universidade de São Paulo – José Eduardo desenvolveu uma brilhante carreira como pianista e pesquisador. Possuidor de um rico acervo musical constituído de livros, revistas arbitradas e partituras, Martins escolheu a Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, para ser a beneficiária desse rico material bibliográfico.

Segundo Martins:

“O fato da UFG se encontrar distante do eixo geográfico São Paulo e Rio de Janeiro, que concentra as Universidades Federais e Estaduais com suas bibliotecas bem próximas, fez-me pensar nessa penetração mais a Oeste de nosso país. Concentrar-me na UFG é relevante pelo fato essencial de a Universidade Federal de Goiás ser uma das mais importantes do país”.

O Pianista José Eduardo Martins entregando o acervo para os funcionários da UFG

Ademais, Goiânia e o pianista José Eduardo Martins possuem uma relação afetiva de longa data. O pianista frequenta Goiânia desde a década de 1970, ministrando aulas, participando de bancas examinadoras e recitais promovidos pela Universidade Federal, bem como, por outras entidades artísticas espalhadas pela cidade, como o tradicional MVSIKA Centro de Estudos e a já extinta Pauta Escola de Artes.

O pianista pesquisador do repertório não frequentado
Ana Flávia Frazão/José Eduardo Martins/ Gyovana Carneiro em Goiânia

Ter sido escolhida para receber um acervo desta envergadura é, sem dúvida, uma grande honraria para a Universidade Federal de Goiás. A Escola de Música pretende alocar todo o material em uma sala na EMAC/UFG que terá, por mérito, o nome do pianista José Eduardo Martins, disponibilizando o acervo para toda a comunidade acadêmica.

Martins é Doutor Honoris Causa pela Universidade Constantin Brâncuşi da Romênia e Acadêmico Honorário da Academia Brasileira de Música. Recebeu, em 2004, a Ordem do Rio Branco, uma das honrarias mais significativas do governo brasileiro. Em 2011, foi agraciado com a comenda Officier dans l’Ordre de La Couronne, outorgada pelo Rei Alberto II, da Bélgica. Recentemente, juntamente com o musicólogo e autor português Mário Vieira de Carvalho (1943), tornou-se sócio honorário da Associação Lopes-Graça em Portugal.

José eduardo Martins (1938)

José Eduardo se dedicou ao repertório não frequentado, realizando ciclos com as integrais de compositores como Debussy (1862 – 1918), Scriabin (1872 – 1915), Rameau (1683 – 1764), Moussorgsky (1839 – 1881), Fernando Lopes-Graça (1906 – 1994) entre outros. Apresentou, em primeira audição, mais de 130 composições contemporâneas de autores de vários países. Realizou a gravação de 22 CDs na Bélgica, Bulgária e Portugal, lançados pela Labor (EUA), PKP (Bélgica), Portugaler, PortugalSom/Numérica (Portugal) e pelo selo De Rode Pomp, da Bélgica Flamenga.

Ele é autor de diversos livros sobre música e de mais de uma centena de artigos publicados em várias revistas e periódicos do Brasil e do exterior, incluindo artigos para a Biblioteca Nacional de Paris, Imprensa da Universidade de Coimbra e para a Universidade de Sorbonne. Além disso, foi responsável pela redescoberta, no fim dos anos setenta, do grande compositor romântico brasileiro Henrique Oswald (1852– 1931), realizando gravações, primeiras audições e edição de partituras de inúmeras obras para piano solo e camerística com piano do compositor.  Martins é autor do livro Henrique Oswald – Músico de Uma Saga Romântica.

Henrique Oswald – Músico de Uma Saga Romântica.

“(…) Ainda bem que o pianista, durante uma pausa, entre escalas e arpejos, contemplou o compositor com um livro que fez chorar de alegria. Lá no céu”. Oliver Toni (1926 – 2017)Compositor e maestro

Ouviremos o pianista José Eduardo Martins interpretar  L’Egyptienne de Jean-Philippe Rameau (1683 – 1764).

Observe a interpretação magistral do pianista José Eduardo Martins

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