DIA MUNDIAL DO COMPOSITOR

Para celebrar esta data, o Papo Musical escolheu Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), aniversariante do mês de janeiro.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)

O “Dia Mundial do Compositor”  foi sugerido pela Fundação da Sociedade de Autores e Compositores na cidade do México (SACM) em 1945, mas, foi somente a partir de 1983 que o dia 15 de janeiro passou a ser  oficialmente e universalmente celebrado como homenagem aos compositores. O Brasil, por sua vez, comemora a data em dois momentos: além do15 de janeiro, no dia 07 de outubro, data dedicada ao Compositor Brasileiro.

 Para celebrar esta importante data, escolhemos Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Mozart nasceu em Salzburg, Áustria, em 27 de janeiro de 1756, tornando-se um dos compositores mais conhecidos de todo o planeta. Mozart é considerado, juntamente com Johann Sebastian Bach (1985 – 1750)  e Ludwig van Beethoven (1770 – 1827), um dos três maiores compositores da música ocidental.

Mozart, Beethoven e Bach

Mozart começou a tocar instrumentos de tecla aos três anos de idade e compor aos cinco. Antes mesmo de completar seis anos, seu pai, também músico, o levou em companhia da irmã, Maria Anna Walburga Mozart (1751 – 1829) em turnês de enorme sucesso pela Europa.


MOZART ao cravo com sua irmã. Seu pai segura um violino e a mãe, já falecida, aparece no medalhão.
Pintura de Johann Nepomuk della Croce, c. 1780

Reconhecido desde cedo como gênio musical, o pequeno Mozart exibia sua incrível capacidade intelectual e, ao mesmo tempo, captava, em suas andanças, o melhor do espírito musical de seu tempo. Segundo seu biógrafo Stanley Sadie (1930 – 2005) Mozart:

“Foi o único compositor na história a escrever para todos os gêneros musicais e a ser excelente em todos”.

Mozart

Como gênio que foi, conduziu a música de então a um auge da perfeição, criando um estilo que realmente merece ser chamado de clássico.  Mozart desenvolveu um  modo muito próprio de compor, apresentando singularidades que o diferenciam da grande maioria de seus contemporâneos. Sua música possui indiscutivelmente, sua “assinatura”. Assim se expressa Mozart sobre o ato de compor:

“É um erro pensar que a prática da minha arte se tornou fácil para mim. E eu lhe asseguro, meu caro amigo, ninguém se dedicou tanto a aprender o estudo da composição como eu”.

Para comemorar “Dia Mundial do Compositor” parabenizo os “profissionais que escrevem música” e sugiro para audição da semana o concerto para Piano e Orquestra em do menor (K 466) de W. A. Mozart,  com a Camerata de Salzburg, cidade natal de Mozart,  com a solista/ regente, renomada intérprete das obras de  Mozart, Mitsuko Uchida (1948).

Mitsuko Uchida

A crítica da especialidade classificou a pianista nipónico-britânica Mitsuko Uchida como “a deusa da pureza”, referindo-se à forma como ela captou a quintessência dos concertos de Mozart.

Para Mitsuko Uchida: “Mozart é perfeito. É completo. A música chega até Mozart caindo-lhe do céu”.

Observe Mitsuko Uchida como solista e regente. Não deixe de observar também a “assinatura” do compositor Wolfgang Amadeus Mozart no Concerto para Piano e Orquestra em do menor K 466.

 

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TANGO BRASILEIRO

Henrique Alves de Mesquita utilizou o nome de “tango” para designar um tipo de música de teatro ligeiro, conhecida entre os franceses e espanhóis como “habanera” ou “havanera”
Tango Brasileiro “

Henrique Alves de Mesquita (1830 – 1906) foi reconhecido historicamente como o criador da expressão “tango brasileiro” quando classificou uma de suas composições: “Olhos matadores”, parte de sua Opereta “Ali Babá e os quarenta Ladrões” em 1868.


Partitura TANGO

 Alves de Mesquita foi compositor, regente, trompetista e organista, professor, copista e comerciante. Em 1853, fundou o Liceu Copista Musical. Compunha peças por encomenda, copiava partituras, vendia instrumentos musicais e ministrava aulas.  Entre seus alunos destacam-se Joaquim Callado (1848 – 1880) e Anacleto de Medeiros (1866 – 1907).

