“A SERTANEJA”

Brasilio Itiberê da Cunha (1846 – 1913)
Brasilio Itiberê da Cunha (1846 – 1913)

“A Sertaneja”, obra para piano, publicada em 1869, composta pelo paranaense Brasilio Itiberê da Cunha (1846 – 1913), passou para a história, como uma das peças que marcaram o início do nacionalismo na música brasileira de concerto.

A obra de Itiberê da Cunha exibe trechos que remetem a influencia da escrita virtuosística do compositor húngaro Franz Liszt (1811 – 1886), e, em menor grau, do lirismo do compositor polonês Frédéric Chopin (1810 -1849).

Franz Liszt (1811 – 1886) e  Frédéric Chopin (1810 -1849).

No entanto o que tornou “A Sertaneja” uma obra conhecida foi o fato de utilizar, em sua seção central, a composiçao, Balaio Meu Bem Balaio, tema folclórico inspirado no fandango, dança popular típica de Paranaguá – PR, cidade natal do compositor.

Além de compositor, Itiberê foi diplomata de carreira, tendo servido em embaixadas brasileiras na Bélgica, Itália, Peru, Paraguai e Alemanha.

Brasilio Itiberê da Cunha (1846 – 1913)

 Dom Pedro II (1825 – 1891), imperador do Brasil, nesse período histórico, grande incentivador dos artistas brasileiros, propôs ao paranaense ingressar na carreira diplomática como uma maneira de se aperfeiçoar como compositor.

 Dom Pedro II (1825 – 1891)

Há indícios de que o alcance de outras obras “pré-nacionalistas”, não obtiveram o êxito e a popularidade de “A Sertaneja’, por concorrerem com a profissão de político viajante do compositor e ainda o fato do piano ser o instrumento de divulgação de repertório de câmara ou sinfônico por excelência.  

Há relatos históricos de que Brasilio Itiberê, no período em que esteve em Roma entre os anos de 1873 e 1882, nutriu amizade com o compositor e pianista Franz Liszt que teria tocado “A Sertaneja”.

Há também uma corrente de musicólogos que considera Brasílio Itiberê “um compositor de música ligeira”.

Em recente artigo escrito pelos musicólogos Borém e Marichi Júnior:

“(…) Um Brasílio Itiberê mais real seria lembrado como um músico engajado politicamente pela liberdade daqueles que formaram a cultura do Brasil (…) como um pianista formidável que se fez respeitado pelos colegas mais importantes na Europa e como um compositor engenhoso cujas habilidades e compromissos nacionalistas ainda não se revelaram completamente, especialmente em obras compostas após A Sertaneja”.

Parece interessante ouvir a “A Sertaneja” com um olhar e uma escuta do século XXI. A composição pode não parecer “brasileira o suficiente” para hoje. Mas, como foi à percepção em 1869?

Ouviremos “A Sertaneja” – Fantasia Característica Sobre Temas Brasileiros Op.15, interpretada pelo pianista brasileiro Arnaldo Estrela (1908 – 1980).

Observe! Essa é uma obra que representa um momento histórico no qual a música brasileira ainda era bastante europeizada.

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O ADEUS A ELZA SOARES (1930 – 2022)

“Nunca houve ou haverá uma mulher como ela”
Elza Soares (1930 – 2022)

Embora contrária a rótulos, Elza Soares (1930 – 2022) foi eleita pela Rádio BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio, dentro do projeto The Millennium Concerts, da rádio inglesa, criado para comemorar a chegada do ano 2000.

“Eu sempre quis fazer coisa diferente, não suporto rótulo, não sou refrigerante”

Elza Soares morreu aos 91 anos, numa quinta-feira, 20 de janeiro, exatos 39 anos após a morte do jogador  Garrincha (1933  – 1983), seu polemico e grande amor.

Garrincha e Elza Soares

Elza e o jogador Garrincha se conheceram durante a Copa do Mundo de 1962. Em vinte anos de união, a cantora foi acusada de destruir famílias e agredida por ser mulher. Como ela mesma dizia:

“era uma relação de amor e ódio”.

Durante a vida, sofreu com o racismo, com a violência moral e sexual, convivendo com inúmeras perdas.

Elza nunca se calou, com a visibilidade que teve, deu voz às minorias: mulheres, negros, LGBTQIA+, todos eles foram, de certa forma, representados por meio das obras memoráveis da artista. Como alguns exemplos:

Em “Lama”, ela canta sobre o empoderamento e a coragem de superar o passado;

 Em “A Carne”, do preconceito e da violência vivida por pessoas negras;

Em “Maria da Vila Matilde, fala da violência doméstica.

Elza Soares (1930 – 2022)
(borimbora.blog.br)

Elza Soares também foi homenageada por escolas de samba. No último carnaval, antes da pandemia, a cantora foi enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Elza Soares – Carnaval – 2020

Ícone da música brasileira, com uma carreira eclética, iniciada nos anos 50, emprestou sua voz ao Samba, ao Jazz, à Música Eletrônica, ao Hip Hop e ao Funk.

“Eu acompanho o tempo, eu não estou quadrada, não tem essa de ficar paradinha aqui não. O negócio é caminhar. Eu caminho sempre junto com o tempo.”

 A vida de Elza Soares  foi pesquisada e retratada no premiado longa-metragem  que a jornalista Elizabete Martins Campos, roteirizou, dirigiu e produziu – My Name is Now.

A cantora esteve inúmeras vezes no topo das listas de sucesso no Brasil, embora também tenha amargado períodos de ostracismo, como  na década de 1980, quando pensou em desistir de cantar, e, literalmente “bateu na porta” de Caetano Veloso” para pedir ajuda.

