BACH OU VIVALDI?

Concerto para quatro pianos e orquestra de cordas em lá menor

Antônio Lucio Vivaldi e Johann Sebastian Bach

O compositor alemão Johann Sebastian Bach  (1685-1750), tido como o maior nome da música barroca, sendo, por muitos, considerado o maior compositor de todos os tempos, deixou um grande volume de obras que validam o grande gênio que foi.

Johann Sebastian Bach  (1685-1750)

Já o italiano Antônio Lucio Vivaldi (1678-1741), compositor e sacerdote, também alcunhado de “o padre ruivo”, é autor de mais de setecentas obras, reconhecido através dos tempos, principalmente, por seus quatro concertos para violino e orquestra denominados “As Quatro Estações”.

Antônio Lucio Vivaldi (1678-1741)

Por volta de 1730, o compositor alemão, com intenções pedagógicas, transcreveu uma série de dezessete concertos para tecla. Um destes concertos era para quatro cravos e orquestra de cordas. Bach, com sua conhecida ética e retidão, anotou na partitura “segundo Vivaldi”.

Família Bach

Os concertos para cravo e orquestra foram uma novidade no tempo de Bach. Jamais os instrumentos de tecla haviam assumido o primeiro plano em uma composição orquestral antes de Bach.

“Trabalho incessante, análise, reflexão, escrever muito, autopunição infinita, esse é o meu segredo.” J. S. Bach

Em 1850, estudos musicológicos na Alemanha comprovam e atestam que o concerto para quatro cravos de Bach, era na realidade, uma transcrição do concerto para quatro violinos em si menor Op. 3 n.10 RV 580 de Vivaldi. Nessa época, por ser o compositor veneziano ainda pouco conhecido, alimentou-se rumores de que a obra do célebre Bach havia sido transcrita pelo “Padre Ruivo”.

 Em 1905 o musicólogo e violinista alemão Arnold Schering (1877-1941), responsável pela ressurreição moderna de Vivaldi, investigou e analisou minuciosamente vários manuscritos do compositor italiano, provando a procedência da obra e a realidade dos fatos. Segundo Schering, a obra era uma transcrição de Bach do original de Vivaldi.

Arnold Schering (1877-1941)

Quatro cravos; quatro solistas de peso; dois dos maiores compositores de todos os tempos – Não podia ser de outra forma – o Concerto para quatro cravos e orquestra de cordas em lá menor é uma obra prima.

Ouviremos de Johann Sebastian Bach o Concerto para quatro pianos e orquestra de cordas em lá menor  – Transcrição do concerto de Antônio Vivaldi para quatro violinos em si menor Op. 3 n. 10 RV 580, com solistas de tirar o folego. A argentina Martha Argerich (1941), o russo Evgeny Kissin (1971), o americano que partiu em março deste ano, James Levine (1941 – 2021), e, o russo Mikhail Pletney (1957). Esse concerto foi gravado no prestigiado Festival Internacional de Música de Verbier na Suíça em 22 de Julho de 2002.

Martha Argerich ; Evgeny Kissin; James Levine e Mikhail Pletney

Observe, nesse concerto, as combinações de novas texturas e sonoridades experimentadas pelo compositor alemão para os instrumentos de tecla.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO E O CANTO DA VERÔNICA

Canto da Verônica consiste na história de uma jovem que transporta um véu no qual está impressa uma representação da face de Jesus Cristorasileiro do século XX
Santa Verônica

Por mais um ano, a Covid-19, pandemia pela qual o mundo está atravessando, faz com que as celebrações religiosas sejam virtuais. Lembramos então, de um tempo, em que a Semana Santa era celebrada presencialmente em várias partes do planeta.

A Quaresma começa na quarta-feira de cinzas e termina no Domingo de Ramos, que antecede ao domingo de Páscoa. Durante os quarenta dias que precedem a Semana Santa e a Páscoa, a tradição cristã recomenda a reflexão, a conversão espiritual, rememorando  os 40 dias passados por Jesus no deserto e os sofrimentos que ele suportou na cruz.

Um canto tradicional deste período, especialmente da Semana Santa, é o Canto da Verônica. O nome Verônica vem do latim e grego: vero ícone, que significa verdadeira imagem. Embora não haja nenhum registro Bíblico quanto à figura de uma personagem denominada Verônica, a Igreja Católica e seus fiéis, tradicionalmente representam nas Igrejas, em latim ou em português, o canto pungente de uma mulher, ritual ao qual se deu o nome de Canto da Verônica

Retirado de um trecho do Livro das Lamentações de Jeremiasversículo 12capítulo I, o Canto da Verônica consiste na história de uma jovem que transporta um véu no qual está impressa uma representação da face de Jesus Cristo. A personagem entoa um canto litúrgico e ao mesmo tempo, desenrola e exibe a estampa da face de Jesus Cristo.


Xilografia de Lamentações de Jeremias (1860),
por Julius Schnorr von Carolsfeld.