Joaquim Callado (1848 – 1880) e Anacleto de Medeiros (1866 – 1907)

Admirador das rodas de serestas e modinhas foi um dos músicos mais influentes em seu tempo, sendo muito admirado por músicos como Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935) e Ernesto Nazareth (1863 – 1934) . Em seu catálogo de obras, numeroso e relevante, estão principalmente óperas, operetas e músicas ligeiras que fizeram, à época, grande sucesso.


Ernesto Nazareth (1863 – 1934) e Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935)

 Em 1872 foi nomeado professor de solfejo e princípio de harmonia no prestigiado Conservatório Musical do Rio de Janeiro, aposentando-se em 1904, já no então Instituto Nacional de Música, como professor de instrumentos de metal.

Escola de Música da UFRJ

Segundo a publicação de Antônio José Augusto – Henrique Alves de Mesquita: da perola mais luminosa a poeira do esquecimento, “Henrique Alves de Mesquita, negro e filho de pais não casados, nasceu no Rio de Janeiro em 1830 e era o que historiadores convencionaram chamar ‘homem livre pobre’, indivíduos marginalizados numa sociedade marcada por relações profundamente desiguais, à mercê dos mandos e desmandos da polícia, do governo e das elites. Henrique teve, porém, um destino diferente. Em função de seu talento musical, que cedo demonstrou, foi agraciado com a maior distinção que um aluno poderia alcançar no Conservatório de Música, o prêmio de viagem, tornando-se o primeiro brasileiro a ser enviado ao exterior para realizar estudos musicais, mais precisamente ao Conservatório de Paris”.

Conservatório de Paris

Ouviremos de Henrique Alves de Mesquita, parte da Opereta “Ali Babá e os quarenta Ladrões” – interpretado pelos músicos Maurício Carrilho, violão; Toninho Carrasqueira, flauta e Luciana Rabello, clarinete Proveta e cavaquinho.

Henrique Alves de Mesquita (1830 – 1906)

Observe a riqueza deste choro “primitivo” descrito como um “tango-habanera”.

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FREDDIE MERCURY

Pop e lírico juntos em interpretação antológica

Freddie Mercury (1946 – 1991)
e Montserrat Caballé (1933 – 2018)

O cantor, pianista e compositor britânico Freddie Mercury (1946 – 1991), nasceu Farrokh Bulsara, na colônia britânica da Cidade de Pedra, em Zanzibar, atualmente Tanzânia.


Freddie e sua mãe  – Jer Bulsara (1922 – 2016)

Desde a infância, apreciador de música, estudou piano no colégio interno e foi bastante influenciado pela cantora e compositora indiana Lata Mangesjk (1929), muito famosa em Bollywood por sua atuação em trilhas sonoras de filmes.

Lata Mangesjk (1929)

Mundialmente reconhecido, Mercury se imortalizou como vocalista da banda de “hard rock” QUEEN, formada pelo guitarrista Brian May (1947), pelo baterista Roger Taylor (1949) e posteriormente, pelo baixista John Deacon (1951). 


“Queen”
Roger Taylor, Freddie Mercury, Brian May e John Deacon

 Em 2019, Freddie Mercury foi homenageado como personagem do filme Bohemian Rhapsody. O longa conta de forma poética à história do “Queen’ e de seu lendário vocalista Freddie Mercury. Embora a Edição 2019 do Oscar, não o tenha escolhido como  Melhor filme, foi agraciado com quatro estatuetas: Melhor MontagemMelhor Edição de SomMelhor Mixagem de Som e Melhor Ator, com Rami Malek (1981).

Rami Malek (1981)

Sempre admirador de ópera e conhecedor de música, no final da década de 1980, Freddie Mercury e a cantora lírica Montserrat Caballé (1933 – 2018) se juntaram para gravar o Álbum Barcelona, unindo dois expoentes de universos distintos. A gravação – segunda e ultima do cantor e compositor britânico em carreira solo – foi lançada em 1988, realizando um antigo sonho de Freddie, apaixonado e conhecedor de ópera.

Freddie Mercury e Montserrat Caballè

“Barcelona” foi escolhido para ser o hino da abertura dos Jogos Olímpicos de 1992 na Espanha, e, também utilizada como música-título para a cobertura da BBC de Londres na mesma Olimpíada.

Caballé foi considerada por muitos críticos como a melhor soprano do século 20, ganhando um Grammy e o Príncipe das Astúrias das Artes, a mais alta distinção concedida na Espanha, em 1991. Assim fala Caballé:

“Eu não me considero uma lenda da ópera, nem a última diva, como os jornalistas às vezes escrevem. Cada época tem seus divos e, no meu caso, a única coisa que fiz foi fazer bem o meu trabalho, da melhor forma possível, no mais alto nível”.

Montserrat Caballè

Já a voz incomparável de Mercury foi investigada cientificamente por pesquisadores austríacos, checos e suecos.  Segundo informações do site norte-americano Consequence of Sound, o estudo comprovou que Freddie não tinha uma extensão vocal que atingisse quatro oitavas, porém apresentou que ele era barítono, apesar de ser conhecido como um tenor. Foi descoberto, também, que suas pregas ventriculares vibravam junto com as pregas vocais, algo impensável para a maioria dos humanos. Além disso, as cordas vocais de Mercury vibravam mais rápido do que de outras pessoas. A onda causada pelo vibrato de Freddie era mais intensa do que a do tenor Luciano Pavarotti.

Freddie Mercury

A soprano espanhola (Montserrat Caballé) morreu em outubro de 2018 em Barcelona aos 85 anos de idade.  Freddie Mercury morreu aos 45 anos de idade, vítima de broncopneumonia, acarretada pela AIDS, em novembro de 1991, um dia depois de ter assumido a doença publicamente.

Observe a maravilha desta combinação – Pop e  Lírico  – resultando numa interpretação magistral.  

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O FENÔMENO LANG LANG

“o pianista mais bem pago do mundo”

Lang Lang (1982)

Natural de Shenyang, no nordeste da China, o pianista Lang Lang (1982) começou a estudar piano aos três anos de idade, e aos cinco conquistou o 1º lugar no Concurso de Piano de Shenyang, no seu país natal. Conta-se que seu pai, sempre muito exigente, chegou a dizer-lhe que preferia que ele morresse se não fosse o melhor. Assim iniciou sua brilhante carreira. Aos nove anos ingressou no Conservatório Central da China e, com apenas onze anos, conquistou a quarta colocação no Concurso Internacional de Jovens Pianistas da Alemanha.

Lang Lang e seu pai

Durante a trajetória que o levou a fama mundial, ocorreu um fato inusitado. Em 1999, ainda estudante do Instituto Musical de Curtis, Lang Lang tocou o Concerto n. 1 de  Tchaikovsky (1840-1893) no Festival Musical de Ravinia em substituição a outro pianista. Após 5 horas de concerto, o maestro Zubin Mehta (1936) pediu-lhe para tocar outras obras. Por volta das 2 horas da madrugada Lang Lang voltou à sala de concertos e tocou novamente para o lendário maestro. No dia seguinte, a história se difundiu. Lang Lang falou:

“Parece que peguei carona num foguete, pois minha carreira decolou rapidamente”

Maestro Zubin Mehta (1936)

Não é comum que o universo da música de concerto produza celebridades: o pianista chinês é exceção. Não raro, seus álbuns estão entre os mais vendidos não apenas das prateleiras de música de concerto, mas também das de música pop. Incansável, estudioso e curioso de novos tipos de música, seja ela clássica, ou moderna ocidental, ou tradicional chinesa.

Lang Lang

 À parte o sucesso nos grandes palcos do mundo, Lang Lang é o mais jovem membro do Conselho Consultivo do célebre Carnegie Hall de Nova York. Com esse impressionante currículo, figura em primeiro lugar entre os 10 pianistas mais bem pagos do mundo.  Para o pianista chinês:

“O terrível não é enfrentar as dificuldades. O terrível é perdermos a direção de nossos esforços. Ou seja, quando as chances aparecem e não conseguimos apanhá-las”.


Lang Lang

Antes da Pandemia, Lang Lang, realizava cerca de 140 concertos anuais. Como 2020 foi um ano atípico para todos, com concertos cancelados, o pianista embarcou em outro projeto: gravação das Variações Goldberg de Johann Sebastian Bach (1685-1750). Segundo o pianista chinês:

“A música é um bom remédio nestes tempos particulares. Bach, comparado a outros grandes compositores, tem um poder de cura ainda maior”

O astro mundial do piano lançou o álbum pela “Deutsche Grammophon”  em setembro ultimo, e, assim se pronunciou:

“Levei 27 anos para estar preparado (…) Nunca trabalhei em uma peça por tanto tempo. (…) É que técnica é uma coisa, mas apropriar-se da música, torná-la sua, é outra. (…) Esperei anos para conhecer melhor a peça. Quando comecei a gravá-la, morria de medo e gravava outra coisa. Se eu não sinto que uma obra se torna parte de mim, se eu não a entendo completamente, não me sinto confortável em gravá-la.”

Capa do Àlbum lançado em setembro de 2020

Ouviremos com Lang Lang as Variações Goldberg BWV 988: Aria.  As interpretações do pianista chinês são bem polemicas. As críticas para esta gravação tem sido favoráveis, ressaltando, porém, sua interpretação um tanto romântica e, por vezes, excêntrica. Lang Lang, atualmente, com 38 anos, recém-casado, diz ter atingido a maturidade. Ouça e opine.


Lang Lang e sua esposa –  a pianista Gina Alice Redlinger

Observe a sublime inspiração de sentimentos na interpretação, um tanto romântica, de Lang Lang nesta magistral obra do compositor Johann Sebastian Bach.

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DUETO

 Dueto ganhou uma versão que traz Chico Buarque cantando com sua neta Clara Buarque

Chico e Clara Buarque

Um dueto pode ser uma composição musical executada por dois músicos ou cantores. Vem daí o título de Duetocomposição de Chico Buarque de 1980. A primeira gravação, que traz Chico cantando com Nara Leão (1942 – 1989), foi lançada em um álbum da cantora só com o repertório de Chico – “Com açúcar, com afeto”. Dueto  só teve nova versão no início dos anos 2000, quando Chico se juntou a Zizi Possi e gravou a música para a Trilha Sonora do filme –  Amores Possíveis

Nara Leão e Chico Buarque

Considerado um dos maiores compositores da Música Popular Brasileira, Francisco Buarque de Hollanda (1944), mais conhecido como Chico Buarque, além da notabilidade como músico, desenvolveu ao longo dos anos uma carreira literária, sendo autor de peças teatrais e romances. Foi vencedor de três Prêmios Jabuti.  Em 2019, foi distinguido com o  Prêmio Camões, o principal troféu literário da língua portuguesa, pelo conjunto da obra. 

Chico Buarque

Nascido em uma família extremamente ligada à cultura, é filho de Sérgio Buarque de Hollanda (1902 – 1982), historiador e jornalista e de Maria Amélia Cesário Alvim (1910 – 2010), pianista e pintora. Tem como irmãos as cantoras Miúcha (1937 – 2018), Ana de Hollanda (1948) e Cristina Buarque (1950).  Seguindo essa atração cultural, em 1966 casou-se com a atriz Marieta Severo, com  quem teve três filhas: Silvia, Luísa e Helena. O cantor, além das filhas tem cinco netos.  Uma delas a cantora Clara Buarque.


Família Buarque de Hollanda reunida no jardim da casa da Rua Buri, 35: (esq. para dir.): Cristina, Ana, Pii, Maria Amélia, Sérgio de Hollanda, Chico, Sérgio e Álvaro | Acervo Família Buarque de Hollanda

 Com essa neta, Chico gravou em 2017, uma nova versão de Dueto. Clara, à época com dezenove anos, é filha de Helena Buarque e Carlinhos Brown, e, apesar da pouca idade, tem revelado ser herdeira do talento dos vários artistas da família. Essa gravação, um belo encontro de família, marcou a inclusão de Dueto na discografia oficial de Chico Buarque, já que faz parte de Caravanas (álbum lançado em agosto de 2017). 


Clara e Chico Buarque

A nova gravação de Chico e Clara se mostra atenta às novas formas de amar. Os dois improvisaram versos no final da gravação: Além de constar nos astros, nos signos, nos búzios e nos mapas, o amor também pode constar no “Googgle, no Twitter, no Face, no Tinder, no WhatsApp, no Instagram, no Youtube, no Snapchat, no Orkut, Telegram, no Skype”. É a letra mesclando com novas formas de expressão.

Ouviremos Dueto com Chico e Clara Buarque – parte do Álbum Caravanas

Observe a riqueza da instrumentação. Vale a pena conferir esta “nova” versão do icónico Dueto de Chico Buarque de Hollanda.

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CLÁUDIO SANTORO (1919 – 1989)

“um dos mais inquietos e polivalentes músicos de nosso tempo”

Claudio Franco de Sá Santoro (1919 – 1989)

Em um novembro, 101 anos atrás, nascia o grande compositor Cláudio Santoro em Manaus.

Em 1937 deixa sua cidade natal, onde havia iniciado seus estudos e parte para o Rio de Janeiro, buscando aperfeiçoamento.  Nesse período carioca, compõe suas primeiras obras, e, no final dos anos 30, integra o Grupo Música Viva juntamente com os jovens compositores de então: Edino Krieger (1928), Guerra-Peixe (1914 -1993), Eunice Katunda (1915 – 1990) dentre outros. Durante este período, foi influenciado pelo dodecafonismo defendido por Hans-Joachim Koellreutter (1915 – 2005).



Koellreutter (1915 – 2005);
Claudio Santoro (1919 – 1989); Edino Krieger (1928); Guerra-Peixe (1914 – 1993) e Eunice Katunda (1915 – 1990)

Em 1948, teve recusado seu visto para ir aos EUA como bolsista, devido à sua militância no Partido Comunista Brasileiro. Santoro muda-se para a França, a fim de estudar composição com Nádia Boulanger (1887-1979), professora e regente francesa que atraia alunos de todo o mundo ocidental. Da convivência com a mestra e com o ambiente político parisiense, ocorre uma transformação estética em sua criação. Santoro passa da música rigorosamente abstrata para uma linha mais lírica e expressiva, procurando criar uma obra mais comunicativa.

Nádia Boulanger (1887-1979)

Neste mesmo período, na França, aproximou de um grupo de músicos que o levou a Praga, na então Tchecoslováquia, onde, no Congresso dos Compositores Progressistas, Santoro participa como delegado brasileiro. Neste congresso é apresentado “oficialmente” para a doutrina soviética do Realismo Socialista aplicada à música, do qual o compositor passa a ser praticante, defensor e divulgador no Brasil. 

Alessandro Santoro

Alessandro Santoro, filho de Cláudio Santoro diz:

“Ele deixou de querer se aposentar na Alemanha, com todos os privilégios que ele poderia ter. Com certeza, papai estava muito ligado ao Amazonas por toda a família e tudo o que ele viveu aqui, mas ele tinha uma ligação muito forte com Brasília. Eu acho que essa ligação forte vem com a criação da Universidade”.

Claudio Santoro foi professor fundador do Departamento de Música da  Universidade de Brasília. Viveu um período na Alemanha, voltando à Brasília em 1979, ocasião em que fundou a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, a qual dirigiu até sua morte.

 Foi em Brasília que Santoro conheceu sua segunda esposa, a bailarina Gisèle, com quem teve três filhos: Gisèle (bailarina), Alessandro (pianista e cravista) e Cláudio Rafaello (DJ). 


Cláudio Rafaello Santoro

Segundo o filho caçula do casal, o conhecido DJ Raffa Santoro:

“Eu cresci ouvindo ele fazer as músicas eletroacústicas, essas loucuras que ele tinha de estúdio. Ele tinha um estúdio no quarto, mas ele movimentava a casa inteira, colocava vários gravadores de fita magnética tocando ao mesmo tempo. Eu cresci ouvindo aqueles sons ‘estranhos’ essa parte tecnológica”.

Em 1989 passa suas férias na Casa de Brahms, em Baden-Baden, Alemanha, onde termina sua 14° Sinfonia. Em seu vasto catálogo, destacam-se obras para piano,  cordas, Fantasia para violino e Orquestra, Verborgenheit, Ponteio e Três Abstrações, 14 Sinfonias e a Brasiliana para orquestra. 

Casa de Brahms, em Baden-Baden, Alemanha

 Ainda em 1989, Santoro morre regendo. Um infarto fulminante tira a vida do compositor no pódio do Teatro Nacional de Brasília ao ensaiar o 2º Concerto para Piano e Orquestra de Brahms (1833 -1897). No mesmo ano, o Teatro Nacional foi batizado com o seu nome.

Claudio Santoro (1919 – 1989)

Ouviremos de Cláudio Santoro,  Ponteio (Allegro ma non tropo)  interpretado pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro de Brasília, com a regência do maestro Claudio Cohen no 43º Festival de Inverno de Campos do Jordão gravado em julho de 2012.

Observe a originalidade, vanguarda e o nacionalismo presente na obra de Claudio Santoro.  

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MÚSICA DE CÂMARA

“música escrita para pequenas formações”

Violino, Violoncelo e Piano

A Música de Câmara é aquela feita para ambientes menores, adequada à execução em câmara ou aposento.  Existem peças de Música de Câmara para os mais variados instrumentos, mas um de seus principais gêneros é o Trio com piano. E essa formação geralmente contempla, além do piano, um violino e um violoncelo.

Mozart, Haydn, Beethoven são exemplos de compositores que escreveram obras para esta formação. No entanto, foram os compositores do período romântico que incorporaram ao Piano Trio um estilo brilhante dando importante contribuição ao gênero.

Mozart, Haydn e Beethoven

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Um exemplo do gênero no Período Romântico é o Trio em sol menor opus 17 de Clara Schumann.  A alemã Clara Josephine Wieck (1819 – 1896) foi esposa de Robert Schumann, sendo uma das poucas crianças prodígio a se manter famosa e reconhecida como virtuose do piano por toda a vida. Ela exerceu sua influência ao longo de 61 anos de carreira como concertista. Clara Schumann influenciou hábitos na performance musical. Inovou na escolha de repertório, na programação de suas turnês, exercendo independência junto ao público e aos empresários.

Clara Josephine Wieck

No entanto, sua carreira como compositora sempre esteve em segundo plano. Apesar se toda sua segurança em relação ao piano, duvidava de sua capacidade como compositora. A pianista viveu em um período em que compositoras não eram incentivadas, nem levadas a sério. Clara Schumann possui obras de inegável valor, embora tenha passado pela história da música ocidental como a esposa pianista do compositor Robert Schumann.

  “Acreditei que tinha talento criativo, mas desisti desta ideia; uma mulher não pode desejar compor – nunca houve nenhuma capaz disso. E eu serei a primeira? Seria arrogância minha acreditar nisso. (…) Que Robert possa sempre compor, isso sempre me fará feliz”. Clara Schumann

Robert e Clara Schumann

 O Trio em sol menor opus 17 de Clara Schumann foi composto em 1846 em quatro movimentos. Vale ressaltar que Clara compôs para esta formação, após criar uma série inovadora de concertos, na cidade de Dresden (Alemanha), para valorizar a Música de Câmara.

Dresden (Alemanha)

Curiosamente o casal Schumann tinha o hábito de presentear um ao outro com obras musicais. Clara presenteou Robert com o Piano Trio no sexto aniversário de casamento. Robert retribuiu, um ano depois, presenteando-a com seu Piano Trio n. 1 em ré menor opus 63.

Clara e Robert Schumann

Ouviremos o Piano Trio de Clara Schumann com o ATOS Trio – Annette von Hehn,  violino; Stefan Heinemeyer, violoncelo e Thomas Hoppe, piano.

ATOS Trio

Observe o brilhantismo e a poesia desta obra magistral da compositora Clara Schumann.  

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UM FESTIVAL INTERNACIONAL DE MÚSICA NO CENTRO DO PAÍS

Festival Internacional de Música Belkiss S. Carneiro de Mendonça
43º Festival Internacional de Música Belkiss S. Carneiro de Mendonça

O Festival mais antigo no Brasil, em edições contínuas, teve início na década de sessenta. Quando realizado o I Festival de Música, em Goiânia, promovido pelo então Conservatório Goiano de Música, depois Instituto de Artes e hoje Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás.

Desde sua primeira versão esses eventos trouxeram a Goiânia reconhecidos nomes do cenário musical brasileiro e internacional: instrumentistas, compositores, regentes e educadores musicais que deixaram sua marca na formação de nossos profissionais.

Segundo a professora Maria Helena Jayme Borges:

“O grande acontecimento de 1964 foi a realização do I Festival de Música Erudita do Estado de Goiás de 19 a 27 de setembro. Os professores, alunos e servidores do Conservatório, compreendendo o alto sentido e as vantagens pedagógicas e sociais daquele evento, não mediram esforços para realização do festival, sendo essa a primeira vez que empreenderam um trabalho de tamanho vulto”.

O I Festival trouxe para Goiânia a regente e compositora carioca Maria Luiza de Mattos Priolli (1915 – 2000), ministrando o curso de Análise e Didática do Ritmo e Som; o renomado pianista Arnaldo Estrela (1908 -1980), o curso de Didática do piano e interpretação pianística e o compositor e musicólogo alemão naturalizado brasileiro  Bruno Kieffer (1923 – 1987), ministrando os cursos de Apreciação musical, Estética e História da Música.

Arnaldo Estrela, Maria Luiza de Mattos Priolli, Bruno Kieffer

A pianista goiana Belkiss Spencieri Carneiro de Mendonça (1928-2005), estava à frente de tudo e  formou uma equipe unida, entusiasta e comprometida. Assim conseguiu fazer o que parecia impossível: realizar, em 1964, um Festival de Música no interior do Brasil.

Belkiss Spencieri Carneiro de Mendonça

Além de cursos, a primeira versão do Festival ofereceu ao público goiano recitais com a participação dos violinistas Nathan Schuwartzmann e Mariuccia Iaconino, das pianistas Belkiss, Arnaldo Estrela e Heloisa Barra, da Mezzo Soprano Honorina Barra, do flautista Lenir Siqueira, do oboísta Paulo Nardhi, do clarinetista José Botelho, do trompista Jairo Ribeiro, do fagotista Noel Devos e ainda contou a presença Maestro Isaac Karabtchewsky regendo o Madrigal Renascentista.

Nathan Schuwartzmann e Mariuccia Iaconino, Belkiss S. Carneiro de Mendonça, Irmãs Barra, Maestro Isaac Karabtchewsky

“Festivais deveriam haver cinco por ano, por sua organização e boa direção. Quanto à plateia, não poderia ser melhor, composta quase que exclusivamente de jovens de grande interesse musical”. Cussy de Almeida (1936 – 2010)

Muitos foram os importantes músicos que passaram pelos 42 festivais em Goiânia. Tradicionalmente os Festivais da Escola de Música trazem para cidade reconhecidos nomes do cenário musical brasileiro e internacional. O 43º Festival Internacional de Música Belkiss S. Carneiro de Mendonça (formato online), além de cursos, mesas redondas, máster classes de instrumentos/canto, música popular, musicoterapia e educação musical, oferecerá recitais online tanto relembrando antigos festivais quanto Concerto com transmissão ao vivo através do canal o Youtube da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG entre os dias 18 e 21 de novembro próximo.

Festivais em Goiânia EMAC/UFG

Relembrando um dos músicos presente no histórico Primeiro Festival de Música de Goiânia, ouviremos Arnaldo Estrela,  interpretando a Lenda do Caboclo de Heitor Villa-Lobos(1887 – 1959).

Heitor villa-Lobos

Observe a interpretação precisa e brilhante do pianista Arnaldo Estrela.

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BADEN POWELL

“Chopin se esqueceu de fazer esta”

Baden Powell (1937-2000)

Há vinte anos morria um dos maiores violonistas de todos os tempos e um dos compositores mais expressivos da Música Popular Brasileira, Baden Powell (1937-2000).

Baden é criador de um estilo próprio, considerado pela crítica como um divisor de águas na MPB por fundir vários elementos da sonoridade africana ao samba. Segundo Powell:

“Quando crio não toco nada e quando toco, paro de criar. O criador e o intérprete são pessoas diferentes”.


Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro

Nascido Baden Powell de Aquino – uma homenagem do pai ao general britânico criador do escotismo  Robert Stephenson Smyth Baden-Powell (1857-1941) – formou-se na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro, mas iniciou seus estudos musicais com seu pai, passando posteriormente a integrar a classe do professor Jayme Florence (1909-1982), o Meira, grande violonista.

Professor Jayme Florence (1909 – 1982)
Meira

Aos dez anos de idade, incentivado por seu mestre, se apresentou pela primeira vez no famoso programa de calouros da Rádio Nacional “Papel Carbono”, tocando “Magoado”, de Dilermando Reis. Também por influência do professor Meira, conheceu os principais músicos de samba e choro da época, entre eles Donga, Ismael Silva e Pixinguinha.

Donga, Ismael Silva e Pixinguinha

Na adolescência, Baden apresentou-se em bailes, casas noturnas e programas de rádio no Rio de Janeiro, tornando-se um dos músicos mais requisitados em bandas e rodas de choro pela cidade.

 Grande parceiro de Vinicius de Moraes (1913-1980), juntos, compuseram dezenas de músicas, entre as quais, os aclamados “afro-sambas”.

Vinicius de Moraes e Baden Powell

Uma das obras mais famosas da dupla Baden e Vinicius “Samba em Prelúdio”, causou discussões entre a dupla. Segundo Baden, Vinicius achava que o violonista havia plagiado o compositor polonês Frédéric Chopin (1810 -1849), depois de ter certeza que a obra era realmente de Baden, Vinicius conseguiu, de uma vez, compor a letra. E disse: “Chopin se esqueceu de fazer esta”.

Frédéric Chopin (1810 -1849)

Talvez Baden tenha se inspirado inconscientemente em Chopin. Bebeu desta rica fonte de inspiração e compôs obras incríveis, fazendo total diferença no rico repertório da Música Popular Brasileira. 

Baden e Vinicius

Ouviremos Baden Powel l interpretando Samba em Prelúdio na versão de seu primeiro disco gravado na Europa “Le Monde Musical de Baden Powell”.   Produzido na França pelo selo Barclay, o disco apresenta Baden ao violão; Alphonse Masselier no baixo; Arthur Motta na bateria; Paul Mauriat e sua orquestra; vocal da incrível Françoise Waleh.

Le Monde Musical de Baden Powell”

Observe o violão diferenciado de Baden Powell. Não é por acaso que ele é considerado um dos maiores violonistas de todos os tempos.

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FRANZ LISZT

“um fenômeno da técnica pianística”

Franz Liszt (1811-1886)

Considerado um dos maiores pianistas de todos os tempos, Franz Liszt (1811-1886) nasceu na região da atual Hungria, no dia 22 de outubro de 1811. Iniciou seus estudos musicais com o pai Adam Liszt, que tocava violino e cantava na igreja.   

Adam Liszt – pai de Franz Liszt

 Devido ao seu  rápido progresso e  demonstração de enorme talento, a família Liszt  vai morar em Viena, onde Franz  estuda piano com o  renomado professor  Carl  Czerny (1791 – 1857),  e teoria musical com o famoso rival de W. A.  Mozart (1756 – 1791), o mestre capela  Antônio Salieri (1750 – 1825)

Carl  Czerny e Antonio Salieri

Nos primeiros anos de estudo já se apresenta brilhantemente sendo apontado pelos  jornais da época como um fenômeno da técnica pianística.  Franz Liszt foi um dos mais proeminentes representantes “Neudeutsche Schule” (Nova Escola Alemã). Deixou obras que tanto influenciaram seus contemporâneos quanto anteciparam algumas ideias e tendências do século 20.

Frazn Liszt

A partir de 1830, ainda na França, estabelece sólida amizade com o pianista polonês Frédéric Chopin (1810 – 1849) e com o violinista italiano   Niccolò Paganini (1782 – 1840). Músicos que influenciaram suas obras para piano.

Chopin, Liszt e Paganini

Liszt era muito popular, seus concertos arrebatavam grandes plateias, muitos admiradores e amores.  A “Lisztomania” dominava a Europa, e a carga emocional dos concertos de Liszt causavam a muitos ouvintes reações descritas como histéricas, lembrando os concertos de música POP da atualidade.

Liszt viveu vários e conturbados casos amorosos, talvez, uma destas paixões, o tenha inspirado compor uma de suas mais românticas obras, a popular  Liebesträume n.º 3, conhecida como “Sonho de Amor”, que  faz parte do repertório de grandes pianistas do passado e da atualidade.

“Sonhos de Amor” é um compêndio de três peças para piano publicado em 1850. Liszt tinha profunda conexão com a literatura, e, a princípio, as três Liebesträume (sonhos de amor) foram concebidas a partir de poemas de Ludwig Uhland (1787 – 1862) e Ferdinand Freiligrath(1810 – 1876).  Em 1850, duas versões apareceram simultaneamente como um conjunto de canções para soprano e piano, com transcrição para piano solo. Os dois poemas de Uhland e o de Freiligrath descrevem três diferentes formas de AMOR. 

Ludwig Uhland (1787 – 1862) e Ferdinand Freiligrath(1810 – 1876).

O poema de Freiligrath para o terceiro famoso “noturno” fala de um amor incondicional e maduro:

“Ame enquanto puder! A hora virá quando estiver junto ao túmulo e aos prantos”Freiligrath

Ouviremos Sonho de Amor interpretado pelo pianista chileno Claudio Arrau (1903 – 1991).

Observe o tema que sempre se repete, e, desfrute desta bela interpretação.

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