FRANZ LISZT

“um fenômeno da técnica pianística”

Franz Liszt (1811-1886)

Considerado um dos maiores pianistas de todos os tempos, Franz Liszt (1811-1886) nasceu na região da atual Hungria, no dia 22 de outubro de 1811. Iniciou seus estudos musicais com o pai Adam Liszt, que tocava violino e cantava na igreja.   

Adam Liszt – pai de Franz Liszt

 Devido ao seu  rápido progresso e  demonstração de enorme talento, a família Liszt  vai morar em Viena, onde Franz  estuda piano com o  renomado professor  Carl  Czerny (1791 – 1857),  e teoria musical com o famoso rival de W. A.  Mozart (1756 – 1791), o mestre capela  Antônio Salieri (1750 – 1825)

Carl  Czerny e Antonio Salieri

Nos primeiros anos de estudo já se apresenta brilhantemente sendo apontado pelos  jornais da época como um fenômeno da técnica pianística.  Franz Liszt foi um dos mais proeminentes representantes “Neudeutsche Schule” (Nova Escola Alemã). Deixou obras que tanto influenciaram seus contemporâneos quanto anteciparam algumas ideias e tendências do século 20.

Frazn Liszt

A partir de 1830, ainda na França, estabelece sólida amizade com o pianista polonês Frédéric Chopin (1810 – 1849) e com o violinista italiano   Niccolò Paganini (1782 – 1840). Músicos que influenciaram suas obras para piano.

Chopin, Liszt e Paganini

Liszt era muito popular, seus concertos arrebatavam grandes plateias, muitos admiradores e amores.  A “Lisztomania” dominava a Europa, e a carga emocional dos concertos de Liszt causavam a muitos ouvintes reações descritas como histéricas, lembrando os concertos de música POP da atualidade.

Liszt viveu vários e conturbados casos amorosos, talvez, uma destas paixões, o tenha inspirado compor uma de suas mais românticas obras, a popular  Liebesträume n.º 3, conhecida como “Sonho de Amor”, que  faz parte do repertório de grandes pianistas do passado e da atualidade.

“Sonhos de Amor” é um compêndio de três peças para piano publicado em 1850. Liszt tinha profunda conexão com a literatura, e, a princípio, as três Liebesträume (sonhos de amor) foram concebidas a partir de poemas de Ludwig Uhland (1787 – 1862) e Ferdinand Freiligrath(1810 – 1876).  Em 1850, duas versões apareceram simultaneamente como um conjunto de canções para soprano e piano, com transcrição para piano solo. Os dois poemas de Uhland e o de Freiligrath descrevem três diferentes formas de AMOR. 

Ludwig Uhland (1787 – 1862) e Ferdinand Freiligrath(1810 – 1876).

O poema de Freiligrath para o terceiro famoso “noturno” fala de um amor incondicional e maduro:

“Ame enquanto puder! A hora virá quando estiver junto ao túmulo e aos prantos”Freiligrath

Ouviremos Sonho de Amor interpretado pelo pianista chileno Claudio Arrau (1903 – 1991).

Observe o tema que sempre se repete, e, desfrute desta bela interpretação.

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CARNAVAL DOS ANIMAIS

uma brincadeira musical de Camille Saint-Saëns
Camille Saint-Saëns (1835-1921)

Carnaval dos Animais é uma peça para dois pianos e orquestra, composta em 1886 quando  o compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921), passava férias em uma pequena aldeia na Áustria, após ter retornado de uma frustrante turnê na Alemanha.

 Culto, versátil e refinado, Saint-Saëns escreve o Carnaval dos Animais como uma brincadeira para divertir seus amigos na época do carnaval e criticar o cenário musical parisiense no fim do século XIX.  Por precaução, não permitiu que a obra fosse publicada, temia que ela arruinasse sua reputação de “compositor sério”. Ironicamente, O Carnaval dos Animais figura, desde sua estreia pública em 1922, um ano após a morte do compositor, entre suas obras mais apreciadas e populares.

Camille Saint-Saëns

Repleta de referências a outros compositores, a obra foi executada apenas duas vezes antes da morte de Saint-Saëns em 1921. A exceção é – “O Cisne” para piano e violoncelo, sendo essa a peça mais conhecida do Carnaval.

Camille Saint-Saëns
Rameau; Offenbach; Mendelsshon; Czerny e Berlioz

O Carnaval dos Animais é uma suíte composta por 14 movimentos, nos quais 13 deles descrevem personagens.

I – Introdução e Marcha Real do Leão com tema originalde  SaintSaëns, os dois pianos trinam e arpejam; as cordas abrem a marcha do soberbo animal, imitando os rugidos do Leão;

o II movimento descreve as Galinhas e Galos com um breve trecho à moda do compositor francês Jean-Philippe Rameau (1683 – 1764);

o III descreve as Mulas, animais muito velozes, “asnos selvagens” – com tema original de Saint-Saëns, os dois pianos lançam-se em escalas em clima de loucura, e nunca se alcançam;

o IV movimento descreve as Tartarugas, Saint-Saëns faz uma paródia lenta ao afamado Can Can de Offenbach (1818 – 1880);

o V descreve O Elefante fazendo uma paródia lenta de “Dança das  Sílfides” de“A Danação de Fausto” do compositor francês Louis-Hector Berlioz (1803 – 1869) com alusão ao “Scherzo” de “Sonho de uma noite de Verão” do alemão Felix Mendelsshon (1809 – 1847);

o VI movimento apresenta o Canguru, com tema original do autor, representando os pianistas que “saltitam”, ‘hesitam’ e “param”;

o VII descreve o  Aquário com ondas, natação e gotas de água, sendo uma das peças mais criativas do Carnaval, cheia de magia e mistério;

o VIII movimento descreve os Personagens de orelhas compridas, os violinos se alternam na imitação do relinchar dos burros;

o IX descreve o cuco nas profundezas dos bosques;

o X movimento descreve os Pássaros lembrando os passarinhos em revoada;

o XI movimento, ironicamente, Saint-Saëns descreve o  pianista iniciante que tanto o incomodava – segundo o compositor, “pianistas iniciantes são verdadeiros animais, e não dos menos barulhentos”, o compositor faz uma alusão aos afamados estudos de Carl Czerny (1791 – 1857);

o XII movimento o compositor descreve os Fósseis, representando “as antiguidades”, utilizando de citações de sua “Danse Macabra”, como se os ossos batessem uns nos outros;

o XIII é o mais famoso dos movimentos, descreve O Cisne, com um belo tema original de Saint-Saëns que se tornou um hino dos violoncelistas;

o XIV – Final é o desfile da bicharada, onde aparecem os principais temas ouvidos durante a obra, inclusive a dos pianistas.


CARNAVAL DOS ANIMAIS

Ouviremos Carnaval dos Animais de Camille Saint-Saëns, em sua íntegra, em gravação no Japão em 2014 com Martha Argerich, Gidon Kremer, Akane sakai, Yuzuko Horigome, Yoshiko Kawamoto, Giedre Dirvanauskaite, Shu Yoshida, Juliette Hurel, Raphael Sévère, Sawako Yasue.

Observe a ironia e a beleza do Carnaval dos Animais nesta interpretação impecável.

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O ADEUS A ZUZA HOMEM DE MELO

“Se você pergunta se é possível formar uma nova geração como a dos anos 60, posso responder: é perfeitamente possível, desde que surja um novo João Gilberto


ZUZA HOMEM DE MELO (1933 – 2020)

O Brasil perdeu um dos maiores estudiosos da música brasileira, José Eduardo Homem de Melo (1933 – 2020), mais conhecido como Zuza. Pesquisador, produtor e crítico musical, morreu neste ultimo 04 de outubro em São Paulo aos 87 anos.

 A música foi sua vida. Trocou a faculdade de engenharia pelo contrabaixo, estudou musicologia na afamada Julliard School of Music, desembarcando, no final dos anos 50, na Tv Record, onde fez uma revolução como técnico de som, tornando-se o homem de confiança do proprietário da emissora, Paulo Machado de Carvalho.

Assim relata Zuza sobre seus primeiros anos na Tv Record:

“Num programa musical, a música tem de sair da melhor forma possível, apesar das limitações dos aparelhos de televisão da época. Foi o que eu fiz, colocando mais microfones, dando destaque a instrumentos ignorados pelos técnicos das demais emissoras, como contrabaixo, violão, guitarra”.

ZUZA HOMEM DE MELO

Homem de Melo descobriu talentos, produziu e discutiu a música popular brasileira com seriedade e competência. Segundo ele o termo “MPB é um rótulo em que cabem vários gêneros e, com o tempo, foi ficando mais abrangente em relação a esse núcleo inicial”.


Música com Z

Com larga experiência como produtor e diretor musical, dirigiu inúmeros programas, festivais, shows, espetáculos e concertos. Além de seus trabalhos na Tv Record, na Rádio Jovem Pan, no Jornal o Estado de São Paulo, dentre outros, contribuiu de forma pontual para o estudo da Música Popular Brasileira ao coordenar a publicação da Enciclopédia da Música Brasileira e editar a coleção didática História da Música Popular Brasileira.

Zuza Homem de Melo também publicou: Música popular brasileira cantada e contada; A canção no tempo; João Gilberto; A Era dos Festivais; Música nas veias: memórias e ensaios; Eis aqui a bossa nova; Música com Z e Copacabana: a trajetória do samba-canção.   


A TURMA DOS ANOS 60

Assim Homem de Melo definiu uma década:

 “A Bossa Nova foi o êmulo de todos os compositores brasileiros da geração dos anos 60. Todos se tornaram o que seriam, mais especificamente, em função do João Gilberto, que foi o agente provocador de um número razoável de compositores talentosos. (…) A música de João Gilberto os atraiu de tal forma que os fez mudar de ideia e resolver seguir carreira de cantor, de compositor, de músico. A partir de João Gilberto surge essa geração de grandes talentos. Se você pergunta se é possível formar uma nova geração como a dos anos 60, posso responder: é perfeitamente possível, desde que surja um novo João Gilberto”.

Segundo sua esposa, Ercília Lobo, na semana anterior a sua partida, Zuza Homem de Melo, havia concluído a biografia do músico  João Gilberto (1931-2019). Homem de Melo será sempre lembrado pela música popular brasileira.


ZUZA  e JOÃO GILBERTO

Em sua homenagem ouviremos o “agente provocador” João Gilberto em Show de comemoração dos 50 anos da Bossa Nova em Outubro de 2008 no Auditório Ibirapuera em São Paulo.

JOÃO GILBERTO

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PIXINGUINHA

“Estamos diante do maior músico popular que já tivemos em todas as épocas”

Compositor emblemático da música popular brasileira, Alfredo da Rocha Vianna Filho, mais conhecido como Pixinguinha (1897-1973), foi um músico brasileiro, autor da música “Carinhoso”, em parceria com João de Barro. Arranjador, instrumentista e compositor, um dos maiores representantes do “choro” brasileiro.

O apelido “Pixinguinha” foi resultado do nome colocado por sua avó Edwiges, africana de nascimento, derivado do dialeto natal, “Pizindin” que quer dizer: MENINO BOM, que depois virou Pixinguinha.

 As primeiras lições de flauta foram dadas pelo pai, Alfredo da Rocha Vianna, Aos oito anos quando a família foi morar em um casarão, na Rua Vista Alegre, logo apelidado de “Pensão Viana”, pois estava sempre cheio de gente.

PIXINGUINHA

Com 12 anos Pixinguinha já dominava os conhecimentos de teoria musical. Nessa época, tocava flauta, cavaquinho e bandolim, mas sonhava com uma clarineta de sons agudos.

Na década de 40, Pixinguinha trocou a flauta pelo saxofone e se interessou pelo jazz. Tornou-se amigo de Louis Armstrong sem deixar de ser o senhor absoluto das rodas de choro.

PIXINGUINHA e LOUIS ARMSTRONG

Pixinguinha teve uma movimentada e eclética carreira musical.  Em 1962, teve como parceiro Vinicius de Moraes na trilha sonora do filme “Sol Sobre a Lama”. 


PIXINGUINHA e VINICIUS DE MORAES

Segundo o Jornalista Lúcio Rangel:

“Em todas as suas manifestações de arte, Pixinguinha revela-se admirável, o que nos leva a afirmar, com toda a serenidade, estamos diante do maior músico popular que já tivemos em todas as épocas”

Lamentavelmente, em 1964, sofreu um infarto. Curiosamente, enquanto esteve internado compôs vinte músicas, uma por dia, entre elas, as valsas: Solidão, Mais Quinze dias e No Elevador

Pixinguinha disse:

“Hoje só quero saber de sossego e de viver em paz com todo mundo. Tenho medo que a morte me apanhe de surpresa”.

PIXINGUINHA

 Pixinguinha faleceu no Rio de Janeiro, no dia 17 de fevereiro de 1973, mas sua obra o mantem vivo.

 “Rosa”, uma das mais belas canções da história do choro, tanto na versão original, sem letra, quanto na versão mais conhecida, com letra de Otávio de Souza.

“O autor dessa letra é Otávio de Souza, um mecânico do Engenho de Dentro, bairro carioca, muito inteligente e que morreu novo.”(Pixinguinha)

Segundo Pixinguinha, a valsa foi composta em 1917 e o título original era “Evocação”, só recebendo letra muito mais tarde. Conta à lenda que Souza aproximou-se de Pixinguinha enquanto o mestre bebia em um bar do subúrbio carioca para falar que havia uma letra que não saía de sua cabeça toda vez que ouvia a valsa, e, Pixinguinha assim que ouviu ficou realmente maravilhado!

PIXINGUINHA

A gravação feita por Orlando Silva (1915-1978), com uma interpretação magistral, foi responsável pela popularização de “Rosa”.

A gravação que iremos ouvir é do Sexteto vocal ORDINARIUS. Com arranjo do diretor musical do grupo, Augusto Ordine. “Rosa” é executado à cappella (sem acompanhamento instrumental), pelos músicos André Miranda, Augusto Ordine, Letícia Carvalho, Luiza Sales, Maíra Martins e Marcelo Saboya.

Observe a riqueza desta intepretação com arranjo primoroso e vozes soando como verdadeiros instrumentos.  Vale a pena conferir!

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UM PIANO E DOIS INSTRUMENTISTAS

“O dueto de piano é um caso único onde ocorre uma performance musical de duas pessoas, usando plenos recursos de um só instrumento”

Wolfgang Amadeus Mozart e a irmã tocam a quatro mãos, observados pelo pai. A mãe, já falecida, aparece no retrato ao fundo. Quadro de Della Croce.
Fonte:
Infopédia

Peças para dois executantes em um piano, isto é piano a quatro mãos. Algumas peças inglesas para piano a quatro mãos datam do início do século XVII, mas as primeiras obras primas do gênero são as Sonatas de Mozart (1756 -1791).

Schubert (1797-1828), Schumann (1810 – 1856)e Brahms (1833 – 1897) são alguns dos nomes que enriqueceram o repertório do século XIX, e, desde então compositores do mundo todo, incluindo os compositores brasileiros, escreveram e ainda escrevem obras notáveis para esta formação.

Brahms, Schubert, Schumann

A música para piano a quatro mãos ocupa lugar de destaque no repertório camerístico. Constitui-se em excelente motivação para pianistas e importante ferramenta pedagógica no ensino do piano. Foi na passagem do séc. XVIII para o XIX que surgiram as primeiras transcrições para piano a quatro mãos, que logo se tornaram o principal meio de divulgação da música sinfônica, música de câmara e outros gêneros – não podemos esquecer que naquela época não havia outros meios de comunicação como o rádio e as gravações tão comuns atualmente.

O sucesso deste repertório foi tão grande que provocou um enorme número de transcrições de outras formas musicais como: oratórios, trechos de ópera, danças populares e todo tipo de obras dedicado tanto para amadores, visando à prática doméstica de música, como para pianistas profissionais, impulsionando os compositores a escrever peças originais para este gênero.

A relevância deste momento musical é muito bem relatada por Cameron McGraw no prefacio de seu trabalho sobre o repertório de piano a quatro mãos:

“O assombroso crescimento que teve a literatura de quatro mãos a fez tornar tão popular que acabou se constituindo numa instituição social da crescente classe média. […] O dueto de piano é um caso único onde ocorre uma performance musical de duas pessoas, usando plenos recursos de um só instrumento, podendo executar com muita eficácia uma obra escrita originalmente ou especialmente arranjada para esta formação. Além disto, possui um repertório surpreendentemente abundante e de notável diversidade.”

No Brasil, considerando que a partir de meados do séc. XIX o piano se tornou o instrumento preferido da sociedade brasileira, a partir, especialmente, do desenvolvimento da prática domestica de música em saraus familiares, surgiram os duos de piano a quatro mãos e, com eles, um repertório de transcrições e obras originais de compositores nacionais.

Sarau no Império

Na prática do piano a quatro mãos predomina a existência de laços de intimidade dentre seus executantes; irmãos, cujo mais célebre exemplo é o de Mozart e sua irmã Nannerl, casais como Robert e Clara Schumann, professores e alunos, amantes e amigos. Talvez estes laços pudessem ser justificados pelo misto de proximidade e embate entre os corpos que perfazem a execução, possibilitando ao ouvinte um espetáculo também visual.


Nannerl  e Wolfgang Mozart 

No Brasil percebe-se a prática do piano a quatro mãos entrelaçando os fatos históricos e socioculturais do passado (desde a chegada da corte em 1808) e do presente. O repertório brasileiro para piano a quatro mãos esteve e está presente na Vida Doméstica, no Entretenimento, como Ferramenta Didática, na Economia e em Arranjos e Transcrições. Atualmente o repertório para piano a quatro mãos faz parte das grades curriculares das Universidades, os compositores de hoje escrevem obras para este repertório que já alcançou os Palcos de Concerto apontando para a relevância deste repertório também na música brasileira.

Ouviremos o pianista brasileiro Nelson Freire (1944) e a pianista argentina Martha Argerich (1941), ícones do piano no mundo,  tocando uma obra brasileira.


Nelson Freire (1944) e Martha Argerich (1941)

A Congada de Francisco Mignone (1897 – 1986) integra a ópera o Contador de Diamantes composta em 1921, transcrita para piano a quatro mãos e dois pianos pelo próprio Mignone em 1971.

Francisco Mignone (1897 – 1986)

Observe na interpretação de Nelson e Martha a perícia na manipulação do tema tradicional utilizado por Mignone, a riqueza rítmica e o colorido orquestral. Vale a pena ouvir esta preciosa gravação.

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FRANCIS JEAN MARCEL POULENC

“meio monge, meio mau rapaz”

Francis Poulenc (1899-1963)
Ilustração  – Eleni Kalorkoti

O compositor e pianista francês Francis Jean Marcel Poulenc (1899-1963), juntamente com os compositores Georges Auric, Louis Durey, Arthur Honegger, Darius Milhaud e Germain Tailleferre, formou o grupo denominado “Os seis franceses”. As ideias que supostamente uniam o grupo eram uma fidelidade à simplicidade e integridade, evitando o que é formal e acadêmico, e a incorporação de elementos da música popular, especificamente o jazz e as canções do teatro de variedades.


Les Six – Os Seis Franceses
Francis Poulenc, Germaine Taileferre, Louis Durey, Jean Cocteau,
Darius Milhaud, Arthur Honegger.
Esboço de Georges Auric na parede atrás do Grupo dos Seis.

 Embora as ideias do “Grupo dos Seis” tenham se firmado na história da música, o grupo nunca foi muito coeso e seus membros se moveram em diferentes direções, depois que a associação, que durou apenas alguns anos, se desfez.

Dentre os membros do grupo, Poulenc, foi o mais consistente em desenvolver e sustentar seu próprio estilo.  Simplicidade, clareza e inclusão de influências da música popular fazem parte do universo de sua obra.

Em artigo no Paris-Presse” de Julho de 1950, assim o crítico Claude Rostand (1912-1970) descreve o compositor francês, em uma etiqueta que lhe ficou associada para o resto da vida:

“meio monge, meio mau rapaz”  “le moine et le voyou”


Francis Poulenc (1899-1963)

O ambiente parisiense da época é fielmente representado nas obras de Poulenc. Sua música, eclética e ao mesmo tempo pessoal, é essencialmente melodiosa, emoldurada pelas dissonâncias do século XX.  Poulenc tem talento, elegância, profundidade de sentimento e um doce-amargo que são derivados da sua personalidade melancólica e ao mesmo tempo alegre.

Embora Poulenc possa nunca ter conhecido Édith Piaf (1915-1963), os dois músicos possuíam muitos pontos em comum.  Talento, profundidade de sentimentos, a vida parisiense e uma alegre melancolia. Poulenc homenagea Piaf com o Improviso para Piano n. 15 em dó menor composto em 1959.


Édith Piaf (1915-1963)

Ouviremos o Improviso para Piano n. 15 em dó menor interpretado pelo pianista francês Pascal Rogé (1951).

 Observe no Improviso de Francis Poulenc  a elegância e profundidade de sentimento do “doce-amargo” tão presente na obra do compositor e da homenageada.

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O CONCERTO N.2 EM DÓ MENOR PARA PIANO EORQUESTRA DE SERGEI RACHMANINOFF

Remissão de um compositor

Retrato de Rachmaninoff (1873 – 1943)
por  Konstantin Somov (1869 – 193

Após o fracasso da estreia de sua primeira sinfonia, o compositor e pianista russo Sergei Rachmaninoff (1873 -1943), entra em depressão profunda, permanecendo sem compor por vários anos.

Foi realmente desastrosa a estreia de sua Primeira Sinfonia, op. 13 sob a direção de Alexander Glazunov (1865 – 1936). Na manhã seguinte à estreia, o compositor César Cui (1935 – 1918) escreve:

“se houvesse um conservatório no inferno, Rachmaninoff iria receber o primeiro prêmio por sua Sinfonia, tão diabólicas as discórdias que ele coloca diante de nós”. 


Sergei Rachmaninoff (1873 – 1943)

 Segundo relatos, desolado no primeiro momento, o compositor consegue sair da depressão através da hipnoterapia e psicoterapia ministradas pelo doutor Nikolai Dahl (1860 – 1939). O médico russo era especialista em neurologia, psiquiatria e psicologia.  Dahl era também violista amador, chegando a integrar o naipe de viola na orquestra de estreia do concerto opus 18. Foi para o médico que Sergei Rachmaninoff dedica seu afamado Concerto n. 2 opus 18 em dó menor para piano e orquestra.

Nesta obra composta em 1901, marco de sua cura, o compositor reúne aspectos essenciais de sua arte. Sua música fundamentalmente russa demonstra a influência recebida por seu ídolo de juventude Tachaikovsky (1840 – 1893). Rachmaninoff constrói no concerto n. 2, de forma magistral uma melodia lírica expandida a partir de pequenos motivos.

Segundo Rachmaninoff:

“cada movimento foi construído em torno de um ponto culminante. (…) Tal momento deve realizar-se como o romper da fita de chegada ao fim de uma corrida, deve agir como a libertação do último obstáculo material, vencendo a última barreira entre a verdade e sua formulação”.

Sergei Rachmaninoff (1873 – 1943)

Acredito que você leitor, já tenha ouvido as várias versões do concerto n. 2 em dó menor de Sergei Rachmaninoff. A canção popular estadunidense “All By Myself” cujo sucesso foi escrito por Eric Carmen e gravado em 1994 por Sheryl Crow e em 1996 por Celine Dion, é um arranjo temático do segundo movimento desse concerto. O tema do concerto n. 2 foi também popularizado no filme “O Pecado Mora ao Lado” (1956), dirigido por Billy Wilder e estrelado por ninguém menos do que Marilyn Monrroe, Tom Ewel e Evelyn Keyes.

Curiosamente, este concerto também era uma das músicas favoritas da Princesa Diana. Segundo o livro “Diana crônicas íntimas” de Tina Brown, a princesa costumava ouvi-lo ao escrever cartas e em momentos de descanso.

Princesa Diana (1961 – 1997)

Ouviremos o concerto n. 2 opus 18 de Sergei Rachmaninoff interpretado pelo pianista brasileiro Nelson Freire (1944) com a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo sob a regência do Maestro Alexander Dmitriev (1935).

Nelson Freire (1944)

 Observe que este concerto inicia com uma série de acordes intercalados por uma nota grave, oscilando lentamente, lembrando um pendulo. Pode ser uma referencia aos pêndulos utilizados em seções de hipnose. Não podemos afirmar ao certo, mas não deixa de ser uma curiosa coincidência.

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DALVA E HERIVELTO – UMA CANÇÃO DE AMOR

Uma cantora que influenciou gerações

ADRIANA ESTEVES E FÁBIO ASSUNÇÃO

 

Estrela máxima da Era de Ouro do Rádio, dona de uma voz poderosa, cuja extensão ia do contralto ao soprano, apelidada de “Rouxinol do Brasil”, Dalva de Oliveira nasceu no dia 05 de maio de 1917 em Rio Claro (SP). 

O centenáio da cantora em 2017 foi o mote para a criação de um espetáculo musical que acabou se transformando em CD duplo pela gravadora  Biscoito Fino, também disponível em plataformas digitas.   Com idealização e produção de Thiago Marques Luiz, os roteiros dos espetáculos  levaram a assinatura do pesquisador da música brasileira Ricardo Cravo Albin.

Segundo Thiago Marques Luiz, “A Dalva teve importância fundamental pra formação de toda uma geração de cantoras, incluindo a de Ângela Maria, que mais tarde influenciou Elis Regina, Maria Bethânia, Alcione e tantas outras.  É um dos primeiros ícones femininos da música brasileira”. 


DALVA DE OLIVEIRA

Filha de pai carpinteiro  e mãe portuguesa, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro aos 18 anos em busca de fama.

Nos primeiros anos na “cidade maravilhosa” Dalva de Oliveira frequentava o Cine Pátria, onde conheceu seu grande e conturbado amor, o também cantor e compositor, Herivelto Martins


HERIVELTON MARTINS (1912 – 1992)

Para além do conturbado relacionamento, Dalva, Herivelto e Nilo Chagas, formaram em 1937 o histórico Trio de Ouro, com o qual fez muito sucesso com obras como   “Ave Maria no Morro”. 

TRIO DE OURO
NILO CHAGAS, HERIVELTON E DALVA

Dalva e Herivelto experimentaram a fama, mas também as páginas policiais. Com uma separação com direito a perda da guarda dos filhos, machismo social e do próprio  ex-marido. Dalva de Oliveira viveu dias de glória e de muito sofrimento.

Como se a arte imitasse a vida, as canções doloridas que Dalva de Oliveira entoava refletiam fielmente sua vida amorosa turbulenta. A batalha que ela travou através dos discos com Herivelto Martins, depois da separação do casal, registrou uma das mais tempestuosas e célebres relações do mundo musical no Brasil. 

HERIVELTON E DALVA

No final dos anos 40, Dalva partiu para carreira solo repleta de êxito  comercial e artístico. Ricardo Cravo Albin define Dalva de Oliveira: “uma rainha das dores e das alegrias do povo”.

DALVA DE OLIVEIRA (1917 – 1972)

A vida do casal foi muito bem retratada na Série que se transformou em Filme “ Dalva e Herivelto – uma canção de amor”, (2010) de Maria Adelaide Amaral com direção de Denis Carvalho, tendo como protagonistas Adriana Esteves e Fábio Assunção, disponível na globoplay.

ADRIANA ESTEVES E FÁBIO ASSUNÇÃO

Tanto na Série quanto no Filme, há uma narrativa ágil, que consegue relatar fatos históricos como o governo de Getúlio Vargas; a eclosão da Segunda Guerra Mundial; o polemico governo do Presidente Dutra; o fechamento dos Cassinos e o surgimento da Televisão.  

Maria Adelaide Amaral e Denis Carvalho conseguem ir e vir no tempo, pontuando por elipses, com variações cromáticas que situam as diferentes épocas, tendo como foco principal a música da Era de Ouro do Rádio. Vale a pena conferir!

Ouviremos a voz de Dalva de Oliveira em  – Hino ao Amor, letra de Edith Piaf, música de Marguerite Monnot com versão em português de Odair Marzano.

DALVA DE OLIVEIRA

 Observe o timbre e vigoroso vibrato na voz de Dalva de Oliveira. A cantora sabia utilizar recursos dramáticos com eficiência como ninguém.

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“COCO CHANEL & IGOR STRAVINSKY”

Moda e Música têm encontro marcado com  “Coco Chanel & Igor Stravinsky”

Mads Mikkelsen e Ana Mouglalis em

 “CHANEL COCO & IGOR STRAVINSKY”
 

Ainda obrigados ao distanciamento social, arte, mais do que nunca, é nossa grande aliada. O filme baseado no livro de Chris Greenhalgh – Chanel Coco & Igor Stravinsky é ótima opção.

O enredo coloca em primeiro plano o romance proibido de duas personalidades extremadas: a estilista Gabrielle Coco Chanel (1883 – 1971) interpretada pela  atriz francesa Ana Mouglalis (1978) e o compositor russo Igor Stravinsky (1882  – 1971) vivido pelo dinamarquês Mads Mikkelsen (1965).


Coco Chanel (1883 – 1971)  e Igor Stravinsky (1882  – 1971)

O filme retrata, com perfeição, o que acontecia na frenética Paris do início do século 20, na estreia do balé “A sagração da primavera“, com música de Igor Stravinsky, coreografia e dança de Vaslav Nijinsky (1889 – 1950) e cenário arquitetado pelo artista plástico Nicholas Roerich (1874 – 1940).


Vaslav Nijinsky; Igor Stravinsky; Nicholas Roerich

A estreia da Sagração da Primavera foi uma noite emblemática, ocorrida em maio de 1913, provocando reações violentas do público no Teatro Champs-Elysées. Sobraram vaias para todos os lados, e o caos se instaurou na plateia. Diversos músicos e maestros se retiraram do Teatro logo no começo da apresentação, revoltados com a nova abordagem dos instrumentos.


Teatro Champs-Elysées, Paris, France

Nessa plateia, uma artista fora do comum – a estilista francesa Coco Chanel, que rompia parâmetros da moda e caminhava para tornar-se sinônimo de figurinos clássicos que ultrapassariam seu tempo. Segundo o filme, nascia também, naquela noite de 1913, a semente de um romance que só frutificaria sete anos depois, entre Coco e Stravinsky.


Gabrielle Coco Chanel

A célebre obra, que na época causou tanta polêmica ao embalar o balé em dois atos, é hoje considerada um ícone da música de concerto. Não foi ao acaso, Sagração da Primavera, subverteu a estética musical do século XX, dando origem ao Modernismo, revolucionando praticamente todas as principais características da música de então. O arcabouço do ritmo, a estrutura orquestral, o timbre, a forma, os aspectos harmônicos, a maneira como se utilizava as dissonâncias, e, o valor conferido à percussão que sobressai a melodia, algo impraticável até aquele momento histórico.

Além da música de Stravinsky causar tanto espanto, a coreografia de Nijinsky incluía muitos passos “anti-dançantes”.  O figurino, desenhado por Nicholas Roerich, era muito grande e pesado, algo totalmente oposto ao figurino tradicional.  Nada lembrava a elegância e a leveza de um balé tradicional.


Figurino de Sagração da Primavera, 1913

Ainda hoje, a natureza subversiva de Sagração da Primavera deixa o público perplexo. O teor provocativo e incivilizado no qual desfilam no palco cenas ancestrais e excêntricas despertam, em quem as assiste, emoções e aflições.

No vídeo abaixo, assistiremos a um trecho da primeira cena do filme “Chanel Coco& Igor Stravinsky” (France, Jan Kounen, 2009), que reconstitui de forma bastante acurada como deve ter sido a escandalosa estreia de “Sagração da Primavera”. Segundo relatos, todos os aspectos da performance são baseados nas fontes históricas fidedignas acessíveis.

Observe que a linguagem de Stravinsky centra-se principalmente no ritmo, totalmente destacado em sua estética.   “Sagração da Primavera” é a renúncia ao universo da lógica e da objetividade, um reflexo do mundo moderno. Vale a pena ouvir a obra e assistir este filme memorável.

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GILBERTO MENDES E UMA VONTADE DANADA DE BEBER COCA-COLA

“Você conhece aquele dito popular, falem bem ou mal, mas falem de mim?”

Gilberto Mendes (1922 – 2016)
 

Um dos pioneiros da música concreta no Brasil, Gilberto Ambrosio Garcia Mendes nasceu no dia 13 de outubro de 1922, em Santos, cidade do litoral paulista. Iniciou seus estudos de música apenas aos 18 anos, no Conservatório Musical de sua cidade natal. Praticamente autodidata, compôs sob orientação de Cláudio Santoro (1919 – 1989) e Olivier Toni (1926). Frequentou o afamado Ferienkurse fuer Neue Musik de Darmstadt, na Alemanha, entre os anos de 1962 e 1968.


Instituto Internacional de Música de Darmstadt, Alemanha

Seu nome consta dos Verbetes das principais enciclopédias e dicionários mundiais, tai como: Grove inglês; o Rieman alemão; o Dictionary of Contemporarry Music de John Vinton; entre vários outros. Sua obra já foi tocada nos cinco continentes, principalmente na Europa e Estados Unidos.

Mendes foi um dos músicos que assinou o Manifesto Música Nova, publicado pela revista de arte de vanguarda Invenção em 1963, e a partir dessa tomada de posição, tornou-se um dos precursores, no Brasil, no campo da música concreta, aleatória, serial integral; com a experimentação de novos grafismos, novos materiais sonoros e a incorporação da ação musical à composição, com a criação do teatro musical.


REVISTA INVENÇÃO, Ano II, Nº 3, junho de 1963
Revista de Arte de Vanguarda
 Diretor: Décio Pignatari
 

Foi, ainda, professor na Escola de Comunicação e Arte da USP, conferencista e colaborador das principais revistas e jornais brasileiros. Fundou, em 1962, a Festival Música Nova de Santos, o mais antigo em seu gênero em toda a América.

Gilberto Mendes recebeu vários prêmios no Brasil: o Prêmio Carlos Gomes, do Governo do Estado de São Paulo, além de diversos prêmios da APCA.  Também recebeu a Bolsa Vitae, o prêmio Sergio Mota  hors concours  2003 e o título de “Cidadão Emérito” da cidade de Santos, dado pela Câmara Municipal. Em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em 2004, recebeu a insígnia e diploma de admissão na Ordem do Mérito Cultural, na classe de comendador, do Ministério da Cultura, das mãos do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do ministro da Cultura, Gilberto Gil.


Gilberto Mendes

Uma de suas obras mais interessantes, Moteto em Ré Menor, mais conhecido como Beba Coca Cola, para vozes corais e poema, foi composta em 1967. Em plena ditadura, o compositor criou uma espécie de antijingle, numa crítica ao consumo da sociedade moderna através de um de seus maiores ícones. Gilberto Mendes (1922 – 2016) concebe uma obra a partir do poema concreto de Décio Pignatari (1927 – 2012).

Beba Coca-Cola

“Na época, eu fiquei esperando uma represália da Coca-Cola. Que nada. Um diretor me procurou com uma caixa enorme de refrigerantes. E me agradeceu dizendo: ‘Você conhece aquele dito popular, falem bem ou mal, mas falem de mim?’ Só sei que até eu, logo depois de ouvi-la, ficava com uma vontade danada de beber Coca-Cola.” Gilberto Mendes.

A obra termina com um sonoro arroto – “o primeiro arroto solo da história da música universal” e com o coro falando a palavra “cloaca”, que encerra o poema de Pignatari.

Ouça a interpretação magistral desta obra com o Coro da OSESP sob a regência da grande e saudosa maestrina Naomi Munakata (1955 – 2020).

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Naomi Munakata (1955 – 2020)

Observe, nesta obra, a diversidade de material sonoro e o emprego do humor, características marcantes na obra de Gilberto Mendes.

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