A tradição narra que essa jovem teria se aproximado de Jesus enquanto ele carregava a cruz, e ao limpar a sua face cheia de sangue e suor com seu véu,   a figura do rosto de Cristo ficou estampada no pano, que passou a ser chamado de Santo Sudário. O canto, ou o grito de lamentação, tinha o intuito de anunciar que o homem que seria crucificado era o verdadeiro Cristo.

Santo SudárioTurim- Itália

 Mais do que comprovar a existência de Verônica, podemos nos atentar à importância da tradição que este rito representa. Vale ressaltar que este canto/lamento é entoado em forma de responsório, uma forma de canto litúrgico na qual uma solista entoa versos, respondidos pela congregação ou coro. 


Verônica e as três “béus”

Ouviremos um exemplo vindo da Basílica Nossa Senhora do Carmo da cidade de Campinas (SP), apresentada em março de 2016.

Esse Canto da Verônica é de autoria de José Pedro de Sant’Anna Gomes (1834 – 1908), irmão do afamado Carlos Gomes (1836 – 1896) . A obra foi composta para a Paróquia Nossa Senhora a Conceição de Campinas.

José Pedro de Sant’Anna Gomes
(1834 – 1908)

A Verônica é interpretada por Adriana Kayama.  As três “béus” (mulheres chorosas), por Jussara Maria Oliveira; Elaine Virginia Dias Marchi e Beatriz Suzzara que cantam as três vozes o “Heu Domino” de um compositor anônimo de Minas Gerais do século XVII.

Adriana Kayama

Observe o grito de lamentação da Verônica e o canto das “Béus” também conhecidas como as “carpideiras” que acompanham e respondem o canto da Verônica.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

BETH CARVALHO (1946 – 2019)

“Madrinha do renascimento do samba de raiz do Rio de Janeiro”
Beth Carvalho (1946 – 2019)

A mulher inspiradora da semana é  Elizabeth Santos Leal de Carvalho,  Beth Carvalho,  carinhosamente  chamada de “madrinha do samba”.  

Beth Carvalho começou sua carreira na bossa nova, influenciada por João Gilberto, ao lado de músicos como Taiguara, Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli.

João Gilberto; Roberto Menescal; Taiguara e Ronaldo Bôscoli

Do pai, cassado pelo golpe de 1964, herdou a paixão pela música e as firmes posições politicas.  Nascida na zona sul carioca, Beth recebeu educação refinada, estudou balé e música desde a infância, torcia para do Botafogo e defendia a “Verde e Rosa”.

No ano de 1966  Beth Carvalho se encantou pelo samba participando do show “A Hora e a Vez do Samba”, com Nelson Sargento e  Noca da Portela. Em seguida, conquistou o terceiro lugar no Festival internacional da Canção de 1968 com a música “Andança” e nunca mais se separou dos palcos.

Beth Carvalho; Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho,

Beth se tornou cantora referencia no universo do samba, não só por sua própria carreira, mas também por descobrir e projetar nomes que se tornaram grandes na música brasileira, como Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho, e também colaborou, na década de setenta, para popularizar o repertório de Cartola.

Beth e Cartola

 Zeca Pagodinho assim se expressa: 

“Muita gente ela botou lá em cima. Eu costumo brincar, dizer que eu sou só um compositor e virei Zeca Pagodinho por causa da Beth”. 

Corajosa, com apenas 26 anos, pediu um samba inédito a Nelson Cavaquinho. Ganhou simplesmente “Folhas Secas”, que marca seu primeiro disco dedicado ao gênero –  Canto para um Novo Dia (1973).

Nelson Cavaquinho

Em 1974, veio “1.800 colinas”, de Gracia do Salgueiro. Em 1976, “As rosas não falam”, de Cartola. Em 1977, “Saco de feijão” de Francisco Santana e “O mundo é um moinho” também de Cartola. Em 1978, outra canção antológica: “Vou festejar” de Jorge Aragão, Dida e Neoci Dias, sucesso que impulsionou o pagode. Em 1979, “Coisinha do pai” de Jorge Aragão, Almir Guineto e Luiz Carlos. 

Nos últimos anos de vida, Beth Carvalho, apresentou sérios problemas de saúde convivendo com uma grave inflamação na parte inferior da coluna. Segundo o empresário da sambista, Afonso Carvalho, mesmo internada no hospital, Beth não conseguia ficar parada.

 “Ela foi uma guerreira que buscava nos palcos a força para se manter confiante, com alegria”.  

Seu ultimo show aconteceu em 2018. Bastante debilitada, Beth Carvalho se apresentou deitada, cantando seus últimos sucessos ao lado do Grupo Fundo de Quintal. 

Beth Carvalho

A sambista se despediu da vida aos 72 anos em abril de 2019. A postura perante a  música a imortalizou.  O samba sempre vai pedir a bênção à madrinha do samba.

Beth Carvalho e Caetano Veloso

Caetano Veloso assim se expressa:

 “Beth Carvalho é a Madrinha do renascimento do samba de raiz do Rio de Janeiro. É uma das maiores expressões da nossa cultura”;

Ouviremos, com saudades, um de seus primeiros sucessos – “Andança” composição de Paulinho Tapajós, Danilo Cayme e Edmundo Souto

Observe a beleza desta letra e a expressividade da interprete.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

EUNICE KATUNDA (1915 – 1990)

Uma das musicistas mais atuantes no cenário musical brasileiro do século XX
Eunice Katunda (1915 – 1990)

A mulher inspiradora dessa semana é a pianista, compositora, regente, arranjadora, Eunice do Monte Lima, ou Eunice Katunda que também já foi Catunda.

Eunice Katunda foi brilhante! Mas, como muitas mulheres no mundo, ainda tem sua história pouco ventilada. Graças a autores como Ester Scliar, Carlos Kater, Joana Holanda, Iracele Souza, bem como, o Instituto Piano Brasileiro,  o nome de Eunice Katunda  se mantem vivo.

Curiosamente, aos sete anos, a carioca Eunice entrou para a escola regular, mas nunca chegou a completar nem mesmo o curso primário, recebia ensinamentos em casa em forma de tutoria.

Eunice Katunda

Na música, foi considerada menina prodígio, iniciado cedo os estudos com a filha do compositor Henrique Oswald (1852 – 1931) – Mina Oswald. Entre os 9 e 12 anos passa a integrar a classe da pianista e compositora Branca Bilhar (1886 – 1891), em seguida, estuda com o célebre crítico musical Oscar Guanabarino (1851 – 1937).

Oscar Guanabarino (1851 – 1937)

Com onze anos deu um concerto no Instituto Nacional de Música recebendo uma quantia em dinheiro suficiente para comprar um piano Steinway.

 Aos 18 anos casa-se com o matemático Omar Catunda, muda-se para São Paulo, e, recebe aulas do compositor Camargo Guarnieri (1907 – 1993).

Eunice , Omar e Igor Catunda

Em 1944, muito bem recomendada pelo compositor Heitor Villa Lobos (1887-1959), realizou uma série de concertos na Argentina. No programa, Eunice já demonstrava sua preocupação em divulgar a música brasileira contemporânea, interpretando obras de Villa-Lobos, Oscar Lorenzo Fernândez (1897-1948), Camargo Guarnieri e dela própria.

Camargo Guarnieri (1907 – 1993)

Posteriormente, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro passando a integrar o Grupo Música Viva, liderado por Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), desafeto de Camargo Guarnieri.

O Grupo Música Viva, numa primeira fase, foi integrado por figuras tradicionais do meio musical carioca, como Luiz Heitor (1905 – 1992), e Villa-Lobos (1887 – 1959); sendo, logo a seguir,  integrado pelo jovem aluno de Koellreutter, Claudio Santoro(1919 – 1989).

A partir de 1944 entram no grupo os novos alunos de Koellreutter – Guerra Peixe(1914 – 1993), Eunice Catunda e Edino Krieger (1928). Nesta ocasião o grupo foi assumindo um ar de modernidade radical, confrontando-se com as tradições estabelecidas no meio musical.

Koellreutter
Claudio Santoro; Edino Krieger; Guerra-Peixe e Eunice Catunda

Nesta época Katunda faz uma importante viagem à Europa, junto com colegas e com o mestre Koellreutter, para fazer um Curso Internacional de Regência na Bienal de Veneza, onde permaneceu por nove meses, estabelecendo contatos importantes com músicos como Hermann Scherchen (1891-1966), Bruno Maderna (1920-1973) e Luigi Nono (1924-1990). 

Hermann Scherchen (1891-1966), Bruno Maderna (1920-1973) e Luigi Nono (1924-1990)

Em 1948 o grupo Música Viva sofre uma ruptura, praticamente deixando de existir, por divergências políticas entre Koellreutter e os jovens compositores, filiados ou simpatizantes do  Partido Comunista Brasileiro que passam a seguir a estética do realismo socialista com a qual Koellreutter não concordava.

Na década de 50  Katunda atua predominantemente em São Paulo. Entre suas atividades destacam-se: ministrar cursos de iniciação musical no Museu de Arte Moderna de São Paulo em iniciativa pioneira; criação e direção de um programa semanal na Rádio Nacional de São Paulo intitulado Musical Lloyd; atuação como pianista da Rádio Gazeta, além de atuar como compositora e arranjadora durante todo este período.

Katunda começa a rever os conceitos propagadas por Camargo Guarnieri e passa a concordar com muitas de suas ideias.

Em 1958 Eunice  recebe, pelo trabalho junto à Rádio Gazeta, o prêmio Radiolândia de melhor pianista atuante em emissoras brasileiras.

A década de 1960 foi marcada por uma intensa atividade como instrumentista e por mudanças na vida pessoal. Neste período realizou duas turnês aos Estados Unidos, apresentando-se no Carnegie Hall.

Carnegie Hall

Em 1964, separou-se de Omar Catunda. Em função disso, trocou o “C” de Catunda por “K” para dissociar seu sobrenome do ex-marido. Faleceu em 3 de agosto de 1990 na casa de seu filho Igor Catunda, em São José dos Campos (SP).

Infelizmente a obra de Eunice Katunda é pouco frequentada. Compositoras desta magnitude devem ser lembradas, estudas e divulgadas.

Ouviremos a obra Brasília de Eunice Katunda interpretada pela Orquestra sinfônica Nacional sob a regência de Ligia Amadio (1964) com a participação do Coral Brasil Ensemble da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Observe a a riqueza desta obra composta por uma brasileira sob a regência de uma maestrina.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

DE CHIQUINHA GONZAGA A MARIELLE FRANCO

Mulheres que Inspiram
Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935) Marielle Franco (1979 – 2018)

No mês das mulheres, o Papo Musical, se propôs a escrever sobre mulheres inspiradoras na música.  Este março, diferentemente de outros, chegou sem grandes comemorações.  Uma Pandemia em seu pior momento, mortes, desemprego, desespero, abandono.

Mulheres inspiradoras foi uma maneira de lembrar que a luta continua. Uma das sugestões vindas das redes sociais foi Chiquinha Gonzaga (1847 -1935). Mulher que nunca se negou a lutar por direitos, na época, inimagináveis, e, já foi tema de postagens anteriores desse Blog.

Chiquinha Gonzaga, pianista e compositora.

Chiquinha contrariou as normas sociais vigentes, separou-se do marido e conseguiu, contra tudo e todos, impor-se ao realizar sua música fora da vida doméstica, tornando-se a primeira maestrina a reger uma orquestra no Brasil. Ao se rebelar contra os costumes da elite carioca, Chiquinha Gonzaga passa a integrar um grupo de músicos que viria a se constituir no núcleo embrionário da música urbana brasileira. É autora de Abre Alas, primeira marchinha de carnaval brasileiro.

Chiquinha Gonzaga foi uma das mulheres a inspirar compositores a contar a história de “mulheres de luta” através de samba enredo nos carnavais cariocas.  Em 1985 e em 1997,  foi enredo das escolas Mangueira e Imperatriz Leopoldinense. 

Imperatriz Leopoldinense (1997)

Na década de 1960 as escolas de samba ganham força nas ruas, momento em que entra em cena o chamado samba enredo (também conhecido como de samba de enredo), subgênero do samba moderno, surgido no Rio de Janeiro nos anos de 1950, especialmente para o desfile de uma escola de samba. 

Carnaval Carioca (1960)

Todo ano, as academias,  promovem concursos internos, onde várias composições são apresentadas ao público em suas quadras, sendo que ao final, normalmente entre os meses de setembro e outubro, uma dessas músicas é escolhida como samba-enredo oficial para o carnaval do próximo ano.   

O samba campeão embala a escola durante a fase de preparação, ensaios técnicos até ser o ator principal no desfile de carnaval.  Interessante notar que para que um samba seja considerado samba-enredo, deve retratar, de forma fiel e inequívoca, o tema escolhido pela direção da escola.

Em 2021 não houve carnaval.  Não houve samba enredo, nem mesmo homenagem as “mulheres de luta”.

Lembramos, nesta edição, o samba enredo campeão de 2019. A Estação Primeira de Mangueira  sagrou se campeã do carnaval do Rio de Janeiro com o enredo  criado por Leandro Vieira, no qual, exaltou líderes que influenciaram a história do Brasil. O carnavalesco procurou retratar os marginalizados pela  história oficial, defendendo os pobres, negros e indígenas.

Desfile da Mangueira (2019)

Um dos momentos mais marcantes do desfile foi à inclusão de uma homenagem à vereadora  e ativista Marielle Franco (1979 – 2018), assassinada em março de 2018 e cujo crime permanece sem solução.

Ouviremos o samba campeão de 2019 de autoria de Deivid Domênico, Tomaz Miranda, Mama, Marcio Bola, Ronie Oliveira e Danilo Firmino, com solo da jovem, na época com 11 anos de idade, Cacá Nascimento.

Cacá Nascimento

Cacá assim se expressa sobre sua atuação:

“Estou muito feliz em representar essas mulheres. Mulheres que sofreram ou sofrem até hoje. Guerreiras que lutam por alguma causa.”

Observe a expressividade da interpretação da pequena Cacá Nascimento neste belo samba enredo.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

MARTHA ARGERICH

Toca com tamanha profundidade, emoção e risco que encanta plateias de todo o mundo.
Martha Argerich (1941)

Uma lenda viva, a pianista de sorriso fácil é reclusa, temperamental e imprevisível. Toca um piano como poucos no planeta, é mesmo um gênio que não consegue deixar de falar em música e de viver intensamente as obras que executa.

Martha Argerich tem uma vida bem fora dos padrões ortodoxos. Propensa a cancelar apresentações, há tempos deixou de assinar contratos, tendo os organizadores de assumir o risco de um cancelamento de ultima hora.

Martha Argerich

Muitos músicos vivem uma vida de uma ordem monástica, se concentrando na disciplina da música. Diferentemente da maioria, Argerich, acorda por volta de duas da tarde e estuda pela madrugada a fora. A história da pianista argentina é também sobre alguém com dons fora do padrão tentando encontrar um jeito de viver uma vida casual.

Martha Argerich

A filha mais nova de Martha, Stéphanie Argerich (1975), no documentário “Meu Sangue” (2012), retrata a intimidade da mãe. Segundo Stéphanie, ser filha de Martha Argerich é “como ser filha de uma deusa (…) ela é metade humana, metade deusa”. A filha do meio, Annie Dudoit, conta às câmeras que frequentar a escola era, em seu lar, uma espécie de rebelião.  Stéphanie termina o documentário de forma surpreendente. Ela pergunta à mãe se tocar o mesmo concerto várias vezes desgasta a obra, a pianista responde que não, pois a música sempre se renovava de algum modo, “um pouco como o amor”.

Martha Argerich e a três filhas

Uma das características de Martha é a lealdade com os amigos. Entre eles, dois dos pais de suas três filhas, o regente Charles Dutoit (1936) e o pianista e maestro Stephen Kovacevich (1940), foram sempre, além de companheiros, amigos muito presentes. 


Martha e Charles Dutoit
Martha e Stephen Kovacevich

São também muito próximos a ela, o pianista brasileiro Nelson Freire (1944), e seus parceiros de música de câmara, o violoncelista Mischa Maisky  (1948) e o violinista Gidon Kremer (1947). 

Nelson Freire e Martha Argerich

O pianista e regente Daniel Barenboim (1942) que a conhece desde que eram crianças prodígios na Argentina, há mais setenta anos, em depoimento sobre ela, diz:

Martha Argerich e Daniel Barenboim

“Não há ninguém hoje que eu conheça há tanto tempo quanto Martha, nosso relacionamento é baseado na música, é claro, mas também há um amor muito humano que nos conecta. (…) apenas os maiores artistas são capazes de manter o frescor da descoberta com a profundidade a reflexão, Martha Argerich é um deles. (…) Desde o começo, ela não era uma virtuosa mecânica, apenas preocupada com destreza e velocidade. Ela as dominou também, é claro, mas sua criatividade a permitiu criar uma quantidade e uma qualidade de sons no piano muito singulares.”

Seu fenomenal talento foi percebido desde a infância em Buenos Aires, onde estudou com o professor de origem italiana Vincenzo Scaramuzza (1885-1968) que disse sobre a aluna: “Argerich pode ter seis anos, mas sua alma tem 40”.

Martha ainda criança na Argentina

Sua carreira ganhou notoriedade aos 16 anos ao vencer os dois mais importantes concursos de piano europeus, o Busoni, na Itália, e a Competição Internacional de Genebra, consecutivamente, no intervalo de poucas semanas. A isso se seguiu uma série regular de concertos e louvores da crítica em uma vida itinerante para a qual Martha , revela que era jovem, tímida e despreparada para tamanho sucesso.

Martha Argerich

Aos 24 anos vence o Concurso Chopin de Varsóvia, passo decisivo para a sua carreira e reconhecimento internacional. Famosa pelas interpretações do grande repertório pianístico (Bach, Beethoven, Chopin, Schumann, Liszt, Debussy, Ravel, Bartók, Prokofiev), tendo trabalhado como solista com os mais famosos maestros e orquestras, Martha Argerich é considerada uma das maiores pianistas da atualidade.

Ouviremos o Concerto n. 3 em Do Maior, op. 26 de Sergei Prokofiev (1891 – 1953) com a pianista Martha Argerich sob a regência de André Previn (1929 – 2019) com a Orquestra Sinfônica de Londres.

Observe a intepretação dessa mulher inspiradora: “Martha toca piano brilhantemente, ferozmente e, talvez, melhor do que todo mundo na terra”.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

MÚSICA RUSSA DE CONCERTO

Produziu obras e nomes entre os mais importantes da cultura universal nos últimos duzentos anos

A Revolução Bolchevique de 1917 instaurou a União Soviética e transformou o Império Russo numa confederação de repúblicas socialistas. Atrás da “cortina de ferro” a União Soviética adotou o realismo socialista como estética oficial influenciando todas as gerações de músicos do século XX.  

Quem são estes músicos? Como é a música na Rússia? No que diz respeito à música folclórica há um som bem distinto de um instrumento de cordas com sonoridade bem peculiar, “a Balalaica”.   KalinkaKatiushaPoliushka Poliê e Suliko são algumas das  canções que compõem o repertório tradicional.

Balalaica

Já a musica de concerto produziu obras e nomes entre os mais importantes da cultura universal nos últimos duzentos anos. Os balés de Tchaikovsky, o afamado “grupo dos cinco” formado por Balakirey, Mussorgsky, César Cui, Kosakoy e Borodin, que influenciaram e formaram uma geração de sucessores representados pelos músicos: Stravinski, Prokofiev, Rachmaninov, Shostakovitch, Alyabyev, Glinka, Khachaturian, Scriabin e tantos outros.


Peter Ilyich Tchaikovsky (1840 – 1893)

A partir de consulta feita nas redes sociais sobre qual compositor russo falar no Papo Musical, o vencedor da enquete foi Alexander Nikolayevich Scriabin (1872 – 1915). O compositor e pianista russo iniciou com um estilo de composição tonal, inspirado na linguagem harmônica do afamado compositor polonês, da era romântica, Frédéric Chopin (1810 – 1849). Scriabin tinha apego ao passado e uma mente imaginativa que o transportava ao futuro.

Alexander Nikolayevich Scriabin (1872 – 1915)

O compositor russo desenvolveu, no decorrer de sua carreira, uma linguagem musical altamente  atonal que pode, atualmente, ser comparada com composições dodecafônicas e serialistas. É  considerado uma das figuras mais importantes da escola russa de composição do inicio do período moderno. Para o compositor austríaco, Arnold Schoenberg (1874 – 1951), criador do dodecafonismo,

Arnold Schoenberg (1874 – 1951)

“Scriabin é um dos mais originais, fascinantes, enigmáticos, revolucionários […] compositores do século”.

O compositor russo buscava incansavelmente uma linguagem própria emoldurada pelo período romântico, que se caracteriza pela valorização da individualidade dos artistas.  Seu catálogo de obras é prioritariamente composto por obras para piano solo, que inclui prelúdios, estudos, noturnos, valsas e mazurcas, entre outras formas musicais.  

A Grande Enciclopédia Soviética revela:

Nenhum compositor foi mais desprezado e ao mesmo tempo mais agraciado por amor…”.

Ouviremos o Estudo N.5 opus 42 de Alexander Scriabin interpretado pelo pianista russo Evgeny Kissin (1971).

Evgeny Kissin (1971)

Observe a identidade musical de Scriabin nesse estudo. Contrapondo com o seu misticismo há um pensamento bastante racional no que se refere à construção musical – geométrica e harmoniosa como a matemática. Scriabin é “Patologicamente Megalomaníaco”, e, ainda assim, extraordinário.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

UFG RECEBE IMPORTANTE ACERVO DE JOSÉ EDUARDO MARTINS

O pianista pesquisador do repertório não frequentado
José Eduardo Martins (1938)

O pianista e pesquisador brasileiro José Eduardo Martins nasceu em São Paulo em 1938. Oriundo de uma família dedicada às artes e ao conhecimento. O pai, o português José Martins, dedicou a fazer dos filhos homens que viriam ao mundo para fazer diferença. Dentre seus irmãos, o renomado jurista Ives Gandra Martins (1935) e o maestro João Carlos Martins (1940), que desde muito cedo iniciaram o estudo do piano.

José Eduardo Martins aos 9 anos de idade

Professor titular aposentado da Universidade de São Paulo – José Eduardo desenvolveu uma brilhante carreira como pianista e pesquisador. Possuidor de um rico acervo musical constituído de livros, revistas arbitradas e partituras, Martins escolheu a Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, para ser a beneficiária desse rico material bibliográfico.

Segundo Martins:

“O fato da UFG se encontrar distante do eixo geográfico São Paulo e Rio de Janeiro, que concentra as Universidades Federais e Estaduais com suas bibliotecas bem próximas, fez-me pensar nessa penetração mais a Oeste de nosso país. Concentrar-me na UFG é relevante pelo fato essencial de a Universidade Federal de Goiás ser uma das mais importantes do país”.

O Pianista José Eduardo Martins entregando o acervo para os funcionários da UFG

Ademais, Goiânia e o pianista José Eduardo Martins possuem uma relação afetiva de longa data. O pianista frequenta Goiânia desde a década de 1970, ministrando aulas, participando de bancas examinadoras e recitais promovidos pela Universidade Federal, bem como, por outras entidades artísticas espalhadas pela cidade, como o tradicional MVSIKA Centro de Estudos e a já extinta Pauta Escola de Artes.

O pianista pesquisador do repertório não frequentado
Ana Flávia Frazão/José Eduardo Martins/ Gyovana Carneiro em Goiânia

Ter sido escolhida para receber um acervo desta envergadura é, sem dúvida, uma grande honraria para a Universidade Federal de Goiás. A Escola de Música pretende alocar todo o material em uma sala na EMAC/UFG que terá, por mérito, o nome do pianista José Eduardo Martins, disponibilizando o acervo para toda a comunidade acadêmica.

Martins é Doutor Honoris Causa pela Universidade Constantin Brâncuşi da Romênia e Acadêmico Honorário da Academia Brasileira de Música. Recebeu, em 2004, a Ordem do Rio Branco, uma das honrarias mais significativas do governo brasileiro. Em 2011, foi agraciado com a comenda Officier dans l’Ordre de La Couronne, outorgada pelo Rei Alberto II, da Bélgica. Recentemente, juntamente com o musicólogo e autor português Mário Vieira de Carvalho (1943), tornou-se sócio honorário da Associação Lopes-Graça em Portugal.

José eduardo Martins (1938)

José Eduardo se dedicou ao repertório não frequentado, realizando ciclos com as integrais de compositores como Debussy (1862 – 1918), Scriabin (1872 – 1915), Rameau (1683 – 1764), Moussorgsky (1839 – 1881), Fernando Lopes-Graça (1906 – 1994) entre outros. Apresentou, em primeira audição, mais de 130 composições contemporâneas de autores de vários países. Realizou a gravação de 22 CDs na Bélgica, Bulgária e Portugal, lançados pela Labor (EUA), PKP (Bélgica), Portugaler, PortugalSom/Numérica (Portugal) e pelo selo De Rode Pomp, da Bélgica Flamenga.