O auxílio de Caetano veio na forma de convite para Elza participar da gravação do samba-rap Língua (Caetano Veloso, 1984), faixa de álbum pop do cantor, “Velô” (1984).

Elza Soares e Caetano Veloso

“Elza Soares é uma das maiores maravilhas que o Brasil já produziu. Quando apareceu cantando no rádio, era um espanto de musicalidade. Logo ficaríamos sabendo que ela vinha de uma favela e desenvolvera seu estilo rico desde o âmago da pobreza”. Caetano Veloso

Outra fase de renascimento musical veio em 2015 com o lançamento da “A mulher do fim do mundo”  – primeiro álbum em sua carreira só com músicas inéditas. As canções do disco falam sobre sexo, morte e negritude, e foram compostas pelos paulistas José Miguel WisnikRômulo Fróes e Celso Sim

Elza Soares

“Me deixem cantar até o fim” – pediu Elza em verso da música que batiza o álbum.

E assim foi! Elza Soares cantou até o fim. Sua morte causou comoção no Brasil. Vários artistas e personalidades se pronunciaram e lamentaram  sua partida.

Chico Buarque de Holanda,  falou através de suas redes sociais ao saber da despedida de Elza Soares:

(…) Se acaso você chegasse a 1959 e ouvisse no rádio aquela voz cantando “Se acaso você chegasse’’, saberia que nunca houve nem haverá no mundo uma mulher como Elza Soares”.

Ouviremos Elza Soares cantando “Se Acaso Você Chegasse”, composição de Felisberto Martins e Lupicínio Rodrigues, na versão original em gravação da ODEON.

Observe a voz inesquecível e o brilho de Elza Soares.

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“OS PLANETAS” DE HOLST(1874-1934)

a astrologia inspirando a música
Os Planetas do Sistema Solar

Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão são os planetas do Sistema Solar.

O céu de janeiro é marcado pela presença de estrelas bem brilhantes, e, neste ano de 2022, teremos muitos encontros entre os planetas.

Muito além de questões como ascendente, combinações amorosas e tendências para o futuro, à astrologia estuda o poder dos astros.

A astrologia e a mitologia romana serviram de inspiração para o compositor inglês Gustav Theodore Holst (1874-1934) compor a Suíte “Os Planetas” Opus 32 .

Gustav Theodore Holst (1874-1934)

A obra contempla sete planetas, curiosamente exclui a Terra, e, Plutão, que à época,  ainda não havia sido descoberto, entre 1914 e 1916.

“Os Planetas” de Holst trata de características particulares de cada astro, em um marco da música expressionista.

Capa da Partitura “Os Planetas” de Holst

O primeiro movimento apresentado é Marte, Deus da Guerra, utilizando ostinato rítmico com intensidades diferentes durante quase todo o movimento; o segundo, Vênus, Deusa da Paz, contrasta pela serenidade e andamento lento; o terceiro, Mercúrio, o Mensageiro Alado, ressalta a flauta e a celesta no clima de um “scherzo”; o quarto, Júpiter, Deus da Alegria, uma dança, com um belo tema central que acabou por se transformar em um hino patriótico inglês; o quinto, Saturno, Deus da Velhice, começa sóbrio, segue com um marcha nos metais e retorna a serenidade no final do movimento; o sexto, Urano, o Mago, na realidade um segundo “scherzo”; o sétimo e ultimo movimento, Netuno, o Místico, explora o pianissimomo com enorme habilidade.

Os Planetas do Sistema Solar

Holst queria ser pianista, mas teve um problema de saúde que afetou seu braço direito, seguindo então a carreira de professor e compositor.

O Piano de Gustav Holst -( Inglaterra)

Suas composições eram tocadas com frequência nos primeiros anos do século XX, mas foi só com o sucesso internacional The Planets (Os Planetas), nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, que Holst ficou conhecido.

Homem tímido, não se sentia bem com a fama, e preferia ficar sossegado para compor e ensinar. Nos seus últimos anos de vida, o seu estilo descomprometido e pessoal de composição não era visto com “bons olhos” e a sua curta popularidade caiu. Ainda assim, Holst influenciou vários jovens compositores ingleses.

Criado por Linda Evans Davis (AdobeDraw)

Gustav Theodore Holst compôs várias obras de diversos gêneros, sendo seu estilo de composição resultado de várias influências, incluindo o a música folclórica inglesa do início do século XX.

Ouviremos “Os Planetas” em concerto gravado em novembro de 2015 com a Orquestra Filarmônica Nacional de Varsóvia com regência de Marciej Tarnowski, no Concert Hall da Filarmônica na Polônia

Observe as particularidades dessa interessante obra de Gustav Theodore Holst do inicio do século XX.

Os Planetas – Opus 32  1. Marte, Deus da Guerra; 2. Vênus, Deusa da Paz; 3. Mercúrio, Mensageiro Alado; 4. Júpiter, Deus da Alegria;  5. Saturno, Deus da Velhice; 5. Urano, o Mago;  7. Netuno, o Místico.

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O NATAL

como é comemorado ao redor mundo

O Natal, dia 25 de dezembro, comemora-se o nascimento de Jesus Cristo, um momento especial de confraternização entre os povos.

Para os cristãos, trata-se de uma das principais datas comemorativas, ao lado da Páscoa, em que se celebra a ressurreição de Jesus. O dia de Natal é feriado religioso em muitos locais do mundo. O chamado ciclo do Natal é celebrado durante doze dias, que compreendem o dia 25 de dezembro até o dia 6 de janeiro. Esse período está relacionado com o tempo que os três reis magos, Baltazar, Gaspar e Melchior, levaram para chegar à Belém, cidade onde nasceu Jesus.

O Natal é comemorado de diferentes formas ao redor do mundo.

Na manhã de natal na Venezuela, as ruas do centro são fechadas para carros, onde muitas pessoas se reúnem por lá para celebrar, diferentemente dos outros países, as pessoas vão de patins.

Natal na Venezuela

Na Áustria, as tradições natalinas são levadas a sério, e, quem se comporta bem, ganha presentes de São Nicolau no dia 06 de dezembro.

Natal em Viena – Áustria

Na Noruega, há uma tradição muito antiga de que os espíritos do mal e as bruxas saem na véspera do Natal para roubar as vassouras e sair voando. Há quem difunda essa crendice até os dias de hoje.

Natal na Noroega

Na Ucrânia o natal é comemorado no dia 07 de janeiro, seguindo o calendário juliano. Diz à tradição que ninguém pode comer antes de aparecer à primeira estrela no céu. Então, é comum as pessoas mais esfomeadas ficarem fora de casa “caçando” a primeira estrela. Ah! As árvores de Natal são decoradas com teias e aranhas artificiais. Dizem que elas são sinal de boa sorte!

Natal na  Ucrânia

Na Estônia, a populaçãoaproveita a noite de Natal para se aquecerem na sauna.

Natal na Estônia

Na Alemanha, na noite do dia 06 de dezembro as crianças deixam um sapato ou uma bota para fora de casa. No dia seguinte, para quem se comportou, eles amanhecem cheio de doces ou pequenos presentes. Para quem não se comportou, apenas uma espécie de árvore de madeira.

Natal na Alemanha

Na Austrália, alguns australianos comemoram com um piquenique organizado no campo ou na praia. O cardápio é variado e inclui pratos tradicionais, como peru, presunto e pudim de ameixa, e alimentos de origem aborígene, como canguru defumado, molho de brandy e merengue com nozes locais.

Natal na Austrália

Para os espanhóis, nada é mais importante do que o presépio, montado tanto pelos adultos como pelas crianças. À meia-noite da virada do dia 24 para o dia 25 de dezembro, uma vela é acesa do lado do Menino Jesus. As crianças esperam até dia 6 de janeiro para receber os presentes, pois quem os entrega não é o Papai Noel, mas os três reis magos.

Natal na Espanha

O Natal americano é um dos mais iluminados do mundo há lâmpadas por todas as partes: em casas, prédios, lojas e ruas. Os presentes são abertos na manhã do dia 25 de dezembro. A reunião da família ocorre na hora do almoço, quando se serve o tradicional peru de Natal.

Natal nos EUA

Os franceses comemoram o Natal e o Ano Novo repetindo a mesma festa, inclusive a troca de presentes. O doce típico é o Bûche, feito de marzipã coberto com chocolate e em forma de tronco de árvore.

Natal na França

Na véspera do Natal, os portugueses costumam comer bacalhau. Depois, no almoço de 25 de dezembro, o prato mais tradicional é o cordeiro ao forno. Há também o Bolo Rei, dentro do qual o anfitrião esconde um pequeno presente.

Natal em Portugal

No Brasil, algumas dessas peculiaridades foram absorvidas a partir da imigração de diferentes povos.   A comemoração começa à meia-noite do dia 24 de dezembro com a missa do galo e a tradicional ceia de Natal, onde podemos encontrar pratos tão típicos como a rabanada, leitões, perus, e até  bacalhau, essa, herança da colonização portuguesa.

Natal no Brasil

Em todos os países que comemoram esta data, os corais de Natal são uma atração a mais. No Brasil também as apresentações natalinas se transformaram em tradições nas principais cidades do país.

Um dos mais famosos coros do mundo é O Coro do Tabernáculo Mórmon, um dos mais antigos e maiores do planeta, com sua base em Salt Lake City, Utah, na sede da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos de 1981 a 1989, chamou o Coro do Tabernáculo Mórmon de “O Coro da América” em 1981 quando o coro cantou em sua posse.

Ouviremos esse coro, vencedor de um prêmio Grammy e diversos prêmios Emmy, composto de 360 homens e mulheres que são acompanhados da Orquestra da Praça do Templo, com 150 membros, e a orquestra Sinos da Praça do Templo, com 32 membros. O coro, a orquestra, e a orquestra de sinos são compostos em sua totalidade por voluntários.

O concerto de Natal atrai milhares de pessoas para a Praça do Templo durante a época de natal e é visto online em todo o mundo.

Observe a grandiosidade e a beleza desse espetáculo.

Que tenhamos uma Noite Feliz!

O BALÉ “QUEBRA NOZES”

um sucesso tardio para Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840 – 1893)
Balé “Quebra Nozes”

Entre tantas tradições natalinas realizadas pelo mundo, uma delas é a encenação  do balé   “Quebra Nozes”.

O balé em dois atos é baseado em uma tradução francesa, feita por Alexandre Dumas (1802-1870) do conto “O Quebra Nozes e o Rei dos Camundongos”, do alemão E. T. A. Hoffmann (1776 – 1822).

“O Quebra Nozes e o Rei dos Camundongos”
E. T. A. Hoffmann (1776 – 1822).

A História escrita originalmente em 1844 foi transformada em balé por Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893) quase 50 anos depois.

Pyotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893)

 “O Quebra Nozes” conta a fantasia de Clara, uma menina que na noite de Natal ganha muitos presentes, mas se encanta especialmente por um deles – um boneco quebra-nozes. Quando todos vão dormir, Clara vai à sala para brincar com seu novo presente, adormece e entra em um universo onde os brinquedos ganham vida, dançam, lutam,  transportando-os para O Reino das Neves e Reino dos Doces.  Lá, Clara e seu príncipe são homenageados com danças típicas de vários países.

Ekaterina Maksimova, como Marie, e Vladímir Vassiliev, como Príncipe Quebra-Nozes em cena de balé de Piotr Tchaikovsky
Teatro Bolshoi, 1973

A coreografia é de Marius Petipa (1818 -1910) e Lev Ivanov (1834 – 1901). Marius Petipa era o autor inicial do projeto coreográfico, adoecendo, passou a missão para o seu fiel assistente Lev Ivanov que conseguiu seguir rigorosamente as regras do mestre.

Marius Petipa (1818 -1910)

Na estreia russa, os papeis foram interpretados por alunos da escola teatral dos Teatros Imperiais. Todos os artistas receberam uma cesta de chocolates de Tchaikovsky, e o balé iniciou uma nova tradição, a de se usar dançarinos infantis no palco.

Cena do balé (com crianças no palco)‘O Quebra-Nozes’, de Piotr Tchaikovsky, no Teatro São Petersburgo, 1892. 

Quando o balé estreou em 18 de dezembro de 1892, no Teatro Mariinsky de São Petersburgo, os russos, tanto críticos especializados como o público em geral, não gostaram do que viram. O autor da música P. Tchaikovsky  ficou frustrado, morrendo menos de um ano após a estreia,  e não vivenciando o  sucesso em que sua obra se transformou no século 20.

Teatro Mariinsky de São Petersburgo

A reviravolta ocorreu após o balé ser remontado nos EUA, em 1944. A partir desta data, o “Quebra Nozes” tornou-se tradição na época do Natal. Companhias do mundo todo apresentavam versões do balé de Tchaikovsky até o fim de 2019.

Cena de “O Quebra-Nozes”, de Nacho Duato, no Teatro Mikhailovski

Felizmente, depois do silencio ocasionado pela pandemia, o tradicional balé voltou aos palcos, incluindo récitas montadas no Brasil.

Assistiremos um solo do Balé “Quebra Nozes” com a primeira bailarina do Ballet Bolshoi, Nina Kaptsova (1978) com a dança da Fada Açucarada.

Nina Kaptsova (1978)

Observe! A música de Tchaikovsky expressa à magia de uma fada com uma melodia rica e inovadora. O compositor russo levou, em segredo, uma celesta de Paris até a Rússia e tocou para o público na estreia. A celesta, instrumento musical inovador para a época, é semelhante a um piano, mas tem placas metálicas ao invés de cordas.

celesta (instrumento musical do final do século 19)

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LUIZ MEDALHA (1942)

um pianista de fama internacional que vive em Goiânia
Luiz Medalha (1942)

Goiânia, com certeza, é a cidade da diversidade.  Aqui convivem as duplas sertanejas, a música instrumental, a MPB, o Rock, a música de concerto e muito mais.

A capital goiana se conectou ao mundo através de seu Batismo Cultural. Em cinco de julho de 1942, houve um grande movimento em torno da cultura nova capital. Delegações do Brasil inteiro, formadas por professores, artistas, lideranças políticas, culturais e religiosas, estiveram presentes nesse evento, como por exemplo, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitscheck, Monteiro Lobato, Eva Todor, dentre outros.

Sobre o Batismo Cultural de Goiânia, assim se expressa o jornalista Francisco Barros:

“Esse marco poderia ser comparado com a Semana de Arte Moderna, de 1922. Foi uma grande revolução que consolidava a ideia de Getúlio Vargas da Marcha para o Oeste. Goiânia se consolidava como a entrada para o oeste brasileiro”

Não por acaso, nessa cidade vive, desde 1998, Luiz Medalha, um pianista considerado pelo crítico do jornal suíço (Zurique) Zurcher Zeitung:

  “fenômeno de técnica dotado de um superior talento musical”

Qualificado pelo cronista de música do jornal italiano (Roma) L’Unita:

“pianista que faz da música um bloco granítico construído de forma monumental”

De uma família musical (Marília Medalha cantora/compositora é sua irmã), Luiz iniciou seus estudos de piano com Ordália Jacobino e deu-lhes sequência com Arnaldo Estrella a quem deve grande parte de sua formação pianística e musical.

Luiz Medalha

Bolsista dos governos francês, húngaro e alemão de 1964 a 1973, Medalha estudou sob a orientação de Jacques Février em Paris, Pál Kadosa em Budapest, e Karl Engel e Hans Leygraf em Hannover, obtendo o mais alto título concedido a músicos na Alemanha: Solistenprüfung.

Sua atuação como solista e recitalista no exterior inclui apresentações na França, Suíça, Itália, Alemanha, Polônia, Chile, Uruguai e na Costa do Marfim, às quais se acrescem as principais salas de concerto do Brasil.

Atuou como camerista ao longo de toda sua vida profissional e, a partir de 1988, passou a integrar o Quarteto da Guanabara, na vaga deixada por Arnaldo Estrella.

Quarteto da Guanabara

Arnaldo Estrella (Rio de Janeiro 1908 -1980) tinha uma forte ligação com Goiânia e ao falecer, seus alunos foram direcionados ao assistente Luiz Medalha que acabara de chegar da Europa e assim, passou a ministrar aulas para os goianos – primeiro no Rio de Janeiro e posteriormente, aqui mesmo na cidade de Goiânia.

Arnaldo Estrella

No âmbito das atividades pedagógicas, Luiz Medalha lecionou por três anos na Escola Goethe de Hannover, foi assistente de Arnaldo Estrella e recebeu convites para ministrar cursos na Universidade do Chile e na Unicamp. Por dois anos foi Professor Visitante da Escola de Música da UFRJ.

Talvez a diversidade cultural existente em Goiânia, aliado ao acolhimento peculiar dos goianos, fizeram com que Medalha, escolhesse Goiânia como sua cidade.  

Luiz Medlha foi professor efetivo da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás. Hoje se considera goiano de coração e após a aposentadoria continuou a viver no centro oeste do país.

Ouviremos a extraordinária performance de Luiz Medalha interpretando o primeiro movimento Andante – Allegro do Concerto n. 3 opus 26 de Seguei Prokofiev (1891 –1953) – gravado em 04 de junho de 1975 pela Rádio de Santiago – Chile Com a Orquestra Sinfônica do Chile conduzido pelo maestroalemão Volker Wangenheim (1928 – 2014).

 Observe a interpretação magnifica de Luiz Medalha desse terceiro concerto de Prokofiev. Esse concerto, o mais popular e mais aclamado pela crítica, irradia vitalidade e lirismo, acompanhado das dissonâncias que caracterizam o compositor russo.

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FLORENCE BEATRICE PRICE (1887-1953)

primeira mulher afro-americana a ser reconhecida como compositora sinfônica
Florence Beatrice Smith Price (1887 – 1953)

Na última crônica do mês que celebra a consciência negra, falaremos de uma compositora de descendência africana, nascida em 1887 em Little Rock, Arkansas, EUA – Florence Beatrice Smith Price.

Prodígio, Florence deu seu primeiro recital aos quatro anos de idade, compondo sua primeira obra aos onze.  Aos catorze já frequentava, como aluna de piano, órgão e composição, o prestigiado Conservatório de Música da Nova Inglaterra, em Boston, onde se formou aos 19 anos.

Florence Beatrice (1887 – 1953)

Após a formatura, muda-se para Atlanta, e, se torna chefe do departamento de música da Universidade de Clark Atlanta desistindo do sonho de viver no México onde supunha que não iria sofrer discriminações raciais. Pouco tempo depois casa-se com o advogado Thomas J. Price, de quem imcorpora o sobrenome Price.

Em 1927, houve uma onda de violência na cidade com agressões raciais, inclusive linchamentos, obrigando a família a se mudar para Chicago juntando-se à migração de cidadãos afro-americanos do Sul dos Estados Unidos da América.

Florence e sua família se estabeleceram em Chicago, possibilitando a ela usufruir de todo o potencial de ensino disponível naquela cidade, aprimorando seus conhecimentos em composição, línguas e arte.

Florence Beatrice Smith Price

A família Price passou a viver em uma cidade onde havia manifestações contra as políticas de segregação.  A comunidade negra de Chicago estabeleceu instituições econômicas, artísticas e acadêmicas que facilitaram o crescimento criativo e comunitário.

Como membro da Associação Nacional de Músicos Negros, Price se tornou uma ativista. A associaçao realizava recitais e conferências, servindo como um importante espaço para o fortalecimento de músicos negros.

Florence Price está sentada na extrema direita. Membros do Conselho da Associação Nacional de Músicos Negros. Esq: Blanche K. Thompson, Josephine Inness, Henry L. Grant, Mary Cardwell Dawson, Clarence Hayden Wilson e Florence B. Janeiro de 1941. Charles ‘Teenie’ Harris
Arquivo: Carnegie Museum of Art

 Em meados de 1930, Florence e Thomas separam-se. Com coragem e determinação, Florence conseguiu viver de sua música, trabalhando como organista em abertura de filmes mudos e compondo  músicas de propaganda de rádio usando pseudônimos.

Foi em Chicago que Florence Price foi considerada a primeira mulher afro-americana a ser reconhecida como compositora sinfônica, e a primeira a ter uma composição interpretada por uma orquestra importante.

Orquestra de Chicago

Várias peças de Florence seriam tocadas nos anos seguintes por influentes orquestras, dentre elas a  Orquestra Sinfônica de Chicago. Isso se deu em parte pelas premiações recebidas por suas obras:  Sinfonia em mi menorSonata para piano.

Florence Price com outras pessoas (1934) Festa em homenagem a Maude R. George,
Foto: Bibliotecas da Universidade de Arkansas, Fayetteville

Florence Price morreu aos 66 anos, em 1953, época em que sua música foi negligenciada.

Felizmente, no século 21, o interesse por compositoras afro-americanas fizeram a música de Florence Beatrice Smith Price  emergir, sendo que em fevereiro de 2019, a University of Arkansas Honors College realizou um concerto em homenagem a Price;  em outubro de 2019, o International Florence Price Festival  celebrou a música e o legado de Price e em janeiro de 2021, de 04 a 08 de janeiro a obra de Price foi celebrada como a  Compositora da Semana da da Rádio BBC.

Florence Beatrice Smith Price (1887 – 1953)

O estilo composicional de Price consistiu principalmente no idioma americano revelando suas raízes sulistas. Florence utilizava em suas composições elementos da música da igreja afro-americana, utilizando-se da estética tradicional.

Ouviremos o Concerto nº 2 para violino e orquestra de Price interpretado pela  Urban Playground Chamber Orchestra, com solo da violinista negra Kelly Hall-Tompkins  sob a regência do maestro Thomas Cunningham.

Kelly Hall-Tompkins 

Observe! A música de Price revela a tradição e modernismo, refletindo a maneira como era a vida dos afro-americanos nas grandes cidades da época.

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GILBERTO GIL

O mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras
Gilberto Gil (1942)

No mês que celebra a consciência negra, um dos nomes mais importantes e premiados da música popular brasileira, incansável na valorização da cultura afro, Gilberto Gil (1942), foi eleito para ocupar a cadeira nº 20 da Academia Brasileira de Letras.

A eleição aconteceu no dia 11/11 sem a presença do cantor e compositor baiano que foi eleito com 21 votos. Assim falou Gilberto Gil:

“Quando a Academia me acolhe, acolhe aquele que ela sabe quem é. O apreço que eu tenho pela formação negro-mestiça da sociedade brasileira. Os problemas relativos a isso e a necessidade de posicionamento em relação a esses problemas, que tem sido uma constante na minha vida.”

Gilberto Gil concorreu com os escritores Salgado Maranhão e Ricardo Daunt à cadeira número 20 que pertencia ao jornalista Murilo Melo Filho.

Gilberto Gil

Após apuração, os votos foram queimados, como manda o ritual da instituição, e, nesse momento, Marco Lucchese, presidente da ABL,  se pronunciou:

“Estamos todos muito felizes. Gilberto Gil é esse traço de união entre a cultura erudita e a cultura popular, como poucos souberam fazer”.

Certamente, o mais novo imortal da ABL entra levando muito mais do que a credencial de escritor, Gilberto Gil leva riqueza cultural, traduzida em poesia e inspiração.

A Academia Brasileira de Letras, ao agraciar o compositor/poeta como novo acadêmico, repete o que a comissão julgadora do Premio Nobel da Literatura já havia feito em 2016 ao contemplar o cantor, compositor, ator, pintor e escritor Bob Dylan (1941) com o mais importante premio da liteeratura mundial.  

Bob Dylan (1941) recebe o mais importante premio da literatura mundial.  

O imortal Gilberto Gil, nos quase 80 anos de vida, sendo 60 dedicados à carreira, foi um dos criadores do movimento Tropicalista.

Em 1967, a música “Domingo no Parque”, que Gilberto Gil cantou com a também participação dos Mutantes, conjunto de grande sucesso à época, ficou em 2.º lugar no III FMPB.

Jorge Ben; Caetano Veloso; Gilberto Gil; Os Mutantes – (Rita Lee, Arnaldo Baptista, Sergio Dias) – e Gal Costa

O festival foi o ponto de partida para o movimento artístico chamado “Tropicalismo”, em que Gilberto Gil participou junto com Caetano Veloso, Torquato Neto, Tom Zé, Rogério Duprat, entre outros artistas.

A ideia do movimento tropicalista era a fusão de elementos da música inglesa e americana junto com as músicas de João Gilberto e Luiz Gonzaga. O movimento polêmico, em seu momento inicial, abriu portas para uma nova etapa na música popular brasileira.

Em 1968, o compositor lançou o disco “Gilberto Gil” com 14 músicas, entre elas, “Procissão” e “Domingo no Parque”. Lançou também um disco manifesto, intitulado “Tropicália” do qual participaram, além de Gilberto Gil, Caetano, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e Torquato Neto.

Gilberto Gil, Caetano, Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé e Torquato Neto.

O Movimento Tropicalista foi considerado subversivo pela ditadura militar e Gilberto Gil foi preso, junto com Caetano Veloso. Em 1969 Gil se exilou na Inglaterra. Nesse mesmo ano foi lançado o disco “Gilberto Gil” (1969), onde se destacou a música “Aquele Abraço”.

A obra foi à última música que Gil gravou no Brasil, um dia antes de partir para a Europa. “Aquele Abraço” foi o seu maior sucesso popular e tornou-se um samba de despedida.

No inicio de 1972, voltou definitivamente ao Brasil, em seguida lançou “Expresso 2222”. Em 1976, junto com Caetano, Gal e Betânia, formaram o conjunto “Doces Bárbaros” que rendeu um álbum e varias turnês pelo país.

Caetano Veloso, Betania, Gilberto Gil e Gal Costa – “Doces Bárbaros

Em 1978, se apresentou no Festival de Montreux, na Suíça. Nesse mesmo ano ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Word Music com “Quanta Gente Veio Ver”. Em 1980, lançou uma versão em português do reggae (No Woman, No Cry) “Não Chores Mais”, sucesso de Bob Marley.

Entre os anos de 2003 e 2008, Gil foi Ministro da Cultura do Brasil.

“Sou um agente cultural por força do trabalho que faço, por força da representação que tenho. Essa palavra ‘cultura’, nesse sentido do cultivo da qualidade humana, da humanidade em cada um de nós, isso é um interesse que eu sempre tive” – Declarou Gil.

Gilberto Gil

Ainda em 2008, Gilberto Gil lançou o álbum “Banda Larga Cordel”. Em 2010, lançou “Fé na Festa”. Em seguida vieram: “Gilberto Samba” (2014) e “Ok Ok Ok” (2018).

Entre suas músicas mais famosas destacam-se ainda: “Não Chore Mais” (1979), “Andar com Fé” (1982), “Se Eu Quiser Falar Com Deus” (1981), “Vamos Fugir” (1984) e “Esperando na Janela” (2000), que recebeu o Grammy Latino: Melhor Canção Brasileira.

Gilberto Gil acaba de chegar de mais uma turnê na Europa, a primeira desde o começo da pandemia. Prepara-se agora para seu mais novo palco – a academia dos imortais.

Ouviremos “Refazenda” (1975)

Observe! Depois do experimentalismo da época do Tropicalismo Gil surpreendeu o público e a crítica com a sonoridade mais simples de Refazenda, inspirada no “baião”  e nos ritmos nordestinos. Segundo a crítica da época “tratava-se de uma falsa simplicidade, em que o músico se propunha a retomar elementos da tradição musical brasileira e transformá-los por meio de um ‘despojamento voluntário’”.

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 “GREEN BOOK: O GUIA”

música e preconceito
 “GREEN BOOK: O GUIA”

No mês da consciência negra, trataremos de música e preconceito. Na primeira crônica falaremos de um filme, ganhador do Oscar em 2019 que trata exatamente desse tema.

“Green Book: O Guia”  recebeu  três  estatuetas no Oscar 2019: melhor filme, melhor ator coadjuvante e melhor roteiro original. Um filme que realmente vale a pena ser visto.

O título remete ao “The Negro Motorist Green Book”, também conhecido como “The Negro Travelers’ Green Book”, um guia publicado entre os anos de 1936 e 1966, com a função de ajudar afrodescendentes a encontrarem estabelecimentos nos quais fossem aceitos para hospedagem, alimentação e outros serviços e necessidades diárias sem afrontar o branco com a sua presença. Essa era a triste realidade na maior parte dos Estados Unidos dos anos sessenta.

“The Negro Travelers’ Green Book”

Green Book, conta a história real da amizade inesperada entre o pianista Don Shirley  e seu motorista Tony Lip,  O ator Viggo Mortensen dá vida em Tony Vallelonga, mais conhecido como Tony Lip, descendente de italianos, um tipo essencialmente urbano hábil em improvisar e resolver problemas pela vida.

O ator Viggo Mortensen dá vida em Tony Vallelonga

Mahershala Ali, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante, ilumina com perfeição o pianista virtuoso, Doutor Don Shirley, cuja vida longe do palco é um desafio permanente à sua sobrevivência e dignidade.

Mahershala Ali interpreta no cinema Dom Shirley

O longa vai nós deixando testemunhar passo a passo o nascimento da amizade entre estes dois homens com quase nada em comum. Os personagens faziam malabarismos a fim de se livrar da violência racial, resultando em vínculo único, com muito companheirismo, generosidade e sentido do humor.

Cena do filme Green Book

Na vida real, Donald Walbridge Shirley, também conhecido como Don Shirley, nasceu em janeiro de 1927, foi um pianista consagrado que buscou romper barreiras raciais em um  Estados Unidos segregador.

Filho de pais jamaicanos imigrantes, Shirley nasceu na Florida, iniciou as aulas de piano aos dois anos de idade com a mãe. Demonstrando enorme talento, aos 9 anos de idade, foi estudar com Mittolovski no Conservatório de Leningrado, sendo o único aluno negro desta instituição.

Donald Walbridge Shirley (1927 – 2013)

Shirley sonhava se tornar músico clássico, mas foi aconselhado seguir carreira tocando “música negra”.  “Um auditório nos EUA, jamais aceitaria um homem negro tocando Chopin”, seu músico favorito. Desta forma, apesar de tocar como solista em sinfonias de Chicago, Cleveland e Detroit, o verdadeiro Shirley acabou transitando entre a música clássica, o jazz e outros elementos da música pop para criar seu próprio gênero.

Uma das falas do músico no filme  foi retirada de uma entrevista onde ele revela seu tom crítico sobre os jazzistas:

“Eles fumam enquanto tocam, colocam o copo de whisky em cima do piano, depois ficam bravos quando não são respeitados como Arthur Rubinstein. Você não vê Arthur Rubinstein fumando e apoiando seu copo sob o piano (…)”, Entrevista para o  Jornal New York Times, 1982

Segundo a família, o título deveria ser: “Sinfonia de Mentiras”. No entanto,apesar das críticas de familiares de Don Shirley sobre a veracidade dos fatos relatados em uma história narrada e protagonizada por brancos, o pianista realmente saiu em turnê pelo Sul dos EUA para tocar em teatros e salas de visitas só para brancos, acompanhado de seu motorista e guarda costas Tony Lip, como retrata Green Book.

Também foi comprovado que o verdadeiro Don Shirley era um homem culto, elegante, refinado, dominava oito idiomas.

Sobre seu talento, assim se expressa o compositor Igor Stravinsky (1882 – 1971):

“Seu virtuosismo é digno dos deuses”.

O pianista americano nunca se referia a si mesmo como artista ou intérprete de jazz, mas sim como músico. Em entrevista para o jornal The New York Times disse:

“A experiência negra através da música com dignidade. Isto é tudo que tratei de fazer”.

O verdadeiro Dom Shirley morreu de complicações de doença cardíaca em sua casa na cidade de Nova York, acima do Carnegie Hall, em 6 de abril de 2013 aos 86 anos.  

Ouviremos Don Shirley tocando músicas apresentadas no filme “Green Book: O Guia”.

Observe o som refinado e o belo piano do verdadeiro Don Shirley.

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O ADEUS A NELSON FREIRE (1944 – 2021)

gênio do piano brasileiro
Nelson Freire (1944 – 2021)

Partiu na madrugada de segunda-feira (01/11), o pianista que considerava o piano como se fosse uma pessoa, que o acompanhava desde sempre.

Artista brasileiro universalmente consagrado, recebedor de honrarias em muitos países, convidado a tocar nas melhores salas de concerto do planeta, com as orquestras mais prestigiadas e os regentes mais em evidência.

De Nelson Freire (1944 – 2021) guardamos a lembrança de seu piano magistral. Em cada interpretação iluminava a obra com um inigualável poder de recriação. Sua arte era mesmo transcendental!

A partida de Freire fez chorar o mundo da música. Segundo o crítico francês Alain Lompech (1954):

“é possível encontrar três ou quatro pianistas tão excepcionais quanto Nelson Freire, mas ninguém encontrará um melhor”.

Tantas honrarias, contudo, não alteraram o caráter do menino nascido na pacata Boa Esperança, nas Minas Gerais. Desde a mais tenra infância já demonstrou incríveis sinais de seu talento musical e sua família, impressionada por suas capacidades, transferiu-se para o Rio de Janeiro quando ele tinha apenas cinco anos de idade, buscando uma educação musical de qualidade para o prodigioso menino.

Nelson Freire

Em entrevista para a Revista BRAVO Nelson Freire assim se posicionou:

(…)“aos 5 anos, minha família toda mudou-se para o Rio por minha causa. Foi uma transferência incrível, penso nisso até hoje, pois meus pais já tinham uma certa idade — meu pai tinha 46 anos, era farmacêutico em Boa Esperança e até mudou de profissão, foi ser gerente de banco, deixou a farmácia. Éramos 9 irmãos e havíamos passado a vida inteira numa cidadezinha pequena, agradável, onde todo o mundo se conhecia. Eu causei uma revolução na vida deles, e eles tiveram uma coragem enorme de fazer isso por causa de um menininho de 5 anos, mudar-se para o Rio de Janeiro, que era outro mundo, uma capital da República!”

Nelson Freire aos 10 anos

No Rio, Freire foi orientado por duas grandes educadoras, a gaúcha Nise Obino (1913 – 1995) e a paulista Lúcia Branco (1903 – 1973).

Nelson Freire; Luiz Eça; Lúcia Branco; Jacques Klein, Nise Obino e Moreira Lima (1956)
www.institutopianobrasileiro.com.br

“(…)Comecei muito cedo, e se nesse princípio eu tivesse sido mal orientado, poderia ter sido um menino prodígio explorado por professores”. Nelson Freire

Com Nise Obino,  Freire teve uma relação de amor. Ele era movido pelo amor pelas pessoas e pela música. Nelson repetiu em muitas entrevistas:  “Converso com a Nise todos os dias…”

Aos 12 anos, Nelson Freire foi  finalista no I Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro (1957),  examinado por pianistas como  Guiomar Novaes (1894 – 1979), pianista por ele sempre admirada e que compôs o júri na ocasião.

Após tão importante conquista, Freire recebeu do então presidente Juscelino Kubitschek (1902 – 1976) uma bolsa de estudos que o levou a Viena, onde estudou sob a orientação de Bruno Seidlhofer (1905 – 1982).

Finalista do I Concurso de Piano do Rio de Janeiro (1957). Da esquerda para a direita: Nelson Freire (com 12 anos na época, tocou o 1º mov. do Imperador de Beethoven na final); Giuseppe Postiglione (italiano, 2º lugar); Alexander Jenner (austríaco, 1º lugar); Sergei Dorensky (russo, 2º lugar); Claude Albert Coppens (belga, “Prêmio Villa-Lobos”); Fernando Lopes (brasileiro”melhor intérprete das mazurcas”); e Mikhail Voskresensky (russo). Acervo de Nelson Freire
www.institutopianobrasileiro.com.br
 

Ao chegar na Europa conheceu a pianista argentina Martha Argerich (1941). Amigos desde 1959, Marta e Nelson eram mais que amigos, eram confidentes, eram irmãos, eram almas gêmeas.

Nelson e Martha

Aos 19 anos conquistou o primeiro prêmio internacional,  no Concurso Internacional Vianna da Motta, em Lisboa, que lhe garantiu  a representação por uma importante agência de empresários musicais, Conciertos Daniel, com sede em Madri, fase em que  tocou em quase todos os países da América Latina e também na Espanha. Foi esse o período da descoberta da virtuose de Freire pela crítica internacional:

“o jovem leão do teclado”Times, Londres

“um dos maiores pianistas dessa ou de qualquer outra geração”.Revista Time, Nova York

Nelson Freire se tornou um artista consagrado internacionalmente. Gravou com importantes selos internacionais. Recebeu numerosas condecorações como a de Cidadão Carioca, Cavaleiro da Ordem do Rio Branco, Légion d’Honneur, Comendador des Arts et des Lettres, Medalha Pedro Ernesto, Medalha da Cidade de Paris, Medalha da Cidade de Buenos Aires e o título de  doutor honoris causa pela Escola de Música da UFRJ.

Em 2003, o cineasta João Moreira Salles estreou o documentário “Nelson Freire”  – um filme sobre um homem e sua música. Ao saber da partida de Nelson Freire, assim falou:

“Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho. Ele encarnava valores de um humanismo essencial a todo projeto de civilização decente – a transmissão da beleza, o imperativo moral do trabalho bem feito, a recusa de toda vulgaridade e espalhafato. Um presidente que tira a máscara de um bebê e força uma criança a fazer uma arma com as mãos é uma imagem verdadeira e poderosa do país. Mas não é a única. Nelson Freire, o pianista, não o filme, representava e representa – nos discos, nos registros dos concertos, na vida discreta que levou -uma outra face do Brasil, o lado capaz de nos salvar. Seu talento não está ao alcance de maioria de nós, mas a decência, sim.”

documentário “Nelson Freire”

O mundo da música não será o mesmo sem o piano de Nelson Freire. Mas, como ele mesmo disse:

A música tem esse poder de transmissão universal, talvez por ser etérea, não se pode segurar a música, ela precisa ser ouvida”.

Ouviremos Nelson Freire interpretando a Sonata ao Luar (n. 14) de Ludwig  van Beethoven (1770 – 1827) em gravação de 2009 no Festival de Inverno de Campos do Jordão-SP.

Observe a interpretação magistral dessa famosa Sonata. Ouvir Nelson Freire é sempre um ato de amor.

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