CLÁUDIO SANTORO (1919 – 1989)

“um dos mais inquietos e polivalentes músicos de nosso tempo”

Claudio Franco de Sá Santoro (1919 – 1989)

Em um novembro, 101 anos atrás, nascia o grande compositor Cláudio Santoro em Manaus.

Em 1937 deixa sua cidade natal, onde havia iniciado seus estudos e parte para o Rio de Janeiro, buscando aperfeiçoamento.  Nesse período carioca, compõe suas primeiras obras, e, no final dos anos 30, integra o Grupo Música Viva juntamente com os jovens compositores de então: Edino Krieger (1928), Guerra-Peixe (1914 -1993), Eunice Katunda (1915 – 1990) dentre outros. Durante este período, foi influenciado pelo dodecafonismo defendido por Hans-Joachim Koellreutter (1915 – 2005).



Koellreutter (1915 – 2005);
Claudio Santoro (1919 – 1989); Edino Krieger (1928); Guerra-Peixe (1914 – 1993) e Eunice Katunda (1915 – 1990)

Em 1948, teve recusado seu visto para ir aos EUA como bolsista, devido à sua militância no Partido Comunista Brasileiro. Santoro muda-se para a França, a fim de estudar composição com Nádia Boulanger (1887-1979), professora e regente francesa que atraia alunos de todo o mundo ocidental. Da convivência com a mestra e com o ambiente político parisiense, ocorre uma transformação estética em sua criação. Santoro passa da música rigorosamente abstrata para uma linha mais lírica e expressiva, procurando criar uma obra mais comunicativa.

Nádia Boulanger (1887-1979)

Neste mesmo período, na França, aproximou de um grupo de músicos que o levou a Praga, na então Tchecoslováquia, onde, no Congresso dos Compositores Progressistas, Santoro participa como delegado brasileiro. Neste congresso é apresentado “oficialmente” para a doutrina soviética do Realismo Socialista aplicada à música, do qual o compositor passa a ser praticante, defensor e divulgador no Brasil. 

Alessandro Santoro

Alessandro Santoro, filho de Cláudio Santoro diz:

“Ele deixou de querer se aposentar na Alemanha, com todos os privilégios que ele poderia ter. Com certeza, papai estava muito ligado ao Amazonas por toda a família e tudo o que ele viveu aqui, mas ele tinha uma ligação muito forte com Brasília. Eu acho que essa ligação forte vem com a criação da Universidade”.

Claudio Santoro foi professor fundador do Departamento de Música da  Universidade de Brasília. Viveu um período na Alemanha, voltando à Brasília em 1979, ocasião em que fundou a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, a qual dirigiu até sua morte.

 Foi em Brasília que Santoro conheceu sua segunda esposa, a bailarina Gisèle, com quem teve três filhos: Gisèle (bailarina), Alessandro (pianista e cravista) e Cláudio Rafaello (DJ). 


Cláudio Rafaello Santoro

Segundo o filho caçula do casal, o conhecido DJ Raffa Santoro:

“Eu cresci ouvindo ele fazer as músicas eletroacústicas, essas loucuras que ele tinha de estúdio. Ele tinha um estúdio no quarto, mas ele movimentava a casa inteira, colocava vários gravadores de fita magnética tocando ao mesmo tempo. Eu cresci ouvindo aqueles sons ‘estranhos’ essa parte tecnológica”.

Em 1989 passa suas férias na Casa de Brahms, em Baden-Baden, Alemanha, onde termina sua 14° Sinfonia. Em seu vasto catálogo, destacam-se obras para piano,  cordas, Fantasia para violino e Orquestra, Verborgenheit, Ponteio e Três Abstrações, 14 Sinfonias e a Brasiliana para orquestra. 

Casa de Brahms, em Baden-Baden, Alemanha

 Ainda em 1989, Santoro morre regendo. Um enfarto fulminante tira a vida do compositor no pódio do Teatro Nacional de Brasília ao ensaiar o 2º Concerto para Piano e Orquestra de Brahms (1833 -1897). No mesmo ano, o Teatro Nacional foi batizado com o seu nome.

Claudio Santoro (1919 – 1989)

Ouviremos de Cláudio Santoro,  Ponteio (Allegro ma non tropo)  interpretado pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro de Brasília, com a regência do maestro Claudio Cohen no 43º Festival de Inverno de Campos do Jordão gravado em julho de 2012.

Observe a originalidade, vanguarda e o nacionalismo presente na obra de Claudio Santoro.  

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

MÚSICA DE CÂMARA

“música escrita para pequenas formações”

Violino, Violoncelo e Piano

A Música de Câmara é aquela feita para ambientes menores, adequada à execução em câmara ou aposento.  Existem peças de Música de Câmara para os mais variados instrumentos, mas um de seus principais gêneros é o Trio com piano. E essa formação geralmente contempla, além do piano, um violino e um violoncelo.

Mozart, Haydn, Beethoven são exemplos de compositores que escreveram obras para esta formação. No entanto, foram os compositores do período romântico que incorporaram ao Piano Trio um estilo brilhante dando importante contribuição ao gênero.

Mozart, Haydn e Beethoven

.

Um exemplo do gênero no Período Romântico é o Trio em sol menor opus 17 de Clara Schumann.  A alemã Clara Josephine Wieck (1819 – 1896) foi esposa de Robert Schumann, sendo uma das poucas crianças prodígio a se manter famosa e reconhecida como virtuose do piano por toda a vida. Ela exerceu sua influência ao longo de 61 anos de carreira como concertista. Clara Schumann influenciou hábitos na performance musical. Inovou na escolha de repertório, na programação de suas turnês, exercendo independência junto ao público e aos empresários.

Clara Josephine Wieck

No entanto, sua carreira como compositora sempre esteve em segundo plano. Apesar se toda sua segurança em relação ao piano, duvidava de sua capacidade como compositora. A pianista viveu em um período em que compositoras não eram incentivadas, nem levadas a sério. Clara Schumann possui obras de inegável valor, embora tenha passado pela história da música ocidental como a esposa pianista do compositor Robert Schumann.

  “Acreditei que tinha talento criativo, mas desisti desta ideia; uma mulher não pode desejar compor – nunca houve nenhuma capaz disso. E eu serei a primeira? Seria arrogância minha acreditar nisso. (…) Que Robert possa sempre compor, isso sempre me fará feliz”. Clara Schumann

Robert e Clara Schumann

 O Trio em sol menor opus 17 de Clara Schumann foi composto em 1846 em quatro movimentos. Vale ressaltar que Clara compôs para esta formação, após criar uma série inovadora de concertos, na cidade de Dresden (Alemanha), para valorizar a Música de Câmara.

Dresden (Alemanha)

Curiosamente o casal Schumann tinha o hábito de presentear um ao outro com obras musicais. Clara presenteou Robert com o Piano Trio no sexto aniversário de casamento. Robert retribuiu, um ano depois, presenteando-a com seu Piano Trio n. 1 em ré menor opus 63.

Clara e Robert Schumann

Ouviremos o Piano Trio de Clara Schumann com o ATOS Trio – Annette von Hehn,  violino; Stefan Heinemeyer, violoncelo e Thomas Hoppe, piano.

ATOS Trio

Observe o brilhantismo e a poesia desta obra magistral da compositora Clara Schumann.  

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

UM FESTIVAL INTERNACIONAL DE MÚSICA NO CENTRO DO PAÍS

Festival Internacional de Música Belkiss S. Carneiro de Mendonça
43º Festival Internacional de Música Belkiss S. Carneiro de Mendonça

O Festival mais antigo no Brasil, em edições contínuas, teve início na década de sessenta. Quando realizado o I Festival de Música, em Goiânia, promovido pelo então Conservatório Goiano de Música, depois Instituto de Artes e hoje Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás.

Desde sua primeira versão esses eventos trouxeram a Goiânia reconhecidos nomes do cenário musical brasileiro e internacional: instrumentistas, compositores, regentes e educadores musicais que deixaram sua marca na formação de nossos profissionais.

Segundo a professora Maria Helena Jayme Borges:

“O grande acontecimento de 1964 foi a realização do I Festival de Música Erudita do Estado de Goiás de 19 a 27 de setembro. Os professores, alunos e servidores do Conservatório, compreendendo o alto sentido e as vantagens pedagógicas e sociais daquele evento, não mediram esforços para realização do festival, sendo essa a primeira vez que empreenderam um trabalho de tamanho vulto”.

O I Festival trouxe para Goiânia a regente e compositora carioca Maria Luiza de Mattos Priolli (1915 – 2000), ministrando o curso de Análise e Didática do Ritmo e Som; o renomado pianista Arnaldo Estrela (1908 -1980), o curso de Didática do piano e interpretação pianística e o compositor e musicólogo alemão naturalizado brasileiro  Bruno Kieffer (1923 – 1987), ministrando os cursos de Apreciação musical, Estética e História da Música.