Capas de CDs de José Eduardo Martins

Ele é autor de diversos livros sobre música e de mais de uma centena de artigos publicados em várias revistas e periódicos do Brasil e do exterior, incluindo artigos para a Biblioteca Nacional de Paris, Imprensa da Universidade de Coimbra e para a Universidade de Sorbonne. Além disso, foi responsável pela redescoberta, no fim dos anos setenta, do grande compositor romântico brasileiro Henrique Oswald (1852– 1931), realizando gravações, primeiras audições e edição de partituras de inúmeras obras para piano solo e camerística com piano do compositor.  Martins é autor do livro Henrique Oswald – Músico de Uma Saga Romântica.

Henrique Oswald – Músico de Uma Saga Romântica.

“(…) Ainda bem que o pianista, durante uma pausa, entre escalas e arpejos, contemplou o compositor com um livro que fez chorar de alegria. Lá no céu”. Oliver Toni (1926 – 2017)Compositor e maestro

Ouviremos o pianista José Eduardo Martins interpretar  L’Egyptienne de Jean-Philippe Rameau (1683 – 1764).

Observe a interpretação magistral do pianista José Eduardo Martins

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

O ADEUS A CHRISTOPHER PLUMMER

O capitão John Von Trapp do inesquecível filme – A  Noviça Rebelde

Christopher Plummer (1929 – 2021) 

O ator canadense Christopher Plummer (1929 – 2021)  que interpretou o capitão John Von Trapp em a Noviça Rebelde (The Sound of Music), um dos musicais mais famosos da história do cinema,  morreu aos 91 anos no ultimo cinco de fevereiro. A morte foi relatada por seu empresário que destacou seu senso de humor e sua fineza, além do talento, que alcançou várias gerações. A carreira do ator se estende por 75 anos, durante os quais trabalhou em quase 200 filmes e séries de televisão, além de ser um ator de teatro apaixonado pelas peças de  Shakespeare.

A família von Trapp no filme A Noviça Rebelde

Sua interpretação em Noviça Rebelde, no papel de capitão John Von Trapp,  foi inicialmente rejeitado por Christopher Plummer.  Curiosamente, o canadense, um homem do teatro, lamentou que sua voz tenha sido dublada em canções no filme. Anos depois, ao jornal The Guardian, confessou que havia aceitado:

“aquele maldito projeto apenas para fazer um musical no cinema”.

Segundo Plummer em entrevista à “People” (1982):

“Esses papéis sentimentais são os mais difíceis para eu fazer, especialmente porque fui treinado vocal e fisicamente para Shakespeare”. (…) “Para fazer um papel nojento como von Trapp, você tem que usar todos os truques que conhece para preencher a carcaça vazia do papel. Esse maldito filme me segue como um albatroz”.

Filme a Noviça Rebelde

Por anos, ele fez pouco de “A noviça rebelde”, considerando o filme uma “armadilha melosa”, até passar a compartilhar a opinião popular sobre o clássico, um ícone do entretenimento familiar afetuoso, no qual o ator contracena com Julie Andrews (1935).

Julie Andrews (1935) no filme A noviça Rebelde (1965)

Christopher Plummer e  Julie Andrews  ficaram conhecidos no planeta como  – A Noviça Rebelde e o Capitão Von Trapp. Até os dias de hoje são lembrados por esta brilhante atuação.

 Julie Andrews e Christopher Plummer

A Noviça Rebelde é, sem dúvidas, um dos grandes clássicos do cinema ocidental.  É praticamente impossível alguém não ter ouvido falar dele, pelo menos, uma vez, ou conhecer uma de suas inesquecíveis e encantadoras músicas. O campeão de bilheteria e um dos filmes mais assistidos de todos os tempos, é baseado em um musical da Broadway, criado por Howard Lindsay (1989 – 1968) e Russel Crouse (1893 – 1966), o qual foi adaptado da obra cinematográfica de 1956, A Família Trapp, e do livro The Story of the Trapp Family Singers, escrito pela verdadeira Maria Von Trapp. A Noviça Rebelde é inspirada em uma história real.

O casal Maria e John Von Trapp (verdadeiros)

No longa – A noviça Maria não consegue se adaptar muito bem às regras do convento, por esta razão, a Reverenda Madre resolve afasta-la temporariamente de suas atividades e a envia para trabalhar como governanta na casa da família Von Trapp, cuidando das sete crianças do viúvo John Von Trapp, Maria chega para mudar a vida de todos ali e trazer, principalmente, o amor, a alegria e a música de volta àquela casa.

Filme A Noviça Rebelde

Com um roteiro simples trabalhado de forma brilhante, o filme é impecável.  A questão do Nazismo e do Anschluss (anexação da Áustria à Alemanha Nazista) é retratada de uma forma branda, o suficiente para compreendermos um pouco do momento histórico em que a narrativa se passa. Enfim, um filme adorável, no qual a música contagia e encanta. Um programa para assistir muitas e muitas vezes.

O filme Noviça Rebelde (1955) venceu o Oscar (1966) na categoria – melhor diretor Robert Wise; e o Globo de Ouro (1966) nas categorias – Melhor Filme e Melhor Atriz –Julie Andrews.

Ouviremos o trecho do filme em que Maria (Julie Andrews)e as crianças passeiam pela Áustria cantando Dó Ré Mi.

Observe a maravilha da trilha sonora deste filme. Difícil escolher! Vale a pena ouvir cada canção deste incrível e inesquecível filme.

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

CARL PHILIPP EMANUEL BACH (1714 – 1788)

Muito além de filho de Bach

Carl Philipp Emanuel Bach (1714 – 1788)

O grande patriarca da dinastia Johann Sebastian Bach faleceu em 1750 deixando um legado impressionante: além de suas centenas de obras, uma geração inteira de filhos que se dedicaram à música.

Família Bach

Um de seus 20 filhos, Carl Philipp Emanuel Bach, nasceu na cidade de Weimar em de março de 1714. Seguindo o costume da família, foi o próprio Johann Sebastian a assumir a educação musical do menino.

Johann Sebastian Bach

Curiosamente, quando, na segunda metade do século 18, se ouvia um músico europeu falar ou escrever sobre o “Grande Bach”, ele normalmente não estava se referindo ao célebre Johann Sebastian (1685 – 1750), e sim a seu segundo filho, Carl Philipp Emanuel Bach (1714 – 1788).


Carl Philipp Emanuel Bach, retratado por Franz Conrad Löhr

 Entre os vários irmãos que se tornaram músicos profissionais, Carl Philipp Emanuel Bach era considerado um vanguardista, um revolucionário, um mensageiro de uma nova época musical. Carl Philipp foi ídolo até mesmo para a geração seguinte de músicos.

Para W. A Mozart Carl Philipp era:

“(…) o pai, nós somos os filhos”.

Segundo L. V Beethoven:

“A maior parte da formação de Haydn derivou de um estudo de sua obra C. P. E. Bach”.

Em 1738, Carl Philipp recebeu uma tentadora oferta de emprego. O príncipe herdeiro Frederico (futuro Rei Frederico 2º da Prússia, apelidado “o Grande”) convidou-o para trabalhar como cravista da orquestra de sua corte. O patriarca dos Bach advertiu o filho sobre a superficialidade da música da corte prussiana: “Isso é azul-de-Berlim, desbota!”. Mas o jovem músico queria trilhar seus próprios caminhos, e aceitou a oferta do príncipe onde acabou permanecendo 30 anos.


O concerto de flauta em Sanssouci’, de Adolph Menzel (Berlim, Alte Nationalgalerie). Carl Philipp Emanuel Bach toca junto ao rei Federico o Grande, flautista, na presença de Johann Joachim Quantz y Franz Benda”

Por diversas vezes, Carl Philipp Emanuel pediu para ser exonerado do serviço prussiano. Em vão, pois Frederico, não admitia abrir mão de seu “homem do teclado”. Somente em 1768 deixaria o músico partir, quando o conselho municipal de Hamburgo ofereceu a Carl Philipp o prestigioso cargo de diretor musical das cinco grandes igrejas da cidade. Enfim,  sentia-se um artista livre: organizava seus próprios concertos, tornou-se homem de negócios autônomo, publicando suas obras através de editora própria.

Ao lançar sua primeira coleção de  “Peças de teclado para conhecedores e diletantes, a crítica nos jornais alemãesforam entusiásticas:

“Seu poder de invenção parece ser ilimitado. Cada uma de suas sonatas é um original inédito. E quando se escuta o próprio Bach tocar essas obras-primas! Ah, então a pessoa fica sem saber se admira mais o intérprete ou o compositor.”

Carl Philipp Emanuel Bach atuou durante 20 anos em Hamburgo, tornando-se um dos expoentes musicais, descrevendo assim a sua estética:

“Eu penso que a música deve predominantemente tocar o coração. Faz parte da verdadeira arte musical uma liberdade que exclui tudo o que é escravo e mecânico. Deve-se tocar a partir da alma, e não como um pássaro domesticado.”

Carl Philipp Emanuel Bach morreu em Hamburgo, cercado de honrarias. No entanto, a partir da segunda metade do século 19, ficou relegado ao segundo escalão da história da música. Ele fora o elo entre o Barroco e o Classicismo-Romantismo, perdido entre a genialidade do pai J.S. Bach e a popularidade de Haydn (1732 – 1809), Mozart (1756 – 1791) e Beethoven (1770 – 1827), passando para história como o “filho de Bach”.

Haydn, Mozart e Beethoven

Ouviremos de Carl Philipp Emanuel Bach o Concerto para Flauta em ré Menor, interpretado pelo solista Jean-Pierre Rampal (1922 – 2000), flauta, Huguette Dreyfus (1928 – 2016), harpsicórdio e orquestra de câmara sob a regência de Pierre Boulez (1925 – 2016).

Observe ao ouvir esta gravação: Tudo é extremo “Seus movimentos rápidos acontecem na velocidade do relâmpago, parecem querer fugir para outro mundo; e seus movimentos lentos são impregnados de uma incrível dramaticidade e grande profundidade”

*Depois, deixe seu comentário e vamos papear também nas Redes sociais!

%d blogueiros gostam disto: