CASAMENTOS NO MÊS DE MAIO

e a curiosa história da “Marcha Nupcial” de Carlos Gomes

Foto oficial da família real britânica, depois do casamento de Harry e Meghan Markle , em 19 de maio de 2018
Foto: Reprodução

Maio é conhecido como o “mês das noivas” existindo algumas possibilidades para essa escolha.

Entre as possíveis explicações estão: ser essa a época das flores no hemisfério norte; a ligação com a consagração de Maria, mãe de Jesus; e forte influência do Dia das Mães em alguns países incluído o Brasil.

 Dessa forma, o mês, é um dos preferidos, pelos casais, para a celebração de casamento.

Dentre as tantas preocupações com a cerimonia, à escolha da música para a entrada triunfal é fundamental. As Marchas Nupciais são as mais utilizadas dentre as escolhas de noivos.

As marchas nupciais mais conhecidas e tocadas em casamentos até os dias de hoje, são as dos compositores alemães Wilhelm Richard Wagner (1813 – 1883) e Felix Mendelssohn (1809 – 1847). 

A Marcha Nupcial de Richard Wagner foi composta em 1850 para a Ópera Lohengrin. Escrita para Coral e Orquestra, é conhecida também como “Coro Nupcial” e é uma parte do terceiro ato da referida Ópera.

Wilhelm Richard Wagner (1813 – 1883)

Já a Marcha Nupcial de Felix Mendelssohn foi composta em 1842 para musicar a peça de teatro de Shakespeare – Sonho de Uma Noite de Verão. Originalmente a peça é instrumental,  tendo sido apresentada em casamentos na versão com coro e orquestra.

Felix Mendelssohn (1809 – 1847)

As afamadas Marchas de Wagner e Mendelssohn começaram a ser difundidas e utilizadas em casamentos a partir do casamento real de Vitoria e Frederico, realizado na Capela Real do Palácio de St. James em Londres em 25 de janeiro de 1858, no qual eles utilizaram as duas marchas nupciais.

Cerimônia de casamento da Princesa Vitória– Capela Real do Palácio de St. James em Londres em 25 de janeiro de 1858

A Princesa Vitória escolheu a Marcha Nupcial de Wagner, que já havia sido tocada em um casamento real em 1842 para sua entrada na igreja e a Marcha Nupcial de Mendelssohn, tocada pela primeira vez em um casamento, para a saída do casal real.

A verdade é que a moda pegou. E mesmo depois de tantos anos, essas ainda são as Marchar Nupciais mais tocadas em casamentos até os dias de hoje, inclusive em casamentos no Brasil.

 Existe, no entanto, uma história curiosa por traz de uma Marcha Nupcial composta pelo brasileiro Antônio Carlos Gomes (1836-1896).

Antônio Carlos Gomes (1836-1896)

Carlos Gomes passou para história como grande operista: a ópera Il Guarany, escrita na língua italiana e baseada no romance homônimo do brasileiro José de Alencar (1829 – 1877) teve muito sucesso já em sua estreia, no famoso Teatro Scala de Milão, tornando-se, assim, o primeiro compositor brasileiro a alcançar sucesso na Europa, como destaca o musicólogo Bruno Kiefer:

“Numa época em que ainda se media a grandeza de uma nação pelos feitos de seus pensadores, cientistas, inventores, artistas e escritores, o êxito de Carlos Gomes era muito mais do que um sucesso individual: era a exaltação de um país recém-emancipado, preocupado em desenvolver as suas próprias potencialidades, em se afirmar perante as demais nações”. (KIEFER 1977, p. 83)

Mas a obra de Carlos Gomes vai muito além da famosa ópera. Dentre muitas peças significativas, ele deixou uma Marcha Nupcial para piano a quatro mãos.

Dedicatória na versão original da Marcha Nupcial de Carlos Gomes Acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro
Pasta M7862 –  G I 2

Composta no Rio de Janeiro em fevereiro de 1896, o ano de sua morte, a Marcha Nupcial, apresenta uma dedicatória assinada de próprio punho:

“Expressamente escrypta para solemnisar o feliz consórcio de d. Maria Dolores de Albuquerque Mello por Carlos Gomes. Rio de Janeiro”.

Segundo o historiador Vicente Salles, a Marcha Nupcial, foi escrita por encomenda do jornalista paraense Dr. Miguel Lúcio de Albuquerque Melo, amigo de Carlos Gomes, para o casamento de sua filha – certamente um dos últimos trabalhos do compositor. A peça não consta de seus catálogos conhecidos e foi editado por iniciativa do próprio Sr. Miguel Lúcio, como foi noticiado na imprensa na ocasião:

“O Paizdiz que a brilhante peça musical foi ‘primorosamente executada no dia do casamento da distintíssima senhora a quem era oferecida e distribuída aos convidados em rica edição expressamente feita pela família da noiva’”.

Além dessa inusitada edição, também existe uma partitura da Marcha Nupcial de Carlos Gomes editada pela Buschmann & Guimarães, e um dos exemplares encontra-se nos arquivos da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, disponível para algum casal que queira inovar na tradição e experimentar uma marcha nupcial brasileira.

Ouviremos a Marcha Nupcial de Carlos Gomes para piano a quatro mãos interpretada pelo DUO MALTESE, mãe e filha: Ida Baianconi Maltese e Sylvia Maltese Moysés.

Observe como essa Marcha Nupcial é bem construída musicalmente, no entanto, permanece esquecida nas prateleiras da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

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DIA DO CHORO

uma homenagem à data de nascimento de Pixinguinha

DIA NACIONAL DO CHORO
Foto: Reprodução

Desde o ano 2000 esse estilo musical passou a ser celebrado em 23 de abril. Isso porque se acreditava que seria a data de aniversário do Compositor emblemático da música popular brasileira, Alfredo da Rocha Vianna Filho, mais conhecido como Pixinguinha (1897-1973), um dos precursores do choro.

Pesquisas recentes comprovaram que Pixinguinha nasceu em quatro de maio, a data comemorativa, no entanto, continua sendo 23 de abril.

 Há intensos debates sobre a natureza e a origem do choro. Alguns estudiosos do assunto discutem se o choro seria apenas um estilo de tocar ou um gênero musical próprio.

Chorinho – Candido Portinari, 1942

O pesquisador Alexandre Pinto, autor do livro Choro – Reminiscências dos Chorões Antigos:

“considera o choro uma forma de tocar diferentes gêneros musicais, inclusive de outros países”.

Já para outros pesquisadores, o choro é o primeiro estilo de música urbana do país, criado ainda no século 19.

O choro, ou chorinho, como é conhecido, é marcado por renomados nomes na história da música do Brasil, como: Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935),  Antônio Calado (1848 – 1880),  Anacleto de Medeiros(1866 – 1907), Jacob do Bandolim(1847 – 1935), Pixinguinha dentre outros.

Pixinguinha
por Amarildo –  chargista e editor de ilustração do Jornal Gazeta de Vitória

Porem, o compositor que carrega a homenagem do dia nacional do choro é Pixinguinha.

 “Pixinguinha” foi resultado do apelido colocado por sua avó Edwiges, africana de nascimento e derivado do dialeto natal: “Pizindin” que quer dizer, menino bomque depois virou Pixinguinha.

As primeiras lições de flauta foram dadas pelo pai, Alfredo da Rocha Vianna, Aos oito anos quando a família foi morar em um casarão, na Rua Vista Alegre, logo apelidado de “Pensão Viana”, pois estava sempre cheio de gente.

Com 12 anos Pixinguinha já dominava os conhecimentos de teoria musical. Nessa época, tocava flauta, cavaquinho e bandolim, mas sonhava com uma clarineta de sons agudos.

Na década de 40, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone e se interessou pelo jazz. Tornou-se amigo de Louis Armstrong sem deixar de ser o senhor absoluto das rodas de choro.

Pixinguinha e Louis Armstrong 

Pixinguinha, que não foi só “chorão” teve uma movimentada e eclética carreira musical.  Em 1962, teve como parceiro Vinicius de Moraes na trilha sonora do filme “Sol Sobre a Lama”. 

Pixinguinha e Vinicius de Moraes

Segundo o Jornalista Lúcio Rangel:

“Em todas as suas manifestações de arte, Pixinguinha revela-se admirável, o que nos leva a afirmar, com toda a serenidade, estamos diante do maior músico popular que já tivemos em todas as épocas”.

Lamentavelmente, em 1964, sofreu um infarto. Curiosamente, enquanto esteve internado compôs vinte músicas, uma por dia, entre elas, as valsas: Solidão, Mais Quinze dias e No Elevador.

Pixinguinha disse:

“Hoje só quero saber de sossego e de viver em paz com todo mundo. Tenho medo que a morte me apanhe de surpresa

Pixinguinha

Pixinguinha faleceu no Rio de Janeiro, no dia 17 de fevereiro de 1973, mas sua obra o mantem vivo.

O autor da música “Carinhoso”, em parceria com João de Barro, considerada nosso  “segundo hino nacional”, é uma das canções mais lembradas pelos brasileiros.

Escrita por volta de 1917, segundo Pixinguinha“Carinhoso era uma polca lenta. Naquele tempo, tudo era polca. O andamento era esse de hoje. Por isso, eu chamei de polca-lenta ou polca vagarosa. Depois, passei a chamar de choro”.

Ouviremos “carinhoso”  interpretado pelo violonista Yamandú Costa (1980) em gravação de 2013. No vídeo o publico é quem canta o “segundo hino brasileiro”.

Observe a sintonia entre estrutura musical e narrativa poética. Não foi ao acaso a escolha de Pixinguinha como o representante da data comemorativa do dia Nacional do Choro.

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Czesława Kwoka  inspirou Paulo Guicheney

os horrores da guerra retratados em uma obra para piano 
Czesława Kwoka
fotografia de Wilhelm Brasse (1917 – 2012), originalmente em preto e branco colorida pela fotógrafa brasileira
Marina Amaral (1994)

As guerras são sempre um absurdo, e, estamos assistindo,  perplexos,  a mais uma batalha entre nações em pleno  2022.

A segunda guerra mundial deixou sequelas no planeta. O holocausto foi, sem dúvida, uma ferida incurável.

 O documentário “The Portraitist”, 2005  – (O Retratista) sobre o fotógrafo, Wilhelm Brasse (1917 – 2012), prisioneiro de Auschwitz cujas fotografias do interior do campo de concentração nazista forneceram um registro histórico dos horrores cometidos no local,  conta a história de três fotografias de uma menina de 14 anos, polonesa católica,  que foi assassinada, e  inspirou uma obra para piano do compositor goiano Paulo Guicheney (1975).

“The Portraitist”, 2005  

O fotógrafo Brasse foi enviado ao campo de concentração de Auschwitz  depois de ser pego em 1940 tentando fugir da Polônia ocupada pelos nazistas para se unir aos militares poloneses no exílio.

Quando seus carcereiros descobriram que ele era um fotógrafo experiente, determinaram que tirasse fotos dos prisioneiros para os arquivos internos da prisão e para registrar as visitas dos oficiais alemães do alto escalão para a posteridade, também recebendo ordens de fotografar experiências médicas do campo nos presos.

Os nazistas mataram 1,5 milhão de pessoas em Auschwitz. Entre os poucos registros fotográficos do campo da morte, as fotos de Brasse foram recuperadas dos arquivos nazistas no fim da Segunda Guerra Mundial e agora estão expostas no Museu de Auschwitz.

Czesława Kwoka – fotografia de Wilhelm Brasse (1917 – 2012) – expostas no Museu de Auschwitz

Em 2005, o diretor polonês Irek Dobrowolski (1964) lançou o documentário sobre a vida de Brasse, “Portrecista” , o qual inspirou Guicheney.

Paulo Guicheney  compõe para várias formações instrumentais. Sua obra vai muito além das fronteiras de Goiás, e tem sido executada  em diferentes países como Argentina, Brasil, Canadá, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, México e Uruguai.

Paulo Guicheney (1975) , fotografado por Karol Rufino

Atualmente Guicheney está cursando o Doutorado em Musicologia na Universidade Nova de Lisboa em Portugal. Paulo é professor efetivo de composição da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, além de escritor e autor do livro “Tempo de atirar pedras e dançar” (Martelo Casa Editorial).

Paulo conta que ao assistir o documentário do Retratista ficou muito impressionado com as imagens e com o fato de que quase nada restou da história da pequena Czesława Kwoka: Tanto ela quanto a sua breve trajetória se tornaram cinzas. Guicheney resgata essa história através de sua composição.

Curiosamente, o compositor recebeu uma encomenda do pianista brasileiro Jonathan de Oliveira (patrocinada pelo Centro MidAmerican para Música Contemporânea da Faculdade de Artes Musicais da Bowling Green State University) pouco tempo após assistir ao documentário, para compor uma obra para piano.

A princípio, ao compor a obra encomendada e que homenageia a triste história da menina polonesa, Guicheney  escreveu um poema para que fosse lido em uma das seções da peça, o nome da composição é um dos versos desse texto: “In this light without air” (Nesta luz sem ar).

Daughter

sister

mother

in this light without air

without your eyes

you breathe

no more

and while the Eternal sleeps

the sun is devoured by

black lungs.

p. guicheney

Modelo recorrente nas obras de Guicheney é o uso de taças como instrumento de percussão. Na última parte dessa obra, ele utilizou 5 taças de cristal. Segundo o compositor, a qualidade sonora deste momento se assemelha a sinos:

“não sei dizer se há algo programático nisto, talvez haja, talvez não”.

Paulo Guicheney (1975) — fotografado por Guilherme Bicalho

Guicheney também conta que apesar da simplicidade da peça, levou muito tempo para escrevê-la. Modificou várias vezes algumas seções e acabou abandonando várias ideias.

“A primeira versão tinha uma parte eletrônica que compus e abandonei. Não sei a razão para esta dificuldade, em geral eu escolho uma ideia e vou até o fim sem grandes titubeios”.

Parte do Manuscrito da obra de Paulo Guicheney

Ouviremos a peça para piano de Paulo Guicheney  – “In This Light Without Air” – Elegy for Czesława Kwoka (2021), apresentada em primeira audição pelo pianista Jonathan de Oliveira, no auditório da Faculdade de Artes Musicais da Bowling Green State University em Agosto de 2021.

Observe como a peça é clara e calma. Segundo o compositor :

“(…) tudo nela é cristalino, sem nenhum tipo de “violência”, de arrombo. Minha ideia foi a de fazer algo como um acalanto, uma elegia em forma de acalanto”.

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CRIANAÇAS PRODÍGIO NO ESPORTE E NA MÚSICA

paciência e a família em primeiro lugar

Will Smith, Jada Pinkett Smith  Ee Chris Rock

Nos últimos dias as atenções se voltaram para o Oscar,  e,  mais do que os ganhadores de cada categoria da maior premiação do cinema mundial, a cerimônia ficou marcada por outra razão: o tapa de Will Smith em Chris Rock após uma “brincadeira” de péssimo gosto.

Mas afinal, Will Smith, como no filme que protagonizou e venceu o Oscar de melhor ator, queria mesmo era proteger a família? Uma violência justifica a outra? Será justo Will Smith ficar 10 anos fora do Osacar?

 Em tempos onde a violência está em evidência, deixaremos as polêmicas à parte –  O filme –  King Richard: Criando Campeãs (2021), nos faz refletir sobre crianças geniais e a participação da família na defesa da integridade  e do desenvolvimento dessas crianças.

A Família Williams – “King Richard: Criando Campeãs”

Baseado em uma história real, o filme –  “King Richard: Criando Campeãs”, conta a jornada ao estrelato das afamadas tenistas Venus e Serena Williams.

No filme, embora os excessos e excentricidades de Richard, o pai das tenistas,  sejam destacados, ao final, garante-se que foi para o melhor. Caso a defesa do personagem não tenha ficado clara, os letreiros de conclusão garantem: 

“Richard seguiu colocando a paciência e a família em primeiro lugar”.

Como no esporte conhecemos outros casos semelhantes e verídicos na história da música.

O pai dos irmãos MozartLeopold  Mozart (1719-1787) quando percebeu a genialidade de Maria Anna Mozart (1751-1829) e   Amadeus Mozart (1756-1791) tratou de cuidar da carreira deles, levando as crianças em viagem  afim de exibir a genialidade dos pequenos para reis, príncipes, e outros membros da nobreza e do clero.  Leopold  Mozart é o pai de um dos compositores mais famosos da história da música ocidental – Wolfgang Amadeus Mozart.

Leopold, Amadeus e Maria Anna Mozart
Aquarela de Louis Carrogis der Carmontelle, 1763

Pai de Clara Schumann ( 1819 – 1896), Friedrich Wieck (1785 – 1873) foi um fiel defensor da filha.  Quando Clara tinha 4 anos, os pais se divorciaram, e posteriormente Friedrich ganhou a custódia da menina. Aos 5, Clara começou a ter lições de piano mediante a disciplina rígida do pai. A partir dos 13 anos desenvolveu uma brilhante carreira pianística, apresentando-se em vários palcos pela Europa.  Clara Josephine Wieck  Schumann foi  uma das poucas crianças prodígio a se manter famosa e reconhecida como virtuose do piano por toda a vida.

Clara Wieck, por Eduard Clemens Fechner, 1832

No Brasil, um exemplo de cuidado e esmero na educação dos filhos músicos, é do pai dos irmãos Martins, José Eduardo  e João Carlos, renomados pianistas.

José Eduardo  e João Carlos Martins
(acervo da família Martins)

José da Silva Martins (1898 – 2000)  pai dos pianistas José Eduardo, João Carlos Martins , do economista José Paulo Gandra da Silva Martins e do advogado Ives Gandra da Silva Martins,  foi dedicado, cuidadoso e rígido. José Martins fazia questão de repetir que seu método de educação criou quatro homens que se destacaram culturalmente.

Família Gandra da Silva Martins (acervo da família Martins)

Segundo relata um dos filhos, o pianista José Eduardo Martins:

“Meu pai foi um sábio. Uma figura humana que deixou saudades pelos exemplos de vida e dedicação à família. Criou os quatro filhos adolescentes, Ives, José Paulo, J.E. e João Carlos, numa disciplina espartana, era confiada uma resenha de capítulo de grande autor da língua portuguesa para que fizéssemos o resumo em uma  página pequena apenas, diariamente. Corrigia-a, orientava-nos quanto ao estilo e atribuía notas. Dizia o velho pai que o espírito de síntese é um dos maiores atributos do homem. Ao final de cada mês sua apreciação resultava em bônus que nós quatro convertemos em livros de nossa escolha. No último sábado do mês íamos até as livrarias do centro, Francisco Alves e Saraiva, ávidos para concretizar preferências. Seus milhares de LPs nos ajudaram na formação do gosto, a reconhecer estilos, a apreciar e distinguir interpretações. Os quatro filhos à noite ouvíamos um LP sem conhecer a capa do disco e tínhamos de descobrir o autor e obra. Inestimável contribuição à nossa formação cultural”.

A dedicação e a defesa da família foi  exitosa. Os filhos de José da Silva Martins são realmente pessoas de renome e destaque. José Paulo é um empresário de sucesso;  Ives Gandra é jurista, advogado, professor e escritor de grande relevância; José Eduardo, professor titular aposentado da Universidade de São Paulo, desenvolve brilhante carreira como pianista e pesquisador;  João Carlos é um pianista  reconhecido mundialmente.

Os filhos geniais de Richard Williams, Leopold Mozart, Friedrich Wieck e José da Silva Martins conseguiram atingir o sucesso almejado pelos pais. Valeu a pena? A defesa  e o cuidado rígido é primordial?

Cada um com a sua verdade, podemos refletir e ouvir os irmãos Martins –  pianistas brasileiros, educados por um pai dedicado  que conseguiram atingir sucesso em suas carreiras profissionais.

Ouviremos os irmãos João Carlos e José Eduardo Martins   interpretando Concerto para Dois Pianos e Orquestra em Dó Maior de J. S. Bach (1685 – 1750)

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“A VIDA INVISÍVEL”

um filme que nos convida a refletir sobre o papel das mulheres no mundo
Eurídice (Carol Duarte) no Filme “A VIDA INVÍSIVEL”

No mês das mulheres revisitaremos um tema já abordado em postagens anteriores – mulheres silenciadas na música.

Um exemplo claro de resistência foi a musicista carioca Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935). Chiquinha contrariou as normas vigentes, separou-se do marido, e, conseguiu, contra tudo e todos, impor-se ao realizar sua música fora da vida doméstica, tornando-se a primeira maestra a reger uma orquestra no Brasil.

Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935)

 Escolhemos um tema que trata da cruel invisibilidade de mulheres – o filme “A Vida Invisível” é uma coprodução Brasil/Alemanha, com adaptação do romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, da escritora pernambucana, Martha Batalha. O livro e o filme expõem o machismo estrutural e sua interferência na vida feminina.

Capa do Livro de Martha Batalha

O longa é uma história dramática e verossímil  enquanto possiblidade, com direção de Karim Aïnouz, produzido por Rodrigo Teixeira,  assistência de Nina Kopko e pesquisa de Suzane Jardim.

Julia Stockler; Karim Aïnouz e Carol Duarte

No filme as irmãs Eurídice e Guida, personagens centrais da trama,  são protagonizadas pelas atrizes Carol Duarte e Julia Stockle. O longa conta ainda  em seu elenco com a participação de Gregório Duvivier, António Fonseca, Flávia Gusmão,  Nikolas Antunes e a  participação especial do ícone das artes cênicas: Fernanda Montenegro.

“A VIDA INVÍSIVEL”

A história é passada no Rio de Janeiro de 1950, em época posterior a vivida por Chiquinha Gonzaga. Na narrativa Eurídice (Carol Duarte/Fernanda Montenegro) e Guida (Julia Stockler) são duas irmãs inseparáveis que moram com os pais em um lar conservador. Ambas têm um sonho: Eurídice o de se tornar uma pianista profissional e Guida de viver uma grande história de amor.

Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler)

Infelizmente, apesar de retratar o passado, é fácil enxergar acontecimentos semelhantes ainda na atualidade. Aliás, muito do que se chama a atenção no filme é sua capacidade de retratar a realidade de mulheres com vozes e vontades silenciadas.

Para quem ama música, Eurídice, uma das irmãs que sonha em ser pianista, faz prova de piano no histórico Salão Leopoldo Miguez da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e, no decorrer do filme pode-se desfrutar da  trilha sonora assinada pelo alemão  Benedikt  Schiefer (1978) e ainda ouvir trechos de obras de J. S. Bach (1685 – 1750); Franz  Schubert (1797 – 1828); Frédéric Chopin (1810 – 1849);  Franz Liszt (1811 – 1886); Edvard Grieg (1843 – 1907); até  Fados interpretados pela  portuguesa Amália Rodrigues (1920 – 1999).

Trilha Sonora – – Benedikt  Schiefer (1978)

Vale a pena ver o filme que teve sua estreia mundial em de maio de 2019 em Cannes, sendo um dos premiados do Festival. Ao assistir esse  longa,  o expectador irá ver um trabalho excepcional de fotografia, direção de arte, som, montagem e uma trilha sonora exuberante.

Trilha Sonora – – Benedikt  Schiefer (1978) –

Como a música é nosso principal objetivo, ouviremos uma das obras apresentadas em trechos de  “Vidas Invisíveis”  –  De Frédéric Chopin (1810 – 1849);   Estudo Op 10  No.9  interpretado pela pianista ucraniana Valentina Lisitsa (1973).

 Observe a densidade de uma obra composta pelo polonês Chopin ainda na adolescência. Esse estudo faz parte dos 12 estudos pertencentes ao Op. 10. Os Estudos de Chopin não apenas apresentavam um conjunto inteiramente novo de desafios técnicos, mas foram os primeiros a se tornarem parte regular do repertório de concertos

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BRINCADEIRA

Claudio Santoro (1919 – 1989)

Claudio Santoro (1919 – 1989), talentoso violinista, saiu de sua terra natal, Manaus, em 1937, para  aperfeiçoar seus estudos no Rio de Janeiro, produzindo lá suas primeiras obras.

Claudio Santoro (1919 – 1989)

Santoro fez parte do afamado Grupo Música Viva, juntamente com os jovens compositores de então: Edino Krieger (1928), Guerra Peixe (1914 – 1993) e Eunice Katunda (1915 – 1990).

Nesta época estudou com Hans-Joachim Koellreuter (1915 – 2005), dirigente do Grupo Música Viva, cujos ensinamentos favoráveis ao dodecafonismo, influenciaram fortemente seu pensamento musical.

Grupo Música Viva
Edino Krieger (1928), Guerra Peixe (1914 – 1993), Eunice Katunda (1915 – 1990)

Na década de 40, Santoro foi para a França e estudou composição com Nádia Boulanger (1887 – 1979). Da convivência com a mestra e com o ambiente político parisiense, ocorre uma transformação estética em sua criação. Santoro passa da música rigorosamente abstrata para uma linha mais lírica e expressiva, procurando criar uma obra mais comunicativa.

Nádia Boulanger (1887 – 1979)

Por outro lado, as amizades que fez na França acabam por levá-lo para Varsóvia e Praga, então países socialistas, onde, no Congresso dos Compositores Progressistas, Santoro participa como delegado brasileiro. Neste congresso assiste à condenação da música dodecafônica como burguesa e decadente. Esse fato também viria a pesar na mudança do pensamento estético do compositor Claudio Santoro.

Na volta ao Brasil, passa por um amargo período de ostracismo, dificuldades financeiras e indecisões, retirando-se do ambiente musical.

Após dois anos, volta ao Rio de Janeiro para trabalhar na Rádio Tupi, elaborando um Programa Infantil. Esse trabalho  provavelmente o influencia na composição de Brincadeira para piano a quatro mãos.

Estúdio da Rádio Tupi (1937)

Brincadeira a quatro mãos é uma obra para jovens pianistas, constituída de três pequenos movimentos. O 1º movimento, Andante, com caráter de marcha, tem na sua confecção aspectos de desenvolvimento que lembram a forma da sonata. O 2º movimento, Lento, apresenta uma cantilena em forma de canção. O 3º movimento, Allegro vivo, com forma de dança, contem alusões à temática infantil, como as canções de roda.

 A obra, única de Santoro para essa formação, pode ser considerada neoclássica, composta num tonalismo livre e com uso frequente de bipolaridade em seus eixos tonais.

Brincadeira foi dedicada à sua esposa e filho. Assim descrito na obra: para Giselinha e Alessandro, composta em Teresópolis, no Rio de Janeiro,  em 1962.

Gisèle Santoro

Ouviremos a obra Brincadeira para quatro mãos interpretada pela Professora Denise Zorzetti e pela autora desse texto, em gravação de 2004 como parte integrante da Dissertação de Mestrado –  Momentos Brasileiros para Piano a Quatro Mãos.

Observe! Brincadeira revela em seu título, linha melódica e características rítmicas alusões ao universo infantil.

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100 ANOS 1922 – 2022

A Música na Semana de Arte Moderna
Semana de Arte Moderna 1922

Pautada em “redescobrir” o Brasil, enaltecendo o nacionalismo com uma proposta de atualizar a intelectualidade brasileira e muni-la de uma consciência nacional, um grupo de jovens artistas, propôs a rejeição ao conservadorismo vigente na produção literária, musical e visual.

Há 100 anos, a Semana de Arte Moderna, inserida nas festividades em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil em 1922 – ocorreu entre os dias 13 e 17 de fevereiro, tendo como cenário, o Theatro Municipal de São Paulo.

Theatro Municipal de São Paulo

A efervescência cultural pregada pelos intelectuais paulistanos, daquela época, encontra respaldo e consistência, nas reuniões que aconteciam na casa do mecenas  Paulo Prado (1869-1943)  e daí se origina a ideia de realizar a Semana de Arte Moderna, tendo como modelo a “Semaine de Fêtes de Deauville”,  França.

EMILIANO DI CAVALCANTI – RETRATO DE PAULO DA SILVA PRADO (1869-1943). DÉCADA DE 20 OST ASSINADO CANTO INFERIOR DIREITO. 64 X 52 CM

Apesar de enaltecer a brasilidade, foram as vanguardas europeias que influenciaram diretamente os artistas envolvidos na Semana de 22 e que trouxeram para a arte brasileira um forte desejo de renovação.

 O projeto torna-se realidade através do prestigio de Paulo Prado na sociedade paulistana, conseguindo o patrocínio de barões do café para o aluguel do teatro e a realização do evento.

Outro nome importante trazido para o movimento através de Paulo Prado foi Graça Aranha (1868 – 1931).   Recém-chegado da Europa, como romancista aclamado, deu peso e seriedade às reivindicações dos jovens pertencentes ao grupo modernista.

Graça Aranha (1868 – 1931)

“Polêmica, confusa, barulhenta”, tida como “demasiado festiva” e “pouco moderna”, não se pode negar que a Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco, um divisor de águas no panorama artístico brasileiro.

A Semana fez o papel divulgador da arte moderna, não só em 1922, mas também, abriu as portas para um discurso modernista que conseguiu, depois de 22, cultivar terreno para a consolidação de uma revolução artística e literária que influenciou a estética nos anos seguintes.

Um século depois, o mito da Semana de 1922, por muitos anos enaltecidos por setores da intelectualidade brasileira, é objeto de novas abordagens, que revisitam o movimento e a sua produção artística com suas contribuições e contradições.

Sem um programa estético definido, a Semana, que na realidade foram três dias de espetáculo. Tiveram em seus principais articuladores ideológicos, Mário e Oswald de Andrade, o clamar pela liberdade de expressão e pelo fim de regras na arte.

Mario de Andrade (1893-1945) retratado por Lasar Segall e Oswald de Andrade (1890-1954)  retratado por Tarsila do Amaral

No tocante a música, a Semana não a priorizou. O compositor Villa-Lobos (1887 – 1959) apresentou obras relevantes, mas, que já haviam sido compostas antes das manifestações de 22. 

Heitor Villa-Lobos (1887 – 1959)

O compositor, pianista e maestro Ermani Braga (1888 – 1948) fez uma crítica a Chopin (1810 – 1849) ‘A Emoção Estética na Arte Moderna’ – o que levaria a pianista Guiomar Novaes (1894 – 1979) a protestar publicamente contra os organizadores da semana, mesmo tendo participado do evento como a grande pianista que já era.

Ermani Braga (1888 – 1948)

Estudos mais recentes questionam o silenciar de grandes compositores brasileiros que não se utilizaram da “brasilidade” e tiveram suas obras ligadas a tradição europeia pela Semana de Arte Moderna.

Em entrevista recente para a revista IHU On-Line, comenta o Professor/Historiador Frederico Oliveira Coelho:

“A grande contribuição ‘moderna’ para nossa música veio de outro universo não incorporado pelos escritores e artistas plásticos modernistas de São Paulo. Veio da música popular urbana, que tornou-se até hoje um legado para os músicos de todas as gerações”.

 O momento é de celebrar os 100 anos da Semana de Arte Moderna. Um marco na história da arte brasileira com suas contradições, erros e acertos. É hora de refletir e valorizar a arte e o artista brasileiro. Sempre!

Veja abaixo a programação completa da Semana de Arte Moderna de 1922 e ouça a grande pianista Guiomar Novaes interpretando “O ginete do Pierrozinho” do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos. Essa obra foi composta (1920), dois anos antes da semana de 22, e, apresentada por Guiomar no dia 15 de fevereiro, dentro da programação da Semana de Arte Moderna.

13 de fevereiro (Segunda-feira)

ROTEIRO
1ª PARTE Conferência de Graça Aranha: “A emoção estética na arte moderna”, ilustrada com música executada por Ernani Braga e poesia de Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho.   Música de câmara: Villa-Lobos, Sonata II para violoncelo e piano (1916), com Alfredo Gomes e Lucília Villa-Lobos; Trio Segundo para violino, violoncelo e piano (1916), com Paulina d’Ambrósio, Alfredo Gomes e Fructuoso de Lima Vianna.
2ª PARTE Conferência de Ronald de Carvalho: “A pintura e a escultura moderna no Brasil”.
Solos de piano por Ernani Braga: “Valsa Mística” (1917, da Simples Coletânea); “Rodante” (da Simples Coletânea); A fiandeira. Octeto (Três danças africanas): “Farrapos” (1914, “Danças dos moços”); “Kankukus” (1915, “Danças dos velhos”); “Kankikis” (1916, “Danças dos meninos”). Violinos: Paulina d’Ambrosio, George Marinuzzi. Alto: Orlando Frederico. Violoncelos: Alfredo Gomes; baixo: Alfredo Corazza. Flauta: Pedro Vieira. Clarinete: Antão Soares. Piano: Fructuoso de Lima Vianna.
Programação da Semana de Arte Moderna de 1922 (13/02)

15 de fevereiro (Quarta-feira)

ROTEIRO
1ª PARTE Palestra de Minotti del Picchia, ilustrada com poesias e trechos de prosa por Oswald de Andrade, Luiz Aranha, Sérgio Milliet, Tácito de Almeida, Ribeiro Couto, Mário de Andrade, Plínio Salgado, Agenor Barbosa e dança pela senhorita Yvonne Daumerie.  
Solos de piano por Guiomar Novaes: Blanchet: Au jardin du vieux Sérail.Villa-Lobos: O ginete do pierrozinho.Debussy: La soirée dans Grenade.Debussy: Minstrels.
INTERVALO Palestra de Mário de Andrade de Andrade no saguão do Teatro. 2ª PARTE Conferência de Ronald de Carvalho: “A pintura e a escultura moderna no Brasil”. Palestra de Renato Almeida: “Perennis poesia”
Canto e piano por Frederico Nascimento Filho e Lucília Villa-Lobos: Festim Pagão(1919); Solidão (1920); Cascavel Quarteto terceiro (cordas, 1916). (1917); Violinos: Paulina d’Ambrosio, George Marinuzzi. Alto: Orlando Frederico. Violoncelos: Alfredo Gomes
Programação da Semana de Arte Moderna de 1922 (15/02)

17 de fevereiro (Sexta-feira)

ROTEIRO
1ª PARTE Villa-Lobos: Trio Terceiro para violino, violoncelo e piano (1918), com Paulina d’Ambrosio, Alfredo Gomes e Lucília Villa-Lobos. Canto e piano por Maria Emma e Lucília Villa-Lobos Historietas, de Ronald de Carvalho (1920): “Lune d’octobre”; “Voilà la vie”. “Jouis dans retard, car vite s’sécoule la vie”. Sonata II para violino e piano (1914), com Paulina d’Ambrosio e Fructuoso de Lima Vianna. 2ª PARTE Solos de piano por Ernani Braga: “Camponesa cantadeira” (1916, da Suíte floral); “Num berço encantado” (1919, da Simples Coletânea); Dança infernal (1920). Quarteto Simbólico (expressões da vida mundana): flauta, saxofone, celesta e harpa ou piano com vozes femininas em coro oculto (1921), com Pedro Vieira, Antão Soares, Ernani Braga e Fructuoso de Lima Vianna.
Programação da Semana de Arte Moderna de 1922 (17/02)

Observe a “brasilidade” na música de Heitor Villa-Lobos na interpretação dessa grande pianista. Segundo Villa-Lobos: (…) o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil. O Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra”.

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“A SERTANEJA”

Brasilio Itiberê da Cunha (1846 – 1913)
Brasilio Itiberê da Cunha (1846 – 1913)

“A Sertaneja”, obra para piano, publicada em 1869, composta pelo paranaense Brasilio Itiberê da Cunha (1846 – 1913), passou para a história, como uma das peças que marcaram o início do nacionalismo na música brasileira de concerto.

A obra de Itiberê da Cunha exibe trechos que remetem a influencia da escrita virtuosística do compositor húngaro Franz Liszt (1811 – 1886), e, em menor grau, do lirismo do compositor polonês Frédéric Chopin (1810 -1849).

Franz Liszt (1811 – 1886) e  Frédéric Chopin (1810 -1849).

No entanto o que tornou “A Sertaneja” uma obra conhecida foi o fato de utilizar, em sua seção central, a composiçao, Balaio Meu Bem Balaio, tema folclórico inspirado no fandango, dança popular típica de Paranaguá – PR, cidade natal do compositor.

Além de compositor, Itiberê foi diplomata de carreira, tendo servido em embaixadas brasileiras na Bélgica, Itália, Peru, Paraguai e Alemanha.

Brasilio Itiberê da Cunha (1846 – 1913)

 Dom Pedro II (1825 – 1891), imperador do Brasil, nesse período histórico, grande incentivador dos artistas brasileiros, propôs ao paranaense ingressar na carreira diplomática como uma maneira de se aperfeiçoar como compositor.

 Dom Pedro II (1825 – 1891)

Há indícios de que o alcance de outras obras “pré-nacionalistas”, não obtiveram o êxito e a popularidade de “A Sertaneja’, por concorrerem com a profissão de político viajante do compositor e ainda o fato do piano ser o instrumento de divulgação de repertório de câmara ou sinfônico por excelência.  

Há relatos históricos de que Brasilio Itiberê, no período em que esteve em Roma entre os anos de 1873 e 1882, nutriu amizade com o compositor e pianista Franz Liszt que teria tocado “A Sertaneja”.

Há também uma corrente de musicólogos que considera Brasílio Itiberê “um compositor de música ligeira”.

Em recente artigo escrito pelos musicólogos Borém e Marichi Júnior:

“(…) Um Brasílio Itiberê mais real seria lembrado como um músico engajado politicamente pela liberdade daqueles que formaram a cultura do Brasil (…) como um pianista formidável que se fez respeitado pelos colegas mais importantes na Europa e como um compositor engenhoso cujas habilidades e compromissos nacionalistas ainda não se revelaram completamente, especialmente em obras compostas após A Sertaneja”.

Parece interessante ouvir a “A Sertaneja” com um olhar e uma escuta do século XXI. A composição pode não parecer “brasileira o suficiente” para hoje. Mas, como foi à percepção em 1869?

Ouviremos “A Sertaneja” – Fantasia Característica Sobre Temas Brasileiros Op.15, interpretada pelo pianista brasileiro Arnaldo Estrela (1908 – 1980).

Observe! Essa é uma obra que representa um momento histórico no qual a música brasileira ainda era bastante europeizada.

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O ADEUS A ELZA SOARES (1930 – 2022)

“Nunca houve ou haverá uma mulher como ela”
Elza Soares (1930 – 2022)

Embora contrária a rótulos, Elza Soares (1930 – 2022) foi eleita pela Rádio BBC de Londres como a cantora brasileira do milênio, dentro do projeto The Millennium Concerts, da rádio inglesa, criado para comemorar a chegada do ano 2000.

“Eu sempre quis fazer coisa diferente, não suporto rótulo, não sou refrigerante”

Elza Soares morreu aos 91 anos, numa quinta-feira, 20 de janeiro, exatos 39 anos após a morte do jogador  Garrincha (1933  – 1983), seu polemico e grande amor.

Garrincha e Elza Soares

Elza e o jogador Garrincha se conheceram durante a Copa do Mundo de 1962. Em vinte anos de união, a cantora foi acusada de destruir famílias e agredida por ser mulher. Como ela mesma dizia:

“era uma relação de amor e ódio”.

Durante a vida, sofreu com o racismo, com a violência moral e sexual, convivendo com inúmeras perdas.

Elza nunca se calou, com a visibilidade que teve, deu voz às minorias: mulheres, negros, LGBTQIA+, todos eles foram, de certa forma, representados por meio das obras memoráveis da artista. Como alguns exemplos:

Em “Lama”, ela canta sobre o empoderamento e a coragem de superar o passado;

 Em “A Carne”, do preconceito e da violência vivida por pessoas negras;

Em “Maria da Vila Matilde, fala da violência doméstica.

Elza Soares (1930 – 2022)
(borimbora.blog.br)

Elza Soares também foi homenageada por escolas de samba. No último carnaval, antes da pandemia, a cantora foi enredo da Mocidade Independente de Padre Miguel.

Elza Soares – Carnaval – 2020

Ícone da música brasileira, com uma carreira eclética, iniciada nos anos 50, emprestou sua voz ao Samba, ao Jazz, à Música Eletrônica, ao Hip Hop e ao Funk.

“Eu acompanho o tempo, eu não estou quadrada, não tem essa de ficar paradinha aqui não. O negócio é caminhar. Eu caminho sempre junto com o tempo.”

 A vida de Elza Soares  foi pesquisada e retratada no premiado longa-metragem  que a jornalista Elizabete Martins Campos, roteirizou, dirigiu e produziu – My Name is Now.

A cantora esteve inúmeras vezes no topo das listas de sucesso no Brasil, embora também tenha amargado períodos de ostracismo, como  na década de 1980, quando pensou em desistir de cantar, e, literalmente “bateu na porta” de Caetano Veloso” para pedir ajuda.

O auxílio de Caetano veio na forma de convite para Elza participar da gravação do samba-rap Língua (Caetano Veloso, 1984), faixa de álbum pop do cantor, “Velô” (1984).

Elza Soares e Caetano Veloso

“Elza Soares é uma das maiores maravilhas que o Brasil já produziu. Quando apareceu cantando no rádio, era um espanto de musicalidade. Logo ficaríamos sabendo que ela vinha de uma favela e desenvolvera seu estilo rico desde o âmago da pobreza”. Caetano Veloso

Outra fase de renascimento musical veio em 2015 com o lançamento da “A mulher do fim do mundo”  – primeiro álbum em sua carreira só com músicas inéditas. As canções do disco falam sobre sexo, morte e negritude, e foram compostas pelos paulistas José Miguel WisnikRômulo Fróes e Celso Sim

Elza Soares

“Me deixem cantar até o fim” – pediu Elza em verso da música que batiza o álbum.

E assim foi! Elza Soares cantou até o fim. Sua morte causou comoção no Brasil. Vários artistas e personalidades se pronunciaram e lamentaram  sua partida.

Chico Buarque de Holanda,  falou através de suas redes sociais ao saber da despedida de Elza Soares:

(…) Se acaso você chegasse a 1959 e ouvisse no rádio aquela voz cantando “Se acaso você chegasse’’, saberia que nunca houve nem haverá no mundo uma mulher como Elza Soares”.

Ouviremos Elza Soares cantando “Se Acaso Você Chegasse”, composição de Felisberto Martins e Lupicínio Rodrigues, na versão original em gravação da ODEON.

Observe a voz inesquecível e o brilho de Elza Soares.

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“OS PLANETAS” DE HOLST(1874-1934)

a astrologia inspirando a música
Os Planetas do Sistema Solar

Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão são os planetas do Sistema Solar.

O céu de janeiro é marcado pela presença de estrelas bem brilhantes, e, neste ano de 2022, teremos muitos encontros entre os planetas.

Muito além de questões como ascendente, combinações amorosas e tendências para o futuro, à astrologia estuda o poder dos astros.

A astrologia e a mitologia romana serviram de inspiração para o compositor inglês Gustav Theodore Holst (1874-1934) compor a Suíte “Os Planetas” Opus 32 .

Gustav Theodore Holst (1874-1934)

A obra contempla sete planetas, curiosamente exclui a Terra, e, Plutão, que à época,  ainda não havia sido descoberto, entre 1914 e 1916.

“Os Planetas” de Holst trata de características particulares de cada astro, em um marco da música expressionista.

Capa da Partitura “Os Planetas” de Holst

O primeiro movimento apresentado é Marte, Deus da Guerra, utilizando ostinato rítmico com intensidades diferentes durante quase todo o movimento; o segundo, Vênus, Deusa da Paz, contrasta pela serenidade e andamento lento; o terceiro, Mercúrio, o Mensageiro Alado, ressalta a flauta e a celesta no clima de um “scherzo”; o quarto, Júpiter, Deus da Alegria, uma dança, com um belo tema central que acabou por se transformar em um hino patriótico inglês; o quinto, Saturno, Deus da Velhice, começa sóbrio, segue com um marcha nos metais e retorna a serenidade no final do movimento; o sexto, Urano, o Mago, na realidade um segundo “scherzo”; o sétimo e ultimo movimento, Netuno, o Místico, explora o pianissimomo com enorme habilidade.

Os Planetas do Sistema Solar

Holst queria ser pianista, mas teve um problema de saúde que afetou seu braço direito, seguindo então a carreira de professor e compositor.

O Piano de Gustav Holst -( Inglaterra)

Suas composições eram tocadas com frequência nos primeiros anos do século XX, mas foi só com o sucesso internacional The Planets (Os Planetas), nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, que Holst ficou conhecido.

Homem tímido, não se sentia bem com a fama, e preferia ficar sossegado para compor e ensinar. Nos seus últimos anos de vida, o seu estilo descomprometido e pessoal de composição não era visto com “bons olhos” e a sua curta popularidade caiu. Ainda assim, Holst influenciou vários jovens compositores ingleses.

Criado por Linda Evans Davis (AdobeDraw)

Gustav Theodore Holst compôs várias obras de diversos gêneros, sendo seu estilo de composição resultado de várias influências, incluindo o a música folclórica inglesa do início do século XX.

Ouviremos “Os Planetas” em concerto gravado em novembro de 2015 com a Orquestra Filarmônica Nacional de Varsóvia com regência de Marciej Tarnowski, no Concert Hall da Filarmônica na Polônia

Observe as particularidades dessa interessante obra de Gustav Theodore Holst do inicio do século XX.

Os Planetas – Opus 32  1. Marte, Deus da Guerra; 2. Vênus, Deusa da Paz; 3. Mercúrio, Mensageiro Alado; 4. Júpiter, Deus da Alegria;  5. Saturno, Deus da Velhice; 5. Urano, o Mago;  7. Netuno, o Místico.

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