Arnaldo Estrela, Maria Luiza de Mattos Priolli, Bruno Kieffer

A pianista goiana Belkiss Spencieri Carneiro de Mendonça (1928-2005), estava à frente de tudo e  formou uma equipe unida, entusiasta e comprometida. Assim conseguiu fazer o que parecia impossível: realizar, em 1964, um Festival de Música no interior do Brasil.

Belkiss Spencieri Carneiro de Mendonça

Além de cursos, a primeira versão do Festival ofereceu ao público goiano recitais com a participação dos violinistas Nathan Schuwartzmann e Mariuccia Iaconino, das pianistas Belkiss, Arnaldo Estrela e Heloisa Barra, da Mezzo Soprano Honorina Barra, do flautista Lenir Siqueira, do oboísta Paulo Nardhi, do clarinetista José Botelho, do trompista Jairo Ribeiro, do fagotista Noel Devos e ainda contou a presença Maestro Isaac Karabtchewsky regendo o Madrigal Renascentista.

Nathan Schuwartzmann e Mariuccia Iaconino, Belkiss S. Carneiro de Mendonça, Irmãs Barra, Maestro Isaac Karabtchewsky

“Festivais deveriam haver cinco por ano, por sua organização e boa direção. Quanto à plateia, não poderia ser melhor, composta quase que exclusivamente de jovens de grande interesse musical”. Cussy de Almeida (1936 – 2010)

Muitos foram os importantes músicos que passaram pelos 42 festivais em Goiânia. Tradicionalmente os Festivais da Escola de Música trazem para cidade reconhecidos nomes do cenário musical brasileiro e internacional. O 43º Festival Internacional de Música Belkiss S. Carneiro de Mendonça (formato online), além de cursos, mesas redondas, máster classes de instrumentos/canto, música popular, musicoterapia e educação musical, oferecerá recitais online tanto relembrando antigos festivais quanto Concerto com transmissão ao vivo através do canal o Youtube da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG entre os dias 18 e 21 de novembro próximo.

Festivais em Goiânia EMAC/UFG

Relembrando um dos músicos presente no histórico Primeiro Festival de Música de Goiânia, ouviremos Arnaldo Estrela,  interpretando a Lenda do Caboclo de Heitor Villa-Lobos(1887 – 1959).

Heitor villa-Lobos

Observe a interpretação precisa e brilhante do pianista Arnaldo Estrela.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

BADEN POWELL

“Chopin se esqueceu de fazer esta”

Baden Powell (1937-2000)

Há vinte anos morria um dos maiores violonistas de todos os tempos e um dos compositores mais expressivos da Música Popular Brasileira, Baden Powell (1937-2000).

Baden é criador de um estilo próprio, considerado pela crítica como um divisor de águas na MPB por fundir vários elementos da sonoridade africana ao samba. Segundo Powell:

“Quando crio não toco nada e quando toco, paro de criar. O criador e o intérprete são pessoas diferentes”.


Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro

Nascido Baden Powell de Aquino – uma homenagem do pai ao general britânico criador do escotismo  Robert Stephenson Smyth Baden-Powell (1857-1941) – formou-se na Escola Nacional de Música do Rio de Janeiro, mas iniciou seus estudos musicais com seu pai, passando posteriormente a integrar a classe do professor Jayme Florence (1909-1982), o Meira, grande violonista.

Professor Jayme Florence (1909 – 1982)
Meira

Aos dez anos de idade, incentivado por seu mestre, se apresentou pela primeira vez no famoso programa de calouros da Rádio Nacional “Papel Carbono”, tocando “Magoado”, de Dilermando Reis. Também por influência do professor Meira, conheceu os principais músicos de samba e choro da época, entre eles Donga, Ismael Silva e Pixinguinha.

Donga, Ismael Silva e Pixinguinha

Na adolescência, Baden apresentou-se em bailes, casas noturnas e programas de rádio no Rio de Janeiro, tornando-se um dos músicos mais requisitados em bandas e rodas de choro pela cidade.

 Grande parceiro de Vinicius de Moraes (1913-1980), juntos, compuseram dezenas de músicas, entre as quais, os aclamados “afro-sambas”.

Vinicius de Moraes e Baden Powell

Uma das obras mais famosas da dupla Baden e Vinicius “Samba em Prelúdio”, causou discussões entre a dupla. Segundo Baden, Vinicius achava que o violonista havia plagiado o compositor polonês Frédéric Chopin (1810 -1849), depois de ter certeza que a obra era realmente de Baden, Vinicius conseguiu, de uma vez, compor a letra. E disse: “Chopin se esqueceu de fazer esta”.

Frédéric Chopin (1810 -1849)

Talvez Baden tenha se inspirado inconscientemente em Chopin. Bebeu desta rica fonte de inspiração e compôs obras incríveis, fazendo total diferença no rico repertório da Música Popular Brasileira. 

Baden e Vinicius

Ouviremos Baden Powel l interpretando Samba em Prelúdio na versão de seu primeiro disco gravado na Europa “Le Monde Musical de Baden Powell”.   Produzido na França pelo selo Barclay, o disco apresenta Baden ao violão; Alphonse Masselier no baixo; Arthur Motta na bateria; Paul Mauriat e sua orquestra; vocal da incrível Françoise Waleh.

Le Monde Musical de Baden Powell”

Observe o violão diferenciado de Baden Powell. Não é por acaso que ele é considerado um dos maiores violonistas de todos os tempos.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

FRANZ LISZT

“um fenômeno da técnica pianística”

Franz Liszt (1811-1886)

Considerado um dos maiores pianistas de todos os tempos, Franz Liszt (1811-1886) nasceu na região da atual Hungria, no dia 22 de outubro de 1811. Iniciou seus estudos musicais com o pai Adam Liszt, que tocava violino e cantava na igreja.   

Adam Liszt – pai de Franz Liszt

 Devido ao seu  rápido progresso e  demonstração de enorme talento, a família Liszt  vai morar em Viena, onde Franz  estuda piano com o  renomado professor  Carl  Czerny (1791 – 1857),  e teoria musical com o famoso rival de W. A.  Mozart (1756 – 1791), o mestre capela  Antônio Salieri (1750 – 1825)

Carl  Czerny e Antonio Salieri

Nos primeiros anos de estudo já se apresenta brilhantemente sendo apontado pelos  jornais da época como um fenômeno da técnica pianística.  Franz Liszt foi um dos mais proeminentes representantes “Neudeutsche Schule” (Nova Escola Alemã). Deixou obras que tanto influenciaram seus contemporâneos quanto anteciparam algumas ideias e tendências do século 20.

Frazn Liszt

A partir de 1830, ainda na França, estabelece sólida amizade com o pianista polonês Frédéric Chopin (1810 – 1849) e com o violinista italiano   Niccolò Paganini (1782 – 1840). Músicos que influenciaram suas obras para piano.

Chopin, Liszt e Paganini

Liszt era muito popular, seus concertos arrebatavam grandes plateias, muitos admiradores e amores.  A “Lisztomania” dominava a Europa, e a carga emocional dos concertos de Liszt causavam a muitos ouvintes reações descritas como histéricas, lembrando os concertos de música POP da atualidade.

Liszt viveu vários e conturbados casos amorosos, talvez, uma destas paixões, o tenha inspirado compor uma de suas mais românticas obras, a popular  Liebesträume n.º 3, conhecida como “Sonho de Amor”, que  faz parte do repertório de grandes pianistas do passado e da atualidade.

“Sonhos de Amor” é um compêndio de três peças para piano publicado em 1850. Liszt tinha profunda conexão com a literatura, e, a princípio, as três Liebesträume (sonhos de amor) foram concebidas a partir de poemas de Ludwig Uhland (1787 – 1862) e Ferdinand Freiligrath(1810 – 1876).  Em 1850, duas versões apareceram simultaneamente como um conjunto de canções para soprano e piano, com transcrição para piano solo. Os dois poemas de Uhland e o de Freiligrath descrevem três diferentes formas de AMOR. 

Ludwig Uhland (1787 – 1862) e Ferdinand Freiligrath(1810 – 1876).

O poema de Freiligrath para o terceiro famoso “noturno” fala de um amor incondicional e maduro:

“Ame enquanto puder! A hora virá quando estiver junto ao túmulo e aos prantos”Freiligrath

Ouviremos Sonho de Amor interpretado pelo pianista chileno Claudio Arrau (1903 – 1991).

Observe o tema que sempre se repete, e, desfrute desta bela interpretação.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas redes sociais.

Redes sociais!

CARNAVAL DOS ANIMAIS

uma brincadeira musical de Camille Saint-Saëns
Camille Saint-Saëns (1835-1921)

Carnaval dos Animais é uma peça para dois pianos e orquestra, composta em 1886 quando  o compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921), passava férias em uma pequena aldeia na Áustria, após ter retornado de uma frustrante turnê na Alemanha.

 Culto, versátil e refinado, Saint-Saëns escreve o Carnaval dos Animais como uma brincadeira para divertir seus amigos na época do carnaval e criticar o cenário musical parisiense no fim do século XIX.  Por precaução, não permitiu que a obra fosse publicada, temia que ela arruinasse sua reputação de “compositor sério”. Ironicamente, O Carnaval dos Animais figura, desde sua estreia pública em 1922, um ano após a morte do compositor, entre suas obras mais apreciadas e populares.

Camille Saint-Saëns

Repleta de referências a outros compositores, a obra foi executada apenas duas vezes antes da morte de Saint-Saëns em 1921. A exceção é – “O Cisne” para piano e violoncelo, sendo essa a peça mais conhecida do Carnaval.

Camille Saint-Saëns
Rameau; Offenbach; Mendelsshon; Czerny e Berlioz

O Carnaval dos Animais é uma suíte composta por 14 movimentos, nos quais 13 deles descrevem personagens.

I – Introdução e Marcha Real do Leão com tema originalde  SaintSaëns, os dois pianos trinam e arpejam; as cordas abrem a marcha do soberbo animal, imitando os rugidos do Leão;

o II movimento descreve as Galinhas e Galos com um breve trecho à moda do compositor francês Jean-Philippe Rameau (1683 – 1764);

o III descreve as Mulas, animais muito velozes, “asnos selvagens” – com tema original de Saint-Saëns, os dois pianos lançam-se em escalas em clima de loucura, e nunca se alcançam;

o IV movimento descreve as Tartarugas, Saint-Saëns faz uma paródia lenta ao afamado Can Can de Offenbach (1818 – 1880);

o V descreve O Elefante fazendo uma paródia lenta de “Dança das  Sílfides” de“A Danação de Fausto” do compositor francês Louis-Hector Berlioz (1803 – 1869) com alusão ao “Scherzo” de “Sonho de uma noite de Verão” do alemão Felix Mendelsshon (1809 – 1847);

o VI movimento apresenta o Canguru, com tema original do autor, representando os pianistas que “saltitam”, ‘hesitam’ e “param”;

o VII descreve o  Aquário com ondas, natação e gotas de água, sendo uma das peças mais criativas do Carnaval, cheia de magia e mistério;

o VIII movimento descreve os Personagens de orelhas compridas, os violinos se alternam na imitação do relinchar dos burros;

o IX descreve o cuco nas profundezas dos bosques;

o X movimento descreve os Pássaros lembrando os passarinhos em revoada;

o XI movimento, ironicamente, Saint-Saëns descreve o  pianista iniciante que tanto o incomodava – segundo o compositor, “pianistas iniciantes são verdadeiros animais, e não dos menos barulhentos”, o compositor faz uma alusão aos afamados estudos de Carl Czerny (1791 – 1857);

o XII movimento o compositor descreve os Fósseis, representando “as antiguidades”, utilizando de citações de sua “Danse Macabra”, como se os ossos batessem uns nos outros;

o XIII é o mais famoso dos movimentos, descreve O Cisne, com um belo tema original de Saint-Saëns que se tornou um hino dos violoncelistas;

o XIV – Final é o desfile da bicharada, onde aparecem os principais temas ouvidos durante a obra, inclusive a dos pianistas.


CARNAVAL DOS ANIMAIS

Ouviremos Carnaval dos Animais de Camille Saint-Saëns, em sua íntegra, em gravação no Japão em 2014 com Martha Argerich, Gidon Kremer, Akane sakai, Yuzuko Horigome, Yoshiko Kawamoto, Giedre Dirvanauskaite, Shu Yoshida, Juliette Hurel, Raphael Sévère, Sawako Yasue.

Observe a ironia e a beleza do Carnaval dos Animais nesta interpretação impecável.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas r

Redes sociais!

O ADEUS A ZUZA HOMEM DE MELO

“Se você pergunta se é possível formar uma nova geração como a dos anos 60, posso responder: é perfeitamente possível, desde que surja um novo João Gilberto


ZUZA HOMEM DE MELO (1933 – 2020)

O Brasil perdeu um dos maiores estudiosos da música brasileira, José Eduardo Homem de Melo (1933 – 2020), mais conhecido como Zuza. Pesquisador, produtor e crítico musical, morreu neste ultimo 04 de outubro em São Paulo aos 87 anos.

 A música foi sua vida. Trocou a faculdade de engenharia pelo contrabaixo, estudou musicologia na afamada Julliard School of Music, desembarcando, no final dos anos 50, na Tv Record, onde fez uma revolução como técnico de som, tornando-se o homem de confiança do proprietário da emissora, Paulo Machado de Carvalho.

Assim relata Zuza sobre seus primeiros anos na Tv Record:

“Num programa musical, a música tem de sair da melhor forma possível, apesar das limitações dos aparelhos de televisão da época. Foi o que eu fiz, colocando mais microfones, dando destaque a instrumentos ignorados pelos técnicos das demais emissoras, como contrabaixo, violão, guitarra”.

ZUZA HOMEM DE MELO

Homem de Melo descobriu talentos, produziu e discutiu a música popular brasileira com seriedade e competência. Segundo ele o termo “MPB é um rótulo em que cabem vários gêneros e, com o tempo, foi ficando mais abrangente em relação a esse núcleo inicial”.


Música com Z

Com larga experiência como produtor e diretor musical, dirigiu inúmeros programas, festivais, shows, espetáculos e concertos. Além de seus trabalhos na Tv Record, na Rádio Jovem Pan, no Jornal o Estado de São Paulo, dentre outros, contribuiu de forma pontual para o estudo da Música Popular Brasileira ao coordenar a publicação da Enciclopédia da Música Brasileira e editar a coleção didática História da Música Popular Brasileira.

Zuza Homem de Melo também publicou: Música popular brasileira cantada e contada; A canção no tempo; João Gilberto; A Era dos Festivais; Música nas veias: memórias e ensaios; Eis aqui a bossa nova; Música com Z e Copacabana: a trajetória do samba-canção.   


A TURMA DOS ANOS 60

Assim Homem de Melo definiu uma década:

 “A Bossa Nova foi o êmulo de todos os compositores brasileiros da geração dos anos 60. Todos se tornaram o que seriam, mais especificamente, em função do João Gilberto, que foi o agente provocador de um número razoável de compositores talentosos. (…) A música de João Gilberto os atraiu de tal forma que os fez mudar de ideia e resolver seguir carreira de cantor, de compositor, de músico. A partir de João Gilberto surge essa geração de grandes talentos. Se você pergunta se é possível formar uma nova geração como a dos anos 60, posso responder: é perfeitamente possível, desde que surja um novo João Gilberto”.

Segundo sua esposa, Ercília Lobo, na semana anterior a sua partida, Zuza Homem de Melo, havia concluído a biografia do músico  João Gilberto (1931-2019). Homem de Melo será sempre lembrado pela música popular brasileira.


ZUZA  e JOÃO GILBERTO

Em sua homenagem ouviremos o “agente provocador” João Gilberto em Show de comemoração dos 50 anos da Bossa Nova em Outubro de 2008 no Auditório Ibirapuera em São Paulo.

JOÃO GILBERTO

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas r

Redes sociais!

PIXINGUINHA

“Estamos diante do maior músico popular que já tivemos em todas as épocas”

Compositor emblemático da música popular brasileira, Alfredo da Rocha Vianna Filho, mais conhecido como Pixinguinha (1897-1973), foi um músico brasileiro, autor da música “Carinhoso”, em parceria com João de Barro. Arranjador, instrumentista e compositor, um dos maiores representantes do “choro” brasileiro.

O apelido “Pixinguinha” foi resultado do nome colocado por sua avó Edwiges, africana de nascimento, derivado do dialeto natal, “Pizindin” que quer dizer: MENINO BOM, que depois virou Pixinguinha.

 As primeiras lições de flauta foram dadas pelo pai, Alfredo da Rocha Vianna, Aos oito anos quando a família foi morar em um casarão, na Rua Vista Alegre, logo apelidado de “Pensão Viana”, pois estava sempre cheio de gente.

PIXINGUINHA

Com 12 anos Pixinguinha já dominava os conhecimentos de teoria musical. Nessa época, tocava flauta, cavaquinho e bandolim, mas sonhava com uma clarineta de sons agudos.

Na década de 40, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone e se interessou pelo jazz. Tornou-se amigo de Louis Armstrong sem deixar de ser o senhor absoluto das rodas de choro.

PIXINGUINHA e LOUIS ARMSTRONG

Pixinguinha teve uma movimentada e eclética carreira musical.  Em 1962, teve como parceiro Vinicius de Moraes na trilha sonora do filme “Sol Sobre a Lama”. 


PIXINGUINHA e VINICIUS DE MORAES

Segundo o Jornalista Lúcio Rangel:

“Em todas as suas manifestações de arte, Pixinguinha revela-se admirável, o que nos leva a afirmar, com toda a serenidade, estamos diante do maior músico popular que já tivemos em todas as épocas”

Lamentavelmente, em 1964, sofreu um infarto. Curiosamente, enquanto esteve internado compôs vinte músicas, uma por dia, entre elas, as valsas: Solidão, Mais Quinze dias e No Elevador

Pixinguinha disse:

“Hoje só quero saber de sossego e de viver em paz com todo mundo. Tenho medo que a morte me apanhe de surpresa”.

PIXINGUINHA

 Pixinguinha faleceu no Rio de Janeiro, no dia 17 de fevereiro de 1973, mas sua obra o mantem vivo.

 “Rosa”, uma das mais belas canções da história do choro, tanto na versão original, sem letra, quanto na versão mais conhecida, com letra de Otávio de Souza.

“O autor dessa letra é Otávio de Souza, um mecânico do Engenho de Dentro, bairro carioca, muito inteligente e que morreu novo.”(Pixinguinha)

Segundo Pixinguinha, a valsa foi composta em 1917 e o título original era “Evocação”, só recebendo letra muito mais tarde. Conta à lenda que Souza aproximou-se de Pixinguinha enquanto o mestre bebia em um bar do subúrbio carioca para falar que havia uma letra que não saía de sua cabeça toda vez que ouvia a valsa, e, Pixinguinha assim que ouviu ficou realmente maravilhado!

PIXINGUINHA

A gravação feita por Orlando Silva (1915-1978), com uma interpretação magistral, foi responsável pela popularização de “Rosa”.

A gravação que iremos ouvir é do Sexteto vocal ORDINARIUS. Com arranjo do diretor musical do grupo, Augusto Ordine. “Rosa” é executado à cappella (sem acompanhamento instrumental), pelos músicos André Miranda, Augusto Ordine, Letícia Carvalho, Luiza Sales, Maíra Martins e Marcelo Saboya.

Observe a riqueza desta intepretação com arranjo primoroso e vozes soando como verdadeiros instrumentos.  Vale a pena conferir!

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas redes sociais!

UM PIANO E DOIS INSTRUMENTISTAS

“O dueto de piano é um caso único onde ocorre uma performance musical de duas pessoas, usando plenos recursos de um só instrumento”

Wolfgang Amadeus Mozart e a irmã tocam a quatro mãos, observados pelo pai. A mãe, já falecida, aparece no retrato ao fundo. Quadro de Della Croce.
Fonte:
Infopédia

Peças para dois executantes em um piano, isto é piano a quatro mãos. Algumas peças inglesas para piano a quatro mãos datam do início do século XVII, mas as primeiras obras primas do gênero são as Sonatas de Mozart (1756 -1791).

Schubert (1797-1828), Schumann (1810 – 1856)e Brahms (1833 – 1897) são alguns dos nomes que enriqueceram o repertório do século XIX, e, desde então compositores do mundo todo, incluindo os compositores brasileiros, escreveram e ainda escrevem obras notáveis para esta formação.

Brahms, Schubert, Schumann

A música para piano a quatro mãos ocupa lugar de destaque no repertório camerístico. Constitui-se em excelente motivação para pianistas e importante ferramenta pedagógica no ensino do piano. Foi na passagem do séc. XVIII para o XIX que surgiram as primeiras transcrições para piano a quatro mãos, que logo se tornaram o principal meio de divulgação da música sinfônica, música de câmara e outros gêneros – não podemos esquecer que naquela época não havia outros meios de comunicação como o rádio e as gravações tão comuns atualmente.

O sucesso deste repertório foi tão grande que provocou um enorme número de transcrições de outras formas musicais como: oratórios, trechos de ópera, danças populares e todo tipo de obras dedicado tanto para amadores, visando à prática doméstica de música, como para pianistas profissionais, impulsionando os compositores a escrever peças originais para este gênero.

A relevância deste momento musical é muito bem relatada por Cameron McGraw no prefacio de seu trabalho sobre o repertório de piano a quatro mãos:

“O assombroso crescimento que teve a literatura de quatro mãos a fez tornar tão popular que acabou se constituindo numa instituição social da crescente classe média. […] O dueto de piano é um caso único onde ocorre uma performance musical de duas pessoas, usando plenos recursos de um só instrumento, podendo executar com muita eficácia uma obra escrita originalmente ou especialmente arranjada para esta formação. Além disto, possui um repertório surpreendentemente abundante e de notável diversidade.”

No Brasil, considerando que a partir de meados do séc. XIX o piano se tornou o instrumento preferido da sociedade brasileira, a partir, especialmente, do desenvolvimento da prática domestica de música em saraus familiares, surgiram os duos de piano a quatro mãos e, com eles, um repertório de transcrições e obras originais de compositores nacionais.

Sarau no Império

Na prática do piano a quatro mãos predomina a existência de laços de intimidade dentre seus executantes; irmãos, cujo mais célebre exemplo é o de Mozart e sua irmã Nannerl, casais como Robert e Clara Schumann, professores e alunos, amantes e amigos. Talvez estes laços pudessem ser justificados pelo misto de proximidade e embate entre os corpos que perfazem a execução, possibilitando ao ouvinte um espetáculo também visual.


Nannerl  e Wolfgang Mozart 

No Brasil percebe-se a prática do piano a quatro mãos entrelaçando os fatos históricos e socioculturais do passado (desde a chegada da corte em 1808) e do presente. O repertório brasileiro para piano a quatro mãos esteve e está presente na Vida Doméstica, no Entretenimento, como Ferramenta Didática, na Economia e em Arranjos e Transcrições. Atualmente o repertório para piano a quatro mãos faz parte das grades curriculares das Universidades, os compositores de hoje escrevem obras para este repertório que já alcançou os Palcos de Concerto apontando para a relevância deste repertório também na música brasileira.

Ouviremos o pianista brasileiro Nelson Freire (1944) e a pianista argentina Martha Argerich (1941), ícones do piano no mundo,  tocando uma obra brasileira.


Nelson Freire (1944) e Martha Argerich (1941)

A Congada de Francisco Mignone (1897 – 1986) integra a ópera o Contador de Diamantes composta em 1921, transcrita para piano a quatro mãos e dois pianos pelo próprio Mignone em 1971.

Francisco Mignone (1897 – 1986)

Observe na interpretação de Nelson e Martha a perícia na manipulação do tema tradicional utilizado por Mignone, a riqueza rítmica e o colorido orquestral. Vale a pena ouvir esta preciosa gravação.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas redes sociais!

FRANCIS JEAN MARCEL POULENC

“meio monge, meio mau rapaz”

Francis Poulenc (1899-1963)
Ilustração  – Eleni Kalorkoti

O compositor e pianista francês Francis Jean Marcel Poulenc (1899-1963), juntamente com os compositores Georges Auric, Louis Durey, Arthur Honegger, Darius Milhaud e Germain Tailleferre, formou o grupo denominado “Os seis franceses”. As ideias que supostamente uniam o grupo eram uma fidelidade à simplicidade e integridade, evitando o que é formal e acadêmico, e a incorporação de elementos da música popular, especificamente o jazz e as canções do teatro de variedades.


Les Six – Os Seis Franceses
Francis Poulenc, Germaine Taileferre, Louis Durey, Jean Cocteau,
Darius Milhaud, Arthur Honegger.
Esboço de Georges Auric na parede atrás do Grupo dos Seis.

 Embora as ideias do “Grupo dos Seis” tenham se firmado na história da música, o grupo nunca foi muito coeso e seus membros se moveram em diferentes direções, depois que a associação, que durou apenas alguns anos, se desfez.

Dentre os membros do grupo, Poulenc, foi o mais consistente em desenvolver e sustentar seu próprio estilo.  Simplicidade, clareza e inclusão de influências da música popular fazem parte do universo de sua obra.

Em artigo no Paris-Presse” de Julho de 1950, assim o crítico Claude Rostand (1912-1970) descreve o compositor francês, em uma etiqueta que lhe ficou associada para o resto da vida:

“meio monge, meio mau rapaz”  “le moine et le voyou”


Francis Poulenc (1899-1963)

O ambiente parisiense da época é fielmente representado nas obras de Poulenc. Sua música, eclética e ao mesmo tempo pessoal, é essencialmente melodiosa, emoldurada pelas dissonâncias do século XX.  Poulenc tem talento, elegância, profundidade de sentimento e um doce-amargo que são derivados da sua personalidade melancólica e ao mesmo tempo alegre.

Embora Poulenc possa nunca ter conhecido Édith Piaf (1915-1963), os dois músicos possuíam muitos pontos em comum.  Talento, profundidade de sentimentos, a vida parisiense e uma alegre melancolia. Poulenc homenagea Piaf com o Improviso para Piano n. 15 em dó menor composto em 1959.


Édith Piaf (1915-1963)

Ouviremos o Improviso para Piano n. 15 em dó menor interpretado pelo pianista francês Pascal Rogé (1951).

 Observe no Improviso de Francis Poulenc  a elegância e profundidade de sentimento do “doce-amargo” tão presente na obra do compositor e da homenageada.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas redes sociais!

%d blogueiros gostam disto: