JESSYE NORMAN (1945 – 2019)

uma das raras cantoras negras a alcançar o estrelato mundial no mundo da ópera

Jessye Norman (1945 – 2019)

Lembramos hoje, Jessye Norman (1945 – 2019), uma das mais admiradas cantoras de ópera contemporâneas, uma das artistas mais bem pagas no mundo da música de concerto.

Jessye veio de uma família negra de classe média, nascida em Augusta, Geórgia, em 1945, período em que as tensões raciais eram muito intensas no sul dos Estados Unidos.

A família foi sua primeira referência musical, o pai cantava, a mãe e o avô materno tocavam piano, além de frequentar a Igreja Batista do bairro com intensa atividade musical. Assim Jessye, desde os quatro anos, se destacou cantando na igreja e posteriormente descobriu a ópera ao escutar récitas transmitidas pelo rádio.

Jessye dizia:

As histórias contadas nas óperas não eram diferentes das que eu conhecia. Um rapaz encontra uma garota, apaixona-se por ela, por alguma razão eles não podem ficar juntos e tudo se encaminha para um final triste”.

A soprano estadunidense viveu uma trajetória marcada pela voz imponente, qualidades emocionais expressivas, e um estilo intelectual formidável. Graças a uma bolsa integral, estudou música na Universidade Howard, de Washington. Posteriormente, continuou sua formação no Conservatório Peabody, em Baltimore, e na Universidade de Michigan.

Jessye Norman (1945 – 2019)

Nada foi capaz de deter a trajetória da grande artista. Dona de uma personalidade magnética, com sua imponente presença física, e uma extensão vocal admirável, sempre causou profunda impressão nas plateias por onde passou, interpretando com frequência papéis de princesas ou de outras figuras nobres inusitadas para cantoras negras.

Jessye Norman (1945 – 2019)

O repertório de Norman atravessa quatro séculos da história da música, começando no período barroco e chegando ao moderno. Além das óperas de Wagner, interpretou Beethoven, Berlioz, Gluck, Mozart, Strauss e Verdi. Também cantou, entre outros, peças de Berg, Brahms, Debussy, Mahler, Ravel, Schubert e Schumann.

Admirável e versátil, Norman se aventurou no jazz gravando um álbum celebradíssimo com o pianista e compositor Michel Legrand.

Não foram poucas as honrarias e celebrações que o fenômeno mundial da ópera, Jessye Norman, rompeu e venceu. Quatro prêmios no Grammy Awards, em 1989, no bicentenário da Revolução Francesa, data máxima da França, foi uma negra americana que cantou La Marseillaise. Foi à voz inconfundível de Jessye que brilhou na posse de dois presidentes dos Estados Unidos, Ronald Reagan, em 1985, e Bill Clinton, em 1997. Nos 60 anos da Rainha Elizabeth 2ª, da Inglaterra, em 1986. Na celebração dos 70 anos de Nelson Mandela, em 1988. Na abertura dos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta. Na cerimônia pelas vítimas do 11 de setembro, em 2002. Norman sempre defendeu a diversidade e teve uma intensa atuação no engajamento a obras sociais e humanitárias.

60 anos da Rainha Elizabeth 2ª, da Inglaterra, em 1986

Jessye Norman morreu aos 74 anos na cidade de Nova York, deixando seu legado para o mundo da ópera.

Jessye Norman (1945 – 2019)

A família assim se pronunciou:

“Nós estamos orgulhosos das conquistas musicais de Jessye e da inspiração que ela foi para plateias por todo o mundo. Estamos igualmente orgulhosos de sua humanidade e seu ativismo em causas como a fome, falta de moradia, o desenvolvimento de jovens e a educação de arte e cultura”.

Ouviremos Jessye Norman interpretando Habanera (da ópera Carmen de Bizet)  com a Orquestra Nacional da França, sob a regência de  Seiji Ozawa.

Observe a expressividade e o timbre inconfundível de Jessye.

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CANTIGAS DO BEM-QUERER

Henrique de Curitiba (1934 – 2008) e Cassandra Rios (1932 – 2002)
Maestro Norton Morozowicz (1948)

Com as comemorações dos “dias dos Namorados”, no Brasil, propagandas e chamadas em mídias de toda natureza nós lembram que o AMOR está no ar.

Celebrando esse sentimento falaremos de uma obra composta em 1977. CANTIGAS DO BEM-QUERER fala de relacionamentos de forma plural e delicada. A música é de Henrique de Curitiba (1934 – 2008) e os versos de Cassandra Rios (1932 – 2002)

Henrique de Curitiba nasceu em um lar de artistas na cidade de Curitiba-PR, onde se graduou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, de onde partiu para construir um sólido currículo internacional.

Henrique de Curitiba (1934 – 2008)

Henrique compôs mais de 150 obras no gênero instrumental, vocal e de câmara, destacando-se como um dos principais compositores brasileiros de sua geração. Tem obras editadas, executadas e gravadas, no Brasil e no exterior.

“um de nossos melhores compositores neoclássicos” (Mariz, 2000)

Segundo relatos do compositor Henrique sobre a obra Cantigas do Bem-Querer:

“A primeira versão desta obra foi escrita durante o IX Festival Internacional de Música do Paraná sob a Direção Artística do Maestro Roberto Schnorremberg (1929 – 1982), como peça de encomenda para aquele evento, do ano de 1977”.

Ainda segundo Curitiba, Cantigas do Bem-Querer foi composta durante os primeiros quinze dias daquele Festival:

“passada, de página em página, ao Madrigal dirigido por Samuel Kerr (1935), o qual em seguida a ensaiava. Foi apresentada em concerto no Teatro Guaíra em Curitiba, no final do Festival, com muito sucesso”.

As cantigas foram compostas para Coro, soprano solista, piano e orquestra de cordas.

Henrique relata que encontrou, por acaso, os versos de Cassandra Rios “num cesto de liquidação da antiga livraria Guignone, em Curitiba”. Henrique ficou completamente impressionado com o lirismo e beleza da obra desta escritora.

Cassandra Rios (1932 – 2002)

 A paulista, Odette Pérez Ríos (1932 – 2002), utilizava o pseudônimo de Cassandra Rios, em homenagem a sacerdotisa grega que profetizou o episódio do “Cavalo de Troia”.

Aos 16 anos, como Cassandra Rios, publicou seu primeiro livro: “A Volúpia do Pecado“, uma história de amor entre duas adolescentes, se tornando a primeira autora do país de romances eróticos voltados para esta vertente.

A Volúpia do Pecado” – Cassandra Rios

Ninguém foi mais perseguida pelos censores da ditadura brasileira do que Cassandra Rios, escritora recordista em vetos durante o regime militar.

Apesar da enorme perseguição, Cassandra Rios se tornou a primeira escritora brasileira a vender 1 milhão de exemplares, meta alcançada em 1970, sendo ainda, o primeiro caso conhecido de uma escritora nacional a viver exclusivamente da venda de seus livros.

Em entrevistas, Cassandra Rios revelou:

“Sou uma criatura simples, comum, cheia de problemas, tristezas e amarguras. A vida de escritora tem sido muito dura para mim.”

Os versos de Cassandra Rios musicados por Henrique de Curitiba, não tem título, os aqui apresentados são uma “livre referência” do compositor para os diversos trechos da obra musical: 1 – Chove…; 2 – No Mar…; 3 – Se me disseres…; 4 – Interlúdio I (cordas); 5 – Fecha os olhos… (Coro a capella); 6 – Eu te vi (ária de soprano); 7 – Interlúdio II (cordas); 8 – Final.

Celebraremos o amor em toda sua pluralidade com as – Cantigas do Bem-Querer.

Ouviremos a gravação do Concerto realizado na Capela Santa Maria em Curitiba, durante o Festival Padre Penalva em outubro de 2012, sob a direção do Maestro Norton Morozowicz (1948), irmão do compositor Henrique de Curitiba; com a Camerata Antiqua de Curitiba.

Capela Santa Maria em Curitiba

Observe a delicadeza da música de Henrique Curitiba e o lirismo dos versos de Cassandra Rios.

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DUO DE PIANO A QUATRO MÃOS

Lucas e Arthur Jussen
Lucas e Arthur Jussen

O piano a quatro mãos ocupa lugar de destaque no repertório camerístico.  Tocar a quatro mãos é uma excelente motivação para pianistas e importante ferramenta pedagógica no ensino do piano.

Foi na passagem do século XVIII para o XIX que surgiram na Europa as primeiras transcrições para piano a quatro mãos, as quais se tornaram o principal meio de divulgação da música sinfônica e de câmara. O sucesso desse repertório foi tão grande que alcançou obras dedicadas tanto para amadores – visando à prática doméstica de música, como para pianistas profissionais, impulsionando os compositores a escreverem peças originais para este gênero até os dias de hoje.

Um Duo de irmãos holandeses tem chamado à atenção do mundo da música de concerto. Lucas (1993) e Arthur Jussen (1996) vêm de uma família musical, a mãe Christianne van Gelder é professora de flauta e o pai, Paul Jussen, é timpanista da Orquestra Filarmônica da Rádio Holandesa em Hilversum e Percussionista do Essemble Da Capo”. 

Lucas e Arthur Jussen

Reconhecidos, desde muito cedo, como crianças talentosas, Lucas e Arthur colecionam vários prêmios nacionais e internacionais.


Lucas Jussen e Arthur Jussen
 Vencedores na categoria Música Clássica
(outubro de 2018  em Berlim, Alemanha)

Tocando quase sempre em Duo de Piano a Quatro MãosLucas Jussen, o mais velho dos dois irmãos diz:

“Não consigo me imaginar tocando com mais ninguém. É como se fôssemos uma pessoa”.

E é mesmo assim que soa o piano deste Duo que vem chamando a atenção no mundo – dois pianistas e uma sonoridade impecável.  

Lucas Jussen e Arthur Jussen

Curiosamente, o Duo Lucas e Arthur Jussen, em 2005, esteve no Brasil, durante quase um ano, a convite da pianista Maria João Pires (1944).

Nos anos seguintes, Lucas completou os seus estudos com o pianista Menahem Pressler (1923) nos Estados Unidos e com o pianista  Dmitri Bashkirov (1931 – 2021) em Madrid. Já Arthur diplomou-se pelo Conservatório de Amsterdã, onde estudou com o pianista e renomado pedagogo Jan Wijn (1934).

Antes da pandemia, o Duo apresentava-se em salas de concertos e festivais por toda a Europa, incluindo Concertgebouw de Amesterdã, Herkulessaal de Munique, Festival de Música de Rheingau, Festival da Holanda, Festival de São Petersburgo, sendo, desde 2010, músicos exclusivos da Deutsche Grammophon.

músicos exclusivos da Deutsche Grammophon.

O Duo já trabalhou com os regentes  Andris Nelsons (1978), Valery Gergiev (1953), Sir Neville Marriner  (1924 – 2016) e Yannick Nézet-Séguin (1976). Em julho de 2020, já na pandemia, realizaram um concerto gravado no Royal Concertgebouw Amsterdam para o Tanglewood 2020 Online Festival.

Lucas e Arthur Jussen

Atualmente Lucas e Arthur Jussen têm buscado as plataformas digitais e pretendem tocar para um publico cada vez maior e mais heterogêneo.

Ouviremos Lucas e Arthur interpretando a Fantasia em fá menor de  Franz Schubert (1797 – 1828)  em uma LIVE   gravada em uma das mais conceituadas salas de concerto do mundo  – Royal Concertgebouw de Amisterdã, Holanda, em julho de 2020, já na pandemia, para o Tanglewood 2020 Online Festival.

Observe, nessa interpretação memorável, a sonoridade e a beleza dessa obra de Schubert. A Fantasia em fá menor é uma obra do período romântico. O Romantismo favoreceu o piano. Tanto em casa, quanto em salões ou salas de concerto, o piano era capaz de transmitir os sentimentos mais profundos do compositor muito nitidamente, e, algumas vezes, de forma teatral. Pequenas e inúmeras peças foram escritas especialmente para o piano nesse período. Essa obra faz parte do repertório de muitos Duos, mas esta gravação em especial está de “tirar o folego”.

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“TICO – TICO NO FUBÁ” – ZEQUINHA DE ABREU (1880-1935)

Um sucesso que virou trilha de vários filmes

Zequinha de Abreu (1880-1935)

José Gomes de Abreu, o Zequinha de Abreu (1880-1935), era o primeiro dos oito filhos do boticário José Alacrino Ramiro de Abreu e de Justina Gomes Leitão. Como era o costume da época, a mãe queria que Zequinha fosse padre, e o pai, que se formasse médico.

Diferentemente do que a família esperava dele, aos seis anos, Zequinha já mostrava grande interesse pela música, tirando melodias na flauta e organizando, ainda durante o curso primário, uma banda na escola da qual era o regente.

Na década de 20, durante um baile, apresentou um choro e ficou surpreso com a reação entusiasmada dos pares de dança. Batizou a obra de “Tico-Tico no Farelo”. Como já existia um choro com o mesmo nome na época, composto por Américo Jacomino (1889-1928), Zequinha de Abreu resolveu intitulá-la “Tico-Tico no Fubá”.

Capa da Partitura – Irmãos Vitale
São Paulo, 1941

Apesar da boa acolhida do choro “Tico-Tico no Fubá” uma gravação só aconteceu quatorze anos depois, pela Orquestra Colbaz, dirigida pelo maestro Gaó (1909-1992).

Ao longo dos anos “Tico-Tico no Fubá” foi interpretado por dezenas de artistas, sua letra sofreu várias modificações e tornou-se um dos maiores sucessos da Música Brasileira no século XX.

“Um tico-tico lá/ O tico-tico cá/ Está comendo todo, todo, meu fubá/ Olha, seu Nicolau/ Que o fubá se vai/ Pego no meu Pica-pau e um tiro sai.”

(Trecho da letra feita por Eurico Barreiros para Tico Tico no Fubá)

A música foi um dos maiores sucessos da década de 1940 e fez parte da trilha sonora de cinco filmes: “Alô Amigos”, “A Filha do Comandante”, “Escola de Sereias”, “Kansas City Kity” e “Copacabana”, quando o choro foi cantado por, nada menos, que  Carmen Miranda (1909-1945).

Carmen Miranda (1909-1945)

Quanto a Zequinha, mudou-se para a capital paulista, onde se apresentava no Bar Viaduto, na Confeitaria Seleta, em clubes, cabarés, “dancings” e festas. Seu piano, conjuntos e músicas eram muito requisitados. Trabalhava também na Casa Beethoven, atraindo curiosos que passavam na Rua Direita. Como era um costume da época, mostrava ao piano, os últimos lançamentos musicais. Zequinha de Abreu era um autentico “pianeiro”.

Piano que pertenceu a Zequinha de Abreu

Foi neste período que veio a conhecer o editor musical Vicente Vitale, com quem iniciaria uma grande amizade e uma ligação importante – A Editora Irmãos Vitale lançou no mercado vários dos sucessos de Zequinha de Abreu.

O Melhor de Zequinha de Abreu – Irmãos Vitale

Dezessete anos após a morte de Zequinha de Abreu, os cineastas Fernando de Barros (1915-2002) e Adolfo Celi (1922-1986) e a Companhia Vera Cruz homenagearam o compositor com o filme “Tico-Tico no Fubá” (1952) com Anselmo Duarte (1920-2009) e Tônia Carrero (1922- 2018) nos principais papéis. Ainda hoje o Tico-Tico no Fubá faz grande sucesso.

Tico-Tico no fubá o filme

Ouviremos o Tico-Tico no Fubá com a Orquestra Juvenil da Bahia durante o concerto de encerramento da Turnê da orquestra jovem na Europa em 2018 na Philharmonie de Paris. A orquestra apresentou a obra de Zequinha de Abreu com arranjo de Jamberê – integrante do Programa NEOJIBA (Núcleos de Estudos Orquestrais Juvenis e Infantis da Bahia).

Observe a irreverencia dessa apresentação. Os músicos tocam e dançam mostrando toda a alegria e versatilidade da música de  Zequinha de Abreu.

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COMPOSITORAS MULHERES

Louise Farrenc (1804 – 1875)
Louise Farrenc (1804 – 1875)

Embora a música fosse vista como um “atrativo a mais” para as mulheres “de boa família” exclui-las de atividades musicais profissionais era algo considerado completamente normal até muito pouco tempo.

Num passado recente orquestras como a Filarmônica de Berlim, a Filarmônica de Viena e a Filarmônica Tcheca não permitiam a entrada de mulheres em seu corpo efetivo.

No século XIX, ser compositora era quase inimaginável. Segundo a pianista e compositora 

Clara Schumann (1819 – 1896):

“Acreditei que tinha talento criativo, mas desisti desta ideia; uma mulher não pode desejar compor – nunca houve nenhuma capaz disso. E eu serei a primeira? Seria arrogância minha acreditar nisso. “

Falaremos hoje da trajetória da francesa Louise Farrenc  (1804 – 1875).  Pianista e compositora, filha de uma família de artistas, demonstrou desde muito cedo aptidão musical. Embora desconhecida do grande público, Farrenc compôs um considerável volume de obras de grande qualidade para sopros, cordas e piano, além de Duas Aberturas e Três Sinfonias.

Louise Farrenc 

Aos 15 anos seus pais permitiram que ela estudasse composição, mesmo que estas aulas fossem restritas aos homens. Aos 17 anos Louise casou-se com o flautista Aristide Farrenc  (1794 – 1865) de quem herdou o sobrenome. O casal foi proprietário da editora “Éditions Farrenc” uma das principais editoras de música da França por quase 40 anos.

Aristide Farrenc  (1794 – 1865)

Mesmo considerando o preconceito existente no século XIX contra mulheres compositoras, Louise Farrenc desfrutou de grande reputação durante sua vida. Iniciou os estudos de piano com Cecile Soria,  ex-aluna de Muzio Clemente (1752 – 1832), recebendo também ensinamentos de Ignaz Moscheles (1794 – 1870) e Johann Hummel (1778 – 1837).  Suas obras demonstram influencia dos três compositores.

Muzio Clemente (1752 – 1832) , Ignaz Moscheles (1794 – 1870) e Johann Hummel (1778 – 1837)

Em 1842 Farrenc foi nomeada para o cargo de professora efetiva de piano do Conservatório de Paris, sendo considerada uma de suas melhores professoras. Segundo relatos da época, muitos de seus alunos formaram com o “Premier Prix”.

Apesar disso, Farrenc recebia salário menor do que seus colegas do sexo masculino.  Esta situação chegou ao fim após a estreia triunfante de seu,  Noneto em Mi Bemol Maior (1849), para quarteto de cordas e quinteto de sopros;  com a participação do violinista, de grande reputação na época,  Joseph Joachim (1831 – 1907).  

Noneto em Mi Bemol MaiorLouise Farrenc

Assim se expressou um dos maiores críticos do século XIX na França, na edição Biographie Universelle des Musiciens François – Joseph Fétis (1784 – 1871), sobre a compositora Farrenc:

“ Se o compositor é desconhecido, a audiência permanece não receptiva, e o as editoras, especialmente na França, fecham seus ouvidos quando alguém lhes oferece um trabalho decente (…)  seus trabalhos foram reconhecidos pelos sábios e conhecedores da época como de primeira linha, mas isso não foi o suficiente para ganhar fama duradoura como compositora”.

Louise Farrenc morreu em Paris em 1875.  Durante décadas após sua morte, sua obra sobreviveu, com o passar do tempo seus trabalhos foram em grande parte esquecidos até que, no final do século XX, a partir do interesse em pesquisas sobre mulheres compositoras, Farrenc  foi redescoberta e muitas de suas obras foram gravadas.

Gravação dos Pianos Trios e Sextetos de Farenc

Ouviremos de Louise Farrenc o afamado  Noneto em Mi Bemol Maior (1849) com o grupo de câmara da “Capella Coloniensis” – Orquestra fundada pela Rádio Alemã em Colônia (1954) com o objetivo de apresentar ao público ouvinte uma performance historicamente informada.

Observe a instrumentação requintada, para a épca, e o som dos nove instrumentos: violino, viola, violoncelo, contrabaixo, flauta, oboé, clarineta, trompa e fagote. O Noneto de Farenc possui quatro movimentos: 1. Adagio – Allegro; 2. Andante con moto; 3. Scherzo. Vivace; 4. Adagio –  Allegro.

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José Maurício Nunes Garcia (1767-1830)

Música e Preconceito
José Maurício Nunes Garcia (1767-1830)

Na semana de “13 de maio”, onde se celebra no Brasil, a abolição da escravatura, abordaremos um tema ainda recorrente – o preconceito.

Descrito hoje como o maior compositor das Américas no período colonial, o padre carioca José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), sofreu as injustiças e perversidades do tempo histórico em que viveu.

José Mauricio nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de setembro de 1767, filho do Tenente Apolinário Nunes Garcia e de Victória Maria da Cruz, ficou órfão de pai aos seis anos e foi criado pela mãe e pela tia.

Neto de escravos, a decisão de abraçar a vida sacerdotal foi mais uma necessidade do que vocação. Além do seu “defeito de cor” (era assim descrita a condição dos negros e mulatos de então), José Mauricio não tinha posses. Desta forma, o seminário foi o caminho encontrado para continuar os estudos.

José Maurício Nunes Garcia (1767-1830)

Em 1792 foi ordenado padre, e, em 1798, mestre-de-capela da Sé no Rio de Janeiro, cargo sonhado pelo padre músico do império brasileiro.


Registro de nomeação de José Maurício mestre de capela, julho de 1798

A formação musical de José Maurício Nunes Garcia foi responsabilidade do professor Salvador José de Almeida Faria (c. 1732-1799), mineiro de Cachoeira do Campo, conterrâneo da mãe de José Maurício que logo percebeu o talento do promissor aluno.

Paralelamente às atividades de compositor, organista e regente, o padre José Maurício dedicou-se intensamente à atividade didática, tendo mantido durante muitos anos em sua residência um curso de música.

Música e Preconceito
Método de Pianoforte – JMNG

Conhecido e reconhecido como grande compositor, instrumentista, educador e improvisador, não teve uma vida fácil. Embora tenha frequentado o Palácio Real, na corte de Dom João VI (1767-1826), enfrentou como padre, mulato e pobre, adversidades impostas por uma sociedade escravocrata e preconceituosa.


“Rei D. João VI ouvindo José Maurício”
pintura a óleo de Henrique Bernadelli (1858-1936),

Os problemas de Padre José Maurício Nunes Garcia se acentuaram com a partida de Dom João VI em 1821 e com o vazio que este fato produziu no cenário musical carioca. Dom Pedro I, apesar de amante da música e simpático ao padre, não pôde manter a pensão do compositor e ele, já afastado do cargo de mestre-de-capela, teve que encerrar as atividades de sua escola que ministrava aulas gratuitamente para jovens.


O casamento de negros numa igreja do Rio de Janeiro no início do século XIX
DEBRET, Jean Baptiste. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Rio de Janeiro: Itatiaia, 1992. v. 3, pr. 15.

Frustrado, José Mauricio Nunes Garcia, envelheceu precocemente e morreu na miséria em 1830 aos 62 anos.

Sua obra, entretanto, tem sido cada vez mais objeto de estudo e interesse por músicos e pesquisadores brasileiros e estrangeiros. José Mauricio Nunes Garcia é o único compositor colonial cuja obra e biografia não foram esquecidas ao longo dos últimos dois séculos.

Ouviremos, do Padre José Maurício Nunes Garcia, Missa de Requiem em ré menor,  com a Orquestra e Coro Sinfônico da Universidade Federal do Rio de Janeiro,  sob a regência do maestro Ernani Aguiar e os solistas: Carolina Faria, Mauricio Luz, Veruschka MainhardtGeilson Santos.

Observe a dramaticidade e a beleza dessa obra composta por José Mauricio Nunes Garcia em 1816, oito anos após a chegada da corte no Rio de Janeiro, quando sua obra, segundo historiadores, trona-se “mais brilhante e virtuosística, com o objetivo de se aproximar do estilo da Capela Real”.

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Sonata de Outono – Ingmar Bergman

Música entre mãe e filha

Isolados devido à Pandemia que ainda perdura, por mais um ano teremos um “Dia das Mães” com comemorações contidas. Consolemo-nos com a arte, nossa grande aliada.

Para celebrar o “Dia das Mães” abordaremos o filme  Sonata de Outono (1978). Um obra cinematográfica que  fala sobre a delicada relação de uma mãe e uma filha.

O filme de Ingmar Bergman (1918 – 2007) gira em torno do relacionamento entre uma mãe pianista bem sucedida – Charlotte (Ingrid Bergman)e sua filha emocionalmente fragilizada – Eva (Liv Ullmann).

Eva (Liv Ullmann) e Charlotte (Ingrid Bergman)

Uma das mais icónicas cenas de Sonata de Outono se estruturada no Prelúdio nº 2, de Chopin (1810 -1849).  Ambas as personagens (mãe e filha) interpretam a obra do compositor polonês. Eva toca primeiro, enquanto Charlotte a escuta, depois as posições se invertem e a mãe toca o mesmo Prelúdio de Chopin: um diálogo mudo entre uma mãe aparentemente indiferente e uma filha amedrontada. Charlotte olha para Eva com um misto de decepção e pena diante da falta de talento da filha e, então, ensina-a como se deve tocar. 


F. Chopin (1810 -1849)

Há dor mas sem parecer. Depois um breve alívio. Mas ele some de repente, e a dor continua a mesma.

Enquanto a mãe toca o mesmo Prelúdio com toda a sua maestria, a filha  a observa com amargura, constatando sua aparente derrota em mais uma batalha emocional, e diz:

– Será que a infelicidade da filha é o triunfo da mãe? Mãe, será que a minha tristeza é a sua satisfação secreta?

Charlotte responde: 

(…) Eu queria que você soubesse que sou tão indefesa quanto você”.

Sonata de Outono, como o próprio nome sugere, possui uma relação direta com a música, no qual, sua construção correspondente a uma composição musical.  Bergman, mais do que narrar uma história, escreve uma música. A Sonata possui um primeiro movimento – Allegro, mostrando as cenas da chegada de Charlotte, o encontro da mãe com sua outra filha Helena (Lena Nyman), e os preparativos para o jantar.  O segundo movimento, como uma sonata clássica, de tempo mais lento, revela mãe e filha ao piano, interpretando o Prelúdio nº 2 de Chopin; e, por fim, o terceiro movimento, mais rápido e intenso, marcado pela discussão de mãe e filha durante a madrugada, quando todas as mágoas guardadas por anos vêm à tona.

Charlotte (Ingrid Bergman) e Eva (Liv Ullmann)

Na semana que comemoramos o dia das mães vai à sugestão de uma bela obra musical  – O Prelúdio n. 2 de Chopin e de um filme imperdível.  Um clássico para  ver e rever.  Fotografia incrível, direção magnífica, atuações primorosas e diálogos excepcionais.  

Em Sonata de Outono, Ingmar Bergman prova mais uma vez o porquê de ser conhecido como o maior desbravador da alma humana.

Sonata de Outono

Sonata de Outono foi lançado em outubro de 1978 nos Estado Unidos com  Direção e roteiro de Ingmar Bergman; Músicas compostas por: Frédéric Chopin, Johann Sebastian Bach, Georg Friedrich Handel.

O filme tem no elenco Ingrid Bergman: Charlotte Andergast; Liv Ullmann: Eva; Lena Nyman: Helena; Halvar Björk: Viktor; Marianne Aminoff:  secretária de Charlotte; Arne Bang-Hansen: tio Otto; Gunnar Björnstrand: Paul; Erland Josephson: Josef; Georg Lokkeberg:  Leonardo; Mimi Pollak: professora  de piano e Linn Ullmann: Eva quando criança. Sonata de Outono recebeu o Globo de Ouro como o Melhor Filme Estrangeiro (1978).

Ouviremos, o Prelúdio Op. 28 – No. 2 em lá menor do polonês Frédéric Chopin (1810-1849)  interpretado pela pianista argentina  Martha Argerich (1941).

Martha Argerich (1941)

 Observe como essa obra de Chopin é carregada de emoção tal qual o filme de Bergman

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NARA LEÃO (1942-1989)

Transpondo a imagem de mera musa da Bossa Nova

NARA LEÃO (1942-1989)

Nara Lofego Leão nasceu em Vitória do Espirito Santos, mas foi na capital carioca, ainda na adolescência, que transforma o apartamento de seus pais em um ponto de encontro de jovens compositores ligados à criação da Bossa Nova.

Nara Leão em 1964

Nara Leão, como ficou conhecida, era a segunda filha do casamento entre o advogado Jairo Leão e a professora Altina Lofego Leão, e, irmã mais nova da modelo e jornalista Danuza Leão.

Foi com os amigos que se reuniam no apartamento da família na zona sul que entediados com as músicas que estavam sendo feitas no país, começaram utilizar as reuniões para buscar ritmos diferentes e fazer uma nova música.


No apartamento de Nara Leão
Nara Leão, Roberto Menescal e Dori Caymmi

Foram nesses encontros com a participação de artistas como Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994), Roberto Menescal (1937) e João Gilberto (1931 –  2019), e, outros grandes nomes da música brasileira que teria nascido a bossa-nova.  Em função disso, Nara Leão, torna-se a musa daqueles rapazes que queriam fazer música com poesia.

A estreia profissional de Nara aconteceu com o musical de Vinícius de Moraes (1913 – 1980) e Carlos Lyra (1939), ‘Pobre Menina Rica‘. Apesar da superprodução, o espetáculo não fez o sucesso esperado.


Lyra (à esquerda), o produtor Aloysio de Oliveira, Nara Leão e Vinicius

Curiosamente a musa da bossa-nova alcançou o sucesso após espetáculo Opinião, juntamente com João do Vale (1934 – 1996) e Zé Keti (1921 – 1999), em uma  obra de crítica social à repressão durante o regime militar no Brasil, iniciado em 1964.


SHOW OPINIÃO
LP Nara Leão, Zé Keti & João do Vale  

Em 1966, Nara vence o II  Festival de Música Popular Brasileira da TV Record com a música “A Banda” de Chico Buarque (1944) e conquista definitivamente o público brasileiro.

Chico Buarque e Nara Leão

Foi a partir do contato com o ambiente politizado do Centro Popular de Cultura (CPC), ao lado de  Carlos Lyra (1939) e dos cineastas Ruy Guerra (1931),  Cacá Diegues (1940) e Glauber Rocha (1939 – 1981) que  Nara  passa a se interessar mais pelas ideias de esquerda.

Em entrevista em 1966 a cantora declara:

Os militares podem entender de canhão ou de metralhadora, mas não ‘pescam’ nada de política”

A repercussão da entrevista causou problemas com o, então presidente, Arthur da Costa e Silva que  pretendia  enquadrá-la na Lei de Segurança Nacional. Para a sorte de Nara, uma legião de intelectuais saiu em sua defesa, entre eles o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987).

A percepção de uma saturação da música de protesto leva a cantora a retomar o lirismo da canção popular. A partir de intensa pesquisa, Nara retoma o cancioneiro da era do rádio fazendo uma releitura da modinha imperial; do choro de Ernesto Nazareth (1863-1934); passando por sambas e marchinhas da era do rádio.

A Musa da Bossa Nova, também recebeu o convite para o álbum “Tropicália ou panis et circensis” e integrou o movimento provando toda a sua versatilidade e generosidade. Nara cantou “Lindonéia” e trouxe para o disco questões como violência e feminicidio, temas que não eram muito ventilados naquela época.

Nara Leão e a Tropicália

Casada com Cacá Diegues,  permaneceram um tempo no exílio na Itália e na França.


Casamento de Nara Leão e Cacá Diegues
26 de Julho de 1967

Voltando ao Brasil, dedicou-se quase que exclusivamente à maternidade e foi estudar psicologia.

Nara Leão e os filhos Francisco e Isabel

Nara Leão retomou aos poucos a sua carreira cantando com amigos e fazendo shows por todo mundo, principalmente no Japão, onde tinha um público cativo.

Prematuramente, aos 47 anos, na manhã de 7 de junho de 1989, Nara  morreu devido a um tumor inoperável no cérebro.

Nara Leão foi muito mais do que um ícone da Bossa Nova. Com uma obra eclética, a cantora, compositora, artista plástica, violonista e até atriz, transitou entre a bossa nova e o tropicalismo, passou pelas canções da era do rádio, visitou o samba do morro, contribuindo de forma significativa para a Música Popular Brasileira.

Ouviremos Nara Leão interpretando “QUEM É?” de Joracy Camargo (1898 – 1973) e Custódio Mesquita(1910 – 1945) do Álbum: A Lenda Viva de Carmen Miranda.

Observe como Nara Leão consegue recuperar a oralidade e ritmo do álbum original, porém em um registro mais conciso, eliminando vibratos e outros tipos de ornamentação. Fantástico!

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ERIK SATIE (1866-1925)

Um compositor excêntrico

Erik Satie, por Gabriele Donelli (2016)

Dono de uma personalidade curiosa, o compositor francês Erik Satie (1866-1925), não está na lista dos mais conhecidos. Porém sua obra está nos nossos ouvidos, principalmente na espera do telefone comercial de consultórios médios, em salas de espera e em propaganda de sabonete.

As Gymnopédies são três composições para piano. Curtas e atmosféricas.   Escritas pelo polêmico Erik Satie que você com certeza já ouviu.

Publicadas em Paris a partir de 1888, as peças compartilham um tema e uma estrutura comum. Coletivamente, elas são consideradas precursoras da música ambiente – que Satie chamava de musique d’ameublement, a música que preenchia o ambiente.

Paris, 1888

Para Satie, essa música deveria fazer parte dos ruídos naturais, sem se impor, tomando por base os estranhos silêncios que ocasionalmente caíam sobre os convidados, neutralizando os ruídos da rua.  Mas, na época, isso tudo parecia até mesmo uma piada e as pessoas insistiam em ficar quietas prestando atenção na performance.

Erik Satie então gritava nervoso:

Falem alguma coisa! Mexam-se! Não fiquem aí parados só escutando!”

As Gymnopédies são peças calmas e excêntricas. Ao compor este conjunto de obras, Satie desafiou a tradição clássica, usando dissonâncias deliberadas contra a harmonia e produzindo um efeito melancólico que combina com as instruções de execução, que são tocar cada peça lentamente e dolorosamente.

Ramom Casas Erik Satie (El bohemio; Poet of Montmartre), 1891 óleo sobre tela ,
198.8 x 99.7 cm (78 1/4 x 39 1/4) Northwestern University Library

O título Gymnopédie é tido como derivado do antigo Festival Grego Gymnopadia, dedicado ao Deus Apolo, no qual jovens nus dançavam ao som da flauta e da lira.  

A música de Satie foi, em seu tempo, apreciada por poucos e desprezada pela maioria dos compositores e críticos musicais. Diversas fragilidades eram apontadas, como por exemplo, a deficiência na formação enquanto compositor e pianista. Diziam que as suas miniaturas musicais com escalas pouco convencionais, harmonias estranhas e uma total ausência de virtuosismo instrumental eram apenas o reflexo de um compositor de fracos recursos técnicos.

Embora excêntrico e duramente criticado pela academia, era admirado por personalidades como Maurice Ravel (1875-1937), Claude Debussy (1862-1918) e Pablo Picasso (1881-1973).

Pablo Picasso (1881-1973)

Segundo o pintor espanhol:

“Satie foi uma das mais importantes influências em minha vida” Pablo Picasso

Erik Satie compôs uma música inovadora e original, incorporando em suas obras títulos bem humorados e sons extravagantes como de máquina de escrever, sirene e tiro de pistola, o que era  objeto de grande escândalo.

O irreverente e excêntrico Satie media 1,67 metros, sendo famoso por possuir doze ternos idênticos, cinza de veludo, e fazia coleção de guarda-chuvas e cachecóis. Além destas particularidades ainda detestava sol e tinha a estranha mania de comida branca como: arroz, ovo, coco, peixe, nabo, queijo, entre outras.

Erik Satie , por Alfred Frueh

 Após anos de vida boemia, morreu de cirrose em 1 de julho de 1925.    Além de compor também escrevia e fazia caricaturas, inclusive dele mesmo.  

Ouviremos as famosas “Trois Gymnopédies” (1888), interpretadas pela pianista francesa Anne Queffélec (1948).

Observe à calma e excentricidade das “Trois Gymnopédies” de Erik Satie.

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TOM JOBIM (1927-1994)

“muito mais do que uma unanimidade, no restrito círculo dos decanos da crítica de jazz mundial”

Tom Jobim (1927-1994)

O carioca Antônio Carlos Jobim estudou música com grandes ícones da música de concerto. Entre seus mestres estão o alemão radicado no Brasil, Hans Joachim Koellreutter (1915 – 2005) e Lúcia Branco (1903 – 1973), também professora do pianista Nelson Freire (1944).  


Nelson Freire, olhando para a foto de sua professora Lúcia Branco, entre fotos de Liszt e Guiomar Novaes

Outra importante aprendizdo, foi, a partir de 1954, quando contratado pela gravadora Continental, começou fazer seus primeiros arranjos supervisionado pelo grande maestro Radamés Gnatalli (1906 – 1988).

Tom Jobim e Radamés Gnatalli

Seu primeiro grande sucesso, na gravadora, foi com a música “Teresa da Praia”, uma parceria com Billy Blanco, gravada em 1954 por Lúcio Alves e Dick Farney. Não por acaso, seu primeiro casamento (1949), foi com uma Teresa, paulista que conheceu na praia aos 15 anos, e com quem, mais tarde teve dois filhos.

“muito mais do que uma unanimidade entre o restrito círculo dos decanos da crítica de jazz mundial”

Antônio Carlos Jobim tocando violão junto à primeira esposa, Thereza Otero Hermanny, e aos filhos Elizabeth Jobim e Paulo Jobim, na Rua Nascimento Silva, 107, em Ipanema.
Autor: Vincent Ciantar – 1959

Talvez o maior acontecimento em sua vida, tenha sido encontro com Vinícius de Moraes (1913 – 1980), em 1956. O “Poetinha” andava procurando um músico para trabalhar com sua peça “Orfeu da Conceição”. A obra já existia, Tom a harmonizou e orquestrou. Nascia aí uma das mais importantes parcerias da música popular brasileira.

Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Seu grande sucesso, “Garota de Ipanema”, marca da parceria Tom e Vinicius, chegando a figurar entre as dez canções mais executadas em todo o mundo. Foi à obra que mais projetou o nome de Jobim no exterior. Garota de Ipanema foi gravada pelos maiores ícones da música internacional, entre eles, Frank Sinatra (1915 – 1998).

Requintado e dono de um rico repertório cultural, Tom Jobim (1927-1994) foi muito mais do que uma unanimidade entre o restrito círculo dos decanos da crítica de jazz mundial. A influência de sua obra alcançou inúmeros músicos populares espalhados no Brasil e ao redor do planeta.

Segundo Leonard Feather (1914-1994), um dos maiores críticos de jazz norte-americano:

Águas de Março, sem dúvida, é uma das cem maiores melodias do século 20. A sensibilidade de Jobim é algo único. Coisa de Mozart e Erik Satie”.

Amante da natureza e deslumbrado por pássaros, compôs poemas líricos dedicados a sabiás, matitaperês e urubus, Jobim foi um apaixonado pela vida. Morreu aos 67 anos, vítima de um câncer de bexiga, em dezembro de 1994.

Tom Jobim

Ao completar 41 anos Tom Jobim foi entrevistado por Clarisse Lispector (1920-1977) em matéria publicada pela revista Manchete em 21 de setembro de 1968. Indagado sobre o ato de compor, assim responde Tom Jobim à pergunta: “Como é que você sente que vai nascer uma canção”?

“As dores do parto são terríveis. Bater com a cabeça na parede, angústia, o desnecessário do necessário, são os sintomas de uma nova música nascendo. Eu gosto mais de uma música quanto menos eu mexo nela. Qualquer resquício de savoir faire me apavora”.

Em fevereiro de 2012 Tom Jobim foi homenageado na cerimônia do Grammy pelo conjunto de sua obra e foi o primeiro brasileiro a conquistar tal honraria.

Ouviremos “Fantasia Tom Jobim” em concerto realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em Janeiro de 2014, tendo como solistas: Marcos Nimrichter, piano; Daniel Guedes, violino; Carmem Monarca, canto; com participação do Quinteto Villa-Lobos. A regência é do Maestro Norton Morozowicz com a orquestra Sinfonia Brasil. A obra executada foi especialmente arranjada por Rodrigo Morte

Observe a riqueza desta música. Viva a música brasileira!

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