O DIA DO FREVO

14 de Setembro – Dia Nacional do Frevo

“Frevo Dança de Carnaval” – Cândido Portinari

O Dia Nacional do Frevo é comemorado em 14 de Setembro, em homenagem ao jornalista Osvaldo da Silva Almeida, que foi, segundo pesquisas, o criador da palavra Frevo, tendo sido escolhido a sua data de nascimento, 14 de Setembro de 1882 como a data de homenagem.

Vale ressaltar, no entanto, outra data comemorativa para o Frevo: 9 de fevereiro, em função de ser a data em que historiadores identificaram a primeira aparição da palavra frevo, em 1907.

Dança folclórica típica do carnaval de rua, o frevo é uma das principais danças tradicionais brasileiras e uma das manifestações culturais mais conhecidas na região nordeste do Brasil, se destacando principalmente no carnaval das cidades pernambucanas – Olinda e Recife.

Olinda – Pernambuco

Segundo historiadores, o Frevo tem origem no século XIX em Pernambuco, onde surgiu da rivalidade entre as bandas militares e os folguedos de escravos libertos.

Muito executado durante o carnaval, eram comuns conflitos entre blocos de frevo, em que capoeiristas saíam à frente dos seus blocos para intimidar blocos rivais e proteger seu estandarte.

Heitor dos Prazeres (1889-1966)

A dança frenética, de ritmo muito acelerado surgiu em um tempo histórico igualmente agitado em termos políticos e sociais, quando se vivenciava o momento pós-abolicionista. 

Os passos do frevo são bem complicados, usa-se uma sombrinha ou guarda-chuva aberto enquanto se dança para manter o equilíbrio.

sombrinhas

Usados como armas de ataque e defesa durante os blocos de rua que saíam pelas ruas de Recife, segundo historiadores, os porretes foram os precursores das graciosas sombrinhas que passaram a se associar indistintamente ao frevo.

De acordo com o historiador Junior Viegas, foi o aumento da presença das mulheres no  Carnaval que levou as sombrinhas a diminuírem de tamanho e se tornarem adereços da folia, pintadas com as cores da bandeira de Pernambuco. Logo, a presença das sombrinhas também se incorporou à dança.

“Frevo” – Candido Portinari

 O frevo é tocado, podendo em alguns casos, ser cantado. Há ainda uma forma mais lenta de frevo que é chamada de “frevo canção” ou “frevo de bloco”.

Não se sabe, ao certo, se o Frevo surgiu primeiro como dança ou como música. Valdemar Oliveira, autor da Publicação “Frevo, Capoeira e Passo” (1942) afirma:

“Creio que não há no mundo um binário tão sacudido, tão pessoal, tão típico como o frevo, nem dança tão estranha e tão expressiva pelos seus modos como o passo”.

Para comemorar o dia Nacional do Frevo que ocorreu ainda essa semana, ouviremos o Frevo (para piano a quatro mãos) do compositor brasileiro Ronaldo Miranda (1948) interpretado pelo Duo Bretas-Kevorkian.

Ronaldo Miranda (1948)

A obra foi composta em 2004, por encomenda do Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro para o Projeto “Do Outro Lado do Carnaval”, com objetivo de mostrar a música de concerto no contexto do carnaval

Observe que FREVO vem do vocábulo “Frever” ou ferver, em alusão ao comportamento da multidão, dançando ao som das sincopas contagiantes desta dança carnavalesca. A linguagem harmônica da obra revela a maturidade de Ronaldo Miranda, utilizando livre combinação de elementos tais como: politonalismo, modalismo e o emprego de estruturas quartais.

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SIGISMUND NEUKOMM (1778-1858)

A chegada da corte ao Rio de Janeiro e a nova maneira de observar o mundo das artes
Sigsmund Neukomm(1778-1858).

Embora a comitiva real tenha sido recebida com grande festa, o Rio de Janeiro não estava preparado para atender toda a estrutura da corte. Dom João VI precisou implementar inúmeras medidas para tornar a capital do império uma cidade habitável para sua corte.

Chegada do Príncipe D. João, da família real e da Corte à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, missa comemorativa da chegada ao RJ
Óleo sobre tela. Armando Martins Viana. Século XX. Museu da Cidade, Rio de Janeiro

Quando a Família Real Portuguesa adentrou a Baia de Guanabara em 1808, o Rio de Janeiro era uma cidade colonial de população diversificada, ruas estreitas e vida cultural escassa.

O grupo que acompanhou o Rei nesse trajeto era bem diverso e nele também estavam artistas europeus que passaram a influenciar o estilo e as práticas de músicos coloniais, construindo uma nova percepção do gosto e uma nova maneira de observar o mundo das artes.

A pedido de Dom João VI, Antônio de Araújo Azevedo, o Conde da Barca, idealizou a Missão Artística Francesa, com o propósito de fundar a Real Escola de Belas Artes.

Academia Real de Belas Artes, projetado por Grandjean de Montigny
 Visto em três diferentes épocas
o aspecto do edifício em 1826, quando contava somente com o andar térreo; vista mais acima, aparece com um segundo andar acrescentado; o edifício é visto em sua última aparência, antes da demolição, com alguns acréscimos configurando um terceiro pavimento

A  missão artística, composta por personalidades de reconhecido talento, os pintores Jean Debret (1768-1848) e Nicolas Antoine Taunay (1755-1830), escultores como Auguste Taunay (1768-1824) e arquitetos como Grandjean de Montigny (1777-1850), entre outros, desembarcaram no Rio de Janeiro em 1816

Passados poucos meses do desembarque no Rio de Janeiro da “missão artística” francesa, aporta em terras brasileiras outra comitiva francesa, a do Duque de Luxemburgo, que tinha como um de seus objetivos o restabelecimento das relações franco-portuguesas. Junto com os diplomatas ligados ao Duque de Luxemburgo vieram também o naturalista Auguste de Saint Hilaire (1779-1853) e o compositor Sigsmund Neukomm(1778-1858).

Retrato de Augusto de Saint Hilaire(1779-1853)
 óleo sobre tela – Henrique Manzo(1896 – 1982)
Acervo do Museu Paulista da USP

O compositor austríaco Sigismund Neukomm foi um dos músicos europeus que deixou sua marca e influenciou a música brasileira.

Sigsmund Neukomm(1778-1858)

A circulação de músicos estrangeiros no Rio de Janeiro joanino foi importante para o estabelecimento de uma prática de corte, para sustentar a demanda de música e, sobretudo, ajudar a constituir um novo gosto, baseado em práticas cortesãs. (MONTEIRO, 2008, p. 61)

Sigismund Ritter Neukomm nasceu em Salzburg em 10 de julho de 1778 e teve como professor de música Joseph Haydn (1732-1809). Permaneceu no Brasil entre os anos de 1816 e 1820. Ministrava aulas de música para a Família Real e para membros da elite carioca. Admirava e ajudava talentos brasileiros como Padre José Mauricio Nunes Garcia(1767-1830) e Francisco Manuel da Silva(1795 -1865).

O envolvimento de Neukomm com as práticas musicais brasileiras exerceu influência tanto em sua própria obra, como   na vida artística do Rio de Janeiro joanino.

 Ouviremos do compositor austríaco, obra composta em 1819, no Rio de Janeiro, intitulada  O Amor Brasileiro –  capricho para pianoforte sobre um lundu brasileiro interpretada pelo pianista carioca Arnaldo Estrella (1908 -1980).

Retrato do Pianista Arnaldo Estrella(1908 -1980)
Nanquim sobre papel, 1942
Arpad Szenes (1897 – 1985)
 

Observe o amalgama cultural entre o Brasil colonizado e a cultura colonizadora.

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HINO NACIONAL BRASILEIRO

curiosidades


Hino Nacional Brasileiro

Hino Nacional Brasileiro é um dos quatro símbolos oficiais da República Federativa do Brasil.

Hino Nacional Brasileiro que conhecemos hoje, não foi composto com a essa finalidade. A melodia de Francisco Manoel da Silva (1785-1865), que tem letra de Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927), foi incorporada ao hino original cerca de quarenta e quatro anos após a morte do compositor da melodia.


“O maestro Francisco Manuel ditando o Hino Nacional
Óleo sobre tela (1850) por  José Correia de Lima  (1814 -1857)

O maestro e compositor Francisco Manoel da Silva nasceu no Rio de Janeiro e deixou boa quantidade de obras, que estão espalhadas em arquivos cariocas, mineiros e paulistas e abrangem música sacra, modinhas e lundus, além do famoso Hino Nacional Brasileiro.

Francisco Manoel teve grande destaque na vida musical do Rio de Janeiro no período compreendido entre a morte de Padre José Maurício Nunes Garcia (1830) e o apogeu de Carlos Gomes (Segundo Império), e muito contribuiu para a história da música no Brasil, pois fundou, entre outras instituições, o Conservatório Imperial de Música(1848). 


Museu Nacional, onde funcionou o Conservatório de Música de 1848 a 1854,
Campo da Aclamação, atual Praça da República.
 

Quando, em 7 de abril de 1831, D. Pedro I (1798-1834) foi  aconselhado a renunciar e abdicar do trono em favor de seu filho Pedro II (1825-1891), a época com apenas 5 anos de idade, Francisco Manoel compôs a música do atual hino que, em primeira execução, apareceu com letra de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva.

Em 1841, na coroação de Pedro II, esse hino foi executado novamente, com letra diferente da primeira – e de autor desconhecido. A melodia seguiu sendo executada sem letra, em solenidades civis e militares, até a Proclamação da República em 1889

Coroação de Pedro II, 18 de dezembro de 1841

Considerando uma herança do Império, em janeiro de 1890,  houve um concurso, no Teatro Lírico do Rio de Janeiro, para a escolha, entre 29 candidatos, de um novo Hino Nacional Brasileiro que representasse a República Brasileira.

O vencedor do concurso foi Leopoldo Miguéz (1850-1941). Curiosamente, depois de executados os hinos concorrentes e escolhida a obra de Miguéz, o proclamador da República, Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), preferiu o Hino de Francisco Manoel e o manteve como Hino Nacional apresentado sem letra.

Leopoldo Miguéz (1850-1941)

Deodoro da Fonseca  decidiu então que ao vencedor da música, Leopoldo Miguéz, e letra, José Joaquim Medeiros e Albuquerque, caberia o título de “Hino da Proclamação da República”. O Brasil passava então a ter o seu hino oficializado, porém, de forma incompleta, pois, faltava-lhe a letra.

Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892)

Assim, oficializado o concurso, foi assinado o Decreto n° 171, de 20.01.1890, que conservava o “Hino Nacional” e adotava o “Hino da Proclamação da República”.

Tal situação permaneceria ignorada até julho de 1909, quando o governo instituiu um novo concurso “para escolha de uma composição poética a se adaptar com todo o rigor à melodia do Hino Nacional”.

O vencedor desse concurso foi o poeta Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927) que ainda esperaria vários anos para afinal ser declarada oficialmente a letra do “Hino Nacional Brasileiro”, pelo Decreto n°15.671, de 06.09.1922.  

 Ouviremos uma gravação histórica da música de Francisco Manoel da Silva com letra de autor desconhecido utilizado na celebração nacional, em 1840, na coroação do jovem dom Pedro II de Bragança.

Observe, foi um hino tão representativo do império, que até os dias de hoje, é um dos símbolos oficiais da República Federativa do Brasil.

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A MÚSICA NA VIDA DE PEDRO LEOPOLDINA

o gosto pela música do casal imperial

Casamento de Pedro e Leopoldina (alegoria)
Coleção do Museu Histórico Nacional

Em continuidade aos assuntos da música no império, abordaremos o gosto musical do casal Pedro I e da Princesa Leopoldina.

Aos vinte anos a princesa Leopoldina (1797 – 1826) casou-se por procuração com Pedro de Alcântara (1798-1834), futuro D. Pedro I do Brasil e Pedro IV de Portugal.

Naquela época, o casamento entre nobres significava um tratado de relações exteriores, visando interesses políticos e econômicos entre os países envolvidos. Foi pensando em uma boa aliança com a Áustria que D. João VI decidiu casar seu filho com uma arquiduquesa de uma das famílias imperiais mais tradicionais, ricas e poderosas da Europa.

Embora a vida musical de Dom Pedro I não seja muito divulgada, sua ligação com as artes era bem acentuada. Seu professor de música em Lisboa, Marcos Portugal (1762 – 1830), chega ao Rio de Janeiro três anos após a chegada da família real, sendo músico de grande prestígio na corte de Dom João VI.


Marcos Portugal
(Lisboa, 24 de Março de 1762 – Rio de Janeiro, 17 de Fevereiro de 1830)

Já o responsável pela formação musical de Leopoldina, na Áustria, foi o pianista, professor e compositor nascido na Boêmia (atual República Tcheca), Leopold Koželuh (1747-1818), um dos mais destacados compositores tchecos da Viena do século XVIII.

Leopold Koželuh (1747-1818)
Nicholas Boylston” (1767), óleo sobre tela, 125 x 99,5 cm, do pintor John Singleton Copley, contemporâneo de Kozeluch (Harvard University, Cambridge)

O gosto pela música tanto da princesa como do jovem Pedro foi o primeiro elo de interesse do casal. Os jovens acompanhavam regularmente peças, óperas e concertos, sendo incansáveis na promoção de apresentações musicais na corte.


Hino da Independência (1922)
Augusto Bracet
Óleo sobre tela 2500x 1900 cm
Rio de Janeiro, Museu Histórico Nacional

Na habitação real havia uma sala de música com três pianos, ambiente muito utilizado para o convívio do príncipe e da princesa.

A princesa Leopoldina relatou em carta escrita à tia Maria Amélia em 24 de janeiro de 1818:

durante o dia, estou sempre ocupada a escrever, ler e tocar música; como meu esposo toca muito bem quase todos os instrumentos, costumo acompanhá-lo no piano e, desta maneira, tenho a satisfação de estar sempre perto da pessoa querida”.

(KANN, 2006, p. 237).

Leopoldina, ao se casar com o Príncipe dom Pedro I não sabia muito bem o que a esperava no Novo Mundo, a princesa trouxe então para o Brasil além de grande comitiva composta de pintores, cientistas e botânicos europeus, um grande acervo de partituras, hoje pertencentes a Coleção Thereza Christina Maria da qual falamos no ultimo post.

Muito amada pelos brasileiros, Leopoldina viveu, no Rio de Janeiro, em uma corte pobre e repleta de problemas. Culta, preparada e caridosa, a princesa austríaca foi retratada, até pouco tempo, como uma mulher melancólica e humilhada com os escândalos e relações extraconjugais do príncipe.

Princesa Leopoldina (1797 – 1826)

A historiografia mais recente tem reivindicado à biografia de Maria Leopoldina uma imagem menos passiva na história nacional. Muito além de uma princesa acanhada e melancólica, Leopoldina teve grande destaque na cultura e na política brasileira.

Incansável na promoção de apresentações musicais na corte, particularmente das obras dos compositores de sua terra natal, a Áustria, a Imperatriz Leopoldina  não só era patrona da música, mas também tinha muito interesse em praticá-la. Ao trazer para o Brasil seu acervo de partituras, e praticar estas obras em terras brasileiras, a Princesa Leopoldina contribuiu fortemente para a mudança da forma de compor de compositores que viveram e ou nasceram no Brasil deste tempo histórico.

Outro importante compositor que também fez parte dessa história, é o austríaco Sigismund Neukomm (1778-1858), ministrou aulas para o casal de príncipes produzindo na corte de Dom João VI, no Rio de Janeiro, inúmeras obras musicas.

Ouviremos do compositor S. Neukomm – as “Variações Kozeluch” para Violoncelo e piano interpretado pelo violoncelista Fábio Presgrave e o pianista/pesquisador Max Uriarte.

Sigismund Neukomm (1778-1858)

Observe que essa obra retrata a relação entre os dois dos professores da Princesa Leopoldina. Kozeluch, seu professor na Áustria, e, Neukomm professor no Rio de Janeiro.

Segundo o pianista/pesquisador brasileiro Max Uriarte:

“Neukomm escreveu as variações sobre um tema de Kozeluch no Rio de Janeiro em 1817 a pedido da princesa Maria Leopoldina, futura imperatriz do Brasil. (…) A parte de violoncelo é intencionalmente de secundária importância (tem um único solo, na segunda variação), estando à música mais concentrada na parte de piano. É possível também que Leopoldina tenha executado a obra com seu marido D. Pedro I, futuro imperador do Brasil, ao violoncelo”.

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COLEÇÃO THEREZA CHRISTINA MARIA

um tesouro escondido no terceiro andar do Palácio Capanema

Dom Pedro II, Imperatriz Thereza Christina Maria e as Princesa Isabel e Princesa Leopoldina

Justamente na semana das comemorações do Dia do Patrimônio Histórico, surgiram rumores de intenção de leiloar o Palácio Capanema.

Palácio Gustavo Capanema (Rio de Janeiro)

Segundo o site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o projeto do Palácio Capanema , foi desenvolvido por uma equipe de arquitetos chefiada por Lúcio Costa, com a participação de Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Jorge Machado Moreira, Carlos Leão e Ernany de Vasconcelos, a partir de estudos deixados por Le Corbusier durante sua estadia no Rio de Janeiro, em 1937.

O edifício tombado pelo Iphan em 1948, representa o marco da arquitetura moderna em nosso país. A área ocupada pelo prédio de 16 pavimentos possui jardins, projetados por Burle Marx.

No terceiro andar do Palácio Capanema, está o acervo de música da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Com mais de 250 mil peças, reúne uma vasta coleção de livros, partituras, fotografias, programas de concerto, manuscritos e libretos de ópera, todos eles guardando alguma relação com a história da música no Brasil e no mundo, de fundamental relevância para pesquisadores e musicólogos.

Abordaremos hoje, parte desse acervoA Coleção Thereza Christina Maria.

Segundo Pedro Persone:

“A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro abriga um verdadeiro tesouro na sua Divisão de Música: o acervo musical da Coleção Theresa Christina Maria. Vasto e praticamente inexplorado, esse acervo contém partituras trazidas e/ou adquiridas pelas imperatrizes Leopoldina (1797-1826) e Theresa Christina (1822-1889)”

Acervo dessa coleção é constituída de partituras em primeira edição, livros raros e periódicos que pertenceram às Imperatrizes Dona Leopoldina (1797-1826), e Dona Thereza Christina Maria (1822-1889). Dona Leopoldina era uma colecionadora compulsiva e dela eram a maioria das partituras do acervo, muitas das quais vieram com ela de sua Áustria natal.

Dona Leopoldina (1797-1826)

A doação dessa coleção foi feita por Dom Pedro II (1825-1891), já no exílio em Portugal, após a proclamação da República em 1889, juntamente com outras relíquias: livros, documentos, fotografias, coleções, objetos de sua propriedade particular, ao povo brasileiro, com o propósito de que o nome de sua esposa, Thereza Christina, fosse sempre lembrado pelos brasileiros.

Dom Pedro II (1825-1891),



O conjunto de obras musicais da Coleção Thereza Christina Maria, pertencente ao acervo de Música e Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é mesmo um verdadeiro tesouro. Criada em 1952, a Divisão de Música foi formada principalmente pela Coleção da Real Biblioteca Nacional, levada para o Rio de Janeiro pela corte portuguesa em 1808. A Coleção Thereza Christina Mariafoi formada a partir de doações de Dom Pedro II e pela aquisição do acervo da biblioteca do colecionador cearense Abraão de Carvalho em 1950.

A princesa Thereza Christina de Bourbon, que dá nome a coleção, nasceu em Nápoles em 14 de março de 1822 e morreu no Porto – Portugal em 28 de dezembro de 1889. Essa filha mais nova do rei Francisco I e sua segunda esposa, Maria Isabel de Bourbon, fez com o futuro Imperador Pedro II, em 1843, um casamento “arranjado” como era o costume daquela época. Era mulher culta e tinha profundo interesse por arqueologia, e trouxe ao Brasil nao só as suas coleções de arte, mas também uma comitiva de artistas, intelectuais, cientistas, músicos e artesões, como sua sogra, Dona Leopoldina, fizera tantos anos antes.

Theresa Christina de Bourbon (1822-1889)

 Adentrar por este precioso acervo, nesse prédio histórico,  é uma maneira de conhecer melhor a nossa tradição e também a significativa presença da música europeia no Brasil imperial.

As sonatas a quatro mãos de Mozart fazem parte da coleção e foram manuseadas  e interpretadas pela Princesa Leopoldina e pelo compositor Sigsmund Neukomm(1778-1858) na corte de Dom João V no Rio de Janeiro.

Sigsmund Neukomm(1778-1858)

Ouviremos a Sonata K 521 a quatro mãos de W. A. Mozart (1756 – 1791) interpretada pela pianista argentina Marta Argerich  (1941) e pelo pianista russo Evgeny Kissin (1971)

Observe a elegância e surpresas apresentadas nessa sonata de Mozart.  

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“ANTÔNIA – UMA SINFONIA”

um filme sobre mulheres silenciadas na música

Por  indicação de amigos, assisti recentemente, mais um filme que trata de música de concerto.

 Essa semana falaremos de um filme emocionante – “Antônia, Uma Sinfonia.

O longa narra a vida de uma mulher que nasceu na época errada: Antônia Brico (1902-1989) entrou para a história como a primeira mulher a reger, com sucesso, uma grande orquestra, como a filarmônica de Berlim e a de Nova York, isto na década de 1930.

O filme,  “Antônia, Uma Sinfonia”,  brilhante na narrativa da história de  mulheres silenciadas e segregadas, com produção belgo-holandesa,  está  atualmente disponível na  NETFLIX,  e,  se passa entre as cidades de Amsterdã, Berlim e Nova York.


Christianne de Bruijin (1986) como wIlly

A jovem pobre holandesa, migrante nos Estados Unidos na década de 1920, tem um sonho dito impossível: se tornar uma regente. Imersa em um mundo dirigido e vivido por homens, Willy aprendeu cedo a tocar piano,  mas o que ela realmente almeja é estar a frente de uma orquestra.

Christianne de Bruijin (1986) no Filme Antonia uma sinfonia

Nada é fácil para Willy. Ela encontrará diversos empecilhos na sua jornada para se tornar quem nasceu para ser.

Christianne de Bruijin (1986) como wIlly

No caminho, ela conhece o belo e rico Frank Thomsen vivido pelo ator britânico Benjamin Wainwright com quem vive uma história de amor renunciado pela busca de realizar seu sonho profissional.

Christianne de Bruijin e Benjamin Wainwright em Antônia uma sinfonia

E um grande amigo, Robin Jones, vivido pelo artista transgênero, o americano  Scott Turner Schofield.

Scott Turner Schofield em Antônai uma sinfonia

A verdadeira Antonia Louisa Brico (1902 – 1989)  nasceu na Holanda e migrou para a Califórnia (EUA) com seus pais adotivos e tentou com muita bravura colocar seu nome na história.

Antônia Brico (1902-1989)

Antônia, Uma Sinfonia foi baseada em documentário sobre a vida da regente intitulado Antônia: A Portrait of a Woman realizado por Jill Godmilow (1943), com a ajuda da antiga aluna de Antônia, Judy Collins lançado em 1974.

A verdadeira Antônia morreu em 1989 aos oitenta e sete anos vítima de doença prolongada. Ela viveu na casa de repouso Bella Vita Towers, em Denver até 1988.

Ainda hoje, há poucas mulheres no universo da regência. Felizmente a história está começando a mudar.

Atualmente a diretora musical da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) é uma mulher,  a nova-iorquina Marin Alsop (1956). E, uma nova geração de regentes brasileiras também está se formando e surgindo no cenário musical.

Marin Alsop (1956)

Ouviremos o quarto movimento (PRESTO) da Nona Sinfonia de  Ludwig van Beethoven (17770 – 1827) com a Orquestra sinfônica do Estado de São Paulo com a participação do coro acadêmico da Osesp e Coro da Osesp  sob a regência de Marin Alsop; e os solistas Lauren Snouffer,  Denise de Freitas,  John Mark Ainsley e Paulo Szot.

Observe! A nona sinfonia é uma das obras mais conhecidas do repertório ocidental, considerada tanto ícone quanto predecessora da música chamada “romântica” e uma das grandes obras-primas de Beethoven. Aproveite!

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“PAPAI” HAYDN

compositor considerado o pai da sinfonia clássica
Franz Joseph Haydn (1732 -1809)

Na semana dos pais, homenagearemos Franz Joseph Haydn(1732 -1809) .

Considerado o pai da sinfonia clássica e dos quartetos de cordas, Haydn compôs 104 sinfonias e ainda consolidou a “forma sonata”, estrutura de composição muito utilizada até o século 20.

Quarteto de Cordas violoncelo; viola; violinos 1 e 2

Franz Joseph Haydn nasceu na pequena aldeia de Rohrau, situada às margens do rio Leitha, Áustria, no dia 31 de março de 1732. Filho de um marceneiro e músico amador, desde pequeno revelou excepcionais dotes musicais.

Haydn foi o primeiro nome do classicismo vienense, seguido de Mozart (1756- 1791) e Beethoven (1770 – 1827).

Haydn (1732 -1809) ; Mozart (1756- 1791) e Beethoven (1770 – 1827).

Embora Mozart fosse 24 anos mais novo que Haydn, os dois tornaram-se amigos e passaram a se corresponder com frequência, realizando um valioso intercâmbio musical, que veio a enriquecer tanto a obra de um, como do outro.

Haydn, mais audacioso na estrutura musical; Mozart, mais inventivo e requintado nas melodias e orquestrações. A amizade foi muito proveitosa rendendo obras memorais aos dois amigos.

A influência de Mozart sobre Haydn foi evidenciada nas “Sinfonias de Solo-o”, nos seus últimos quartetos e nos famosos oratórios: “A Criação” e “As Estações”.

Wolfgang Amadeus Mozart chamava Haydn de “papai”, declarando que ele era “o pai de todos os compositores”.

Por volta de 1792, em Viena, passou a lecionar para jovens talentos, entre os quais o temperamental Beethoven, vindo da Alemanha, então com 22 anos de idade. O aluno Beethoven dedicou ao professor Haydn a Sonata para piano em lá menor, op. 2 n. 2.

Um dos compositores mais importantes do classicismo, com uma produtividade insana, Haydn compunha de maneira constante. Além das afamadas sinfonias, compôs 68 quartetos, concertos para oito instrumentos diferentes; várias missas; dois grandes oratórios,  treze óperas em italiano e seis em alemão; inúmeras obras para trios e para piano, sem mencionar centenas de cantos ingleses, escoceses e galeses.

Um dos mais influentes jornalistas de música de concerto, o inglês Norman Lebrecht (1948),  conta que :

“na década de 1920, um rico alemão chamado Antony van Hoboken começou a coletar  manuscritos e primeiras edições de peças deixadas por Haydn, com a intenção de compilar um catálogo definitivo. Ele desistiu após alcançar cinco mil itens e, embora todos os trabalhos de Haydn estejam catalogados, novas descobertas continuam sendo feitas. Existe muito Haydn para a cabeça de qualquer um”.

Norman Lebrecht (1948)

Ainda segundo Norman Lebrecht, entender e ouvir Haydn exige uma análise de seu contexto.

“Grandes maestros ao longo dos anos entenderam que Haydn não é um compositor que mereça um programa exclusivo, mas que serve de aquecimento para outras peças. Toscanini apresentava a sinfonia no 92 de Haydn, antes de Dom Quixote, de Richard Strauss, enquanto Furtwängler tocava a sinfonia no 88 como aperitivo para a Sinfonia no 4 de Schumann ou de Bruckner, iluminando assim as verdades sinfônicas mais profundas através da luz de Haydn”.

Com personalidade serena e bem-humorada Joseph Haydn faleceu em Viena, Áustria, no dia 31 de maio de 1809,  em casa, durante um violento bombardeio nas vésperas da tomada de Viena pelo exército de Napoleão Bonaparte  (1769 – 1821), por ordem do próprio Napoleão, um guarda foi colocado à porta de sua casa em seus últimos momentos de vida, de modo a evitar que fosse perturbado, tamanho o prestígio do qual gozava.

Reverenciado, foi sepultado em solene cerimônia fúnebre, ao som do Réquiem, de Mozart, sendo conduzido ao cemitério da igreja do subúrbio onde ele havia morado. Onze anos depois, seus restos mortais foram ransladados, por ordem do príncipe Esterhazy, para a Igreja de Eisenstadt.

Túmulo de Haydn – Igreja de Eisenstadt , Áustria

 Ouviremos de Haydn o Concerto em Dó Maior para violoncelo e orquestra com o violoncelista russo Mischa Maisky (1948) como solista e regente.

Observe os três movimentos do concerto para violoncelo de Haydn.  O primeiro  “Moderato” corresponde “forma sonata” (exposição, desenvolvimento, reexposição), o segundo “Adagio” possui um caráter mais clássico e cantante. O terceiro e ultimo movimento “Allegro molto” consegue demonstrar todo o virtuosismo do solista e da orquestra.  Aproveite!

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FRANCISCO MIGNONE OU CHICO BORORÓ

compositor, pianista, regente, professor, flautista

Francisco Mignone (1897-1986)

O pianista, flautista, regente e compositor brasileiro Francisco Paulo Mignone (1897-1986) iniciou os estudos musicais com o pai, o imigrante italiano Alfério Mignone, professor de flauta do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (CDMSP).

Alfério Mignone

Aos 10 anos, Mignone começa a estudar piano com Silvio Motto. Com apenas 13 anos de idade, passa a atuar como flautista e pianista além de regente de orquestras no cinema.

O jovem músico participava de grupos de choro e compunha canções populares, assinando como Chico Bororó, obras essas, interpretadas por grandes nomes como o cantor Francisco Alves (1898 – 1952).

Francisco Alves (1898 – 1952).

Naquela época, a chamada “música erudita” não se misturava com a “música popular”.  Motivo pelo qual, Francisco Mignone, se viu obrigado a utilizar o pseudônimo de Chico Bororó.

Diplomado pelo Conservatório Dramático de Música de São Paulo em flauta, piano e composição, Mignone, começa apresentar suas primeiras obras sinfônicas, com enorme sucesso, indo, em seguida, prosseguir estudos em Milão na Itália.

Na Itália estuda com o compositor italiano Vincenzo Ferroni (1858 – 1934), ex-aluno do compositor francês Jules Massenet (1842 – 1912) no Conservatório de Paris, que o introduz nas técnicas composicionais francesas bem como na tradição operística italiana.

Vincenzo Ferroni (1858 – 1934)

De volta a São Paulo, em 1929, torna-se professor da instituição onde fora aluno, e se aproxima das propostas nacionalistas do ex-colega de conservatório, Mário de Andrade (1893 – 1945), de quem se torna grande amigo.

Mário de Andrade (1893 – 1945)

Em 1932, casa-se com Liddy (1891 – 1962), filha do afamado professor de piano Luigi Chiaffarelli (1856 – 1923). No fim do mesmo ano, muda-se para o Rio de Janeiro e passa a lecionar no Instituto Nacional de Música, desenvolvendo importante carreira acadêmica, formando regentes e compositores que se destacam no meio musical brasileiro, como Roberto Duarte (1941) e Ricardo Tacuchian (1939).

No ano de 1951 assume a direção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e integra a Academia Brasileira de Música.

Em 1963, já viúvo de Liddy, casa-se com a pianista paraense Maria Josephina (1923), com quem desenvolve frutífera parceria em recitais a quatro mãos e, é quem, até os dias de hoje,  aos 98 anos,  cuida do acervo e da divulgação da obra do compositor.

Maria Josephina (1923) e Francisco Mignone (1897-1986)

Os estudiosos dividem a obra de Francisco Mignone em duas fases: a primeira, sob influência italiana, na década de 1920, quando Mignone foi para Milão. (Ressalta-se que embora com forte influência italiana, nesta fase ele também compôs sobre temas brasileiros).  Já a segunda fase, repleta de influências do amigo Mário de Andrade é marcada por seu engajamento no movimento modernista.

Francisco Mignone em Milão na Itália (1921)

Um dos compositores mais profícuos do Brasil, Mignone destacou-se com suas obras sinfônicas, contribuiu de forma decisiva para a música vocal com os ciclos de canções sobre poemas modernistas de Manuel Bandeira (1886 – 1968) e Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), bem como as peças baseadas em poemas e melodias folclóricas.

Destacou-se também na  composição de ópera, como Chalaça e O Sargento de Milícias, além dos bailados Quincas Berro d’ÁguaO Caçador de Esmeraldas.

O principal marco da transição para o nacionalismo na obra de Mignone  é a composição do bailado Maracatu do Chico-Rei, em parceria com Mário de Andrade, inspirado em episódios da construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Salvador.

Atuando em várias vertentes, Mignone chega a abandonar os critérios composicionais nacionalistas e emprega a técnica dodecafônica, retomando o sistema tonal na década de 1970.

Francisco Mignone contribuiu enormemente para a literatura e repertório do piano brasileiro, destacam-se as Doze Valsas de Esquina, compostas entre 1938 e 1942, nas quais buscava reproduzir a maneira de tocar dos chorões.  Nessas obras, vem à tona o músico popular escondido no passado, estão aí o “brejeiro”  Chico Bororó

Francisco Mignone

Ouviremos uma gravação histórica disponibilizada pelo Instituto Piano Brasileiro.  O Concerto para piano e Orquestra de Francisco Mignone com a Orquestra Sinfônica Brasileira, solo do pianista Arnaldo Estrella (1908 – 1980) sob a regência do próprio compositor.

Arnaldo Estrella (1908 – 1980)

Observe a riqueza musical desse concerto brasileiro tão pouco tocado. Pela primeira vez no blog o vídeo vem com a partitura musical. Aproveite!

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“ROMANCE SECRETO”

uma Série para quem ama música

Romance Secreto”, com título original “Secret Love Affair” (2014).

Continuando com indicações de programas para os amantes da música de concerto, a sugestão é “Romance Secreto”, com título original “Secret Love Affair” (2014).

A série é produzida pela emissora de televisão JTBC, da Coreia do Sul, foi escrita por Jung Sung Joo e dirigida por Na Pan Seok.  

Esse drama é, sem dúvida, uma jóia rara escondida na Netflix; especialmente para aqueles  que amam música de concerto. 

“Secret Love Affair” gira em torno da história de duas almas de mundos distintos que se encontram para viver uma paixão proibida. Luxo, ostentação e falsidade se encontram com uma vida repleta de dificuldades, perdas, sinceridade e transparência, onde a paixão que ambos nutrem pela música se transforma no ponto de partida para um romance nada ortodoxo. 


Ji jin Hee como Kang Joon Hyung ; Kim Hee Ae como  Oh Hye Won  e  Yoo na In como Lee Sun
 

Embora o amor pela música seja a tônica da série, em cada episódio, os bastidores da academia de música, nem sempre “maravilhosos”, vão se revelando.

Como diretora de uma afamada Fundação de Arte, trabalhando diretamente com toda a família que gere o grupo, Kim Hee Ae como Oh Hye Won, uma talentosa pianista, abandona a carreira em prol da destacada posição e se perde em meio a sua ambição. 

Kim Hee Ae como Oh Hye Won

Aos 40 anos Won é casada com o professor de piano da mesma Fundação, Kang Joon Hyung. Já nos primeiros episódios o espectador percebe as fragilidades do casamento do casal de pianistas.

Oh Hye Won e Kang Joon Hyung em Romance Secreto”

Já o jovem Lee Sun, interpretado pelo ator  Yoo na In, é um moço simples, que trabalha como entregador e secretamente toca piano. Como um jovem do século 21, Lee grava vídeos tocando e posta na internet com o pseudônimo “SOU UM GÊNIO”.  

Lee Sun em Romance Secreto”

Won vive cada vez mais perto do luxo, da riqueza e longe de seu piano. O jovem Lee, ao contrário,vive na total miséria, com todas as dificuldades financeiras, mas não consegue se afastar da música.  Quando Won e Lee se encontram, o amor pela música fica evidente.

De forma envolvente a série não gira em torno apenas dos dois protagonistas, mas também mostra o mais profundo da vida daqueles que os rodeiam. A direção é impecável com ângulos de câmara sugerindo estarmos espionando os personagem em cena. 

Os atores, sul-coreanos, pouco conhecidos, foram escolhidos com todo cuidado, têm uma química impressionante e há cenas que mesmo sem diálogo, nos tira o folego, nos envolvendo com muita música e paixão. A música é um motivo a mais para saborear a série. 

Won e Lee em “Romance Secreto”

Ouviremos  trechos da Fantasia para piano a quatro mãos em Fá menor de Franz Schubert (1797-1828). Obra recorrente nesse blog, está presente em vários filmes, aqui, ela será executada pelos protagonistas.

Franz Schubert (1797-1828)

A Fantasia de Schubert começa com um tema absolutamente memorável, que ressurgirá no finale, tanto recapitulado literalmente quanto servindo de base para uma imensa fuga. Após a fuga, um final inesperado – sombrio, simplesmente fantástico, tal qual um “romance secreto”.

Observe! Na prática do piano a quatro mãos predomina a existência de laços de intimidade dentre seus executantes; talvez estes laços possam ser justificados pelo misto de proximidade e embate entre os corpos que perfazem a execução, possibilitando ao espectador um espetáculo também visual.

Confira no vídeo, com um trecho da série, os protagonistas tocando a quatro mãos e se encontrando através da música.

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“A ÚLTIMA NOTA”

um filme para os amantes da música de concerto

A Última Nota” – título original “CODA”.

Segundo Friedrich Nietzsche “Sem a música a vida seria um erro”. Com essa citação filosófica, inicia-se o filme “A Última Nota”, com o título original “CODA”. A produção canadense com direção de Claude Lalonde já está disponível nas plataformas digitais.

No dicionário Grove de Música, CODA, é descrito como “a última parte de uma peça ou melodia; um acréscimo a um modelo, ou forma padrão. Na fuga, a coda é o material musical que surge após a última entrada do sujeito e, na forma sonata, o que vem após a recapitulação”.

Como uma CODA, o filme a “A Última Nota“, fala da vida de uma artista na terceira idade, relatando um dos períodos mais delicados da carreira do pianista fictício Henry Cole interpretado por Patrick Stewart.

Como “a parte final de uma melodia” o músico sofre ao decidir se é hora de continuar ou encerrar a carreira. Uma reflexão que faz parte da vida. Qual será a melhor hora de encerrar uma carreira? Será esse o momento certo de parar?

Henry Cole dedicou sua vida ao trabalho, pianista de grande sucesso, se afastou dos palcos após o falecimento de sua esposa. O dilema do filme gira em torno do esperado retorno ameaçado por uma crise repentina de ansiedade.

A Última Nota”

Neste momento, entra em cena a jornalista Helen Morrison interpretada pela atriz Katie Holmes na qual Henry Cole passa a confiar.

O pianista “Henry Cole” fala:

Eu não consigo. É como se eu estivesse remando na beira de uma cachoeira”

Patrick Stewart interpreta Henry Cole e Katie Holmes interpreta Helen Morrison no filme “A Última Nota”

Helen” diz:

“você os deixa feliz, só precisa tocar” (…)

A narrativa do pianista é contida e ao mesmo tempo marcante. Aos poucos o espectador vai conhecendo a trajetória do pianista através das poucas pessoas que o cercam, além da jornalista, seu agente Paul interpretado por Giancarlo Esposito.

Paul interpretado por Giancarlo Esposito

Incrível a interpretação de Patrick Stewart ao construir um personagem que é ao mesmo tempo admirado por todos, mas, por dentro, está desmoronando diante da vida, passando com sua atuação magistral, a angustia do seu personagem, para o espectador.

Cena do filme “A Última Nota”

O roteiro de Louis Goldout instiga o público. Como uma Sonata em três movimentos, por vezes metafóricos, o filme leva o espectador a acompanhar flashes da vida de Henry, seu deslocamento do tempo presente para memórias do passado e a eventual fusão entre os diversos tempos em suas memórias. Tudo isto com paisagens de tirar o folego e uma trilha sonora especial para os amantes da música de concerto. 

O filme possui uma sutileza própria, e, quem gosta de música deve mesmo ver esse filme. Lá você poderá ouvir boa música e refletir sobre a carreira de um grande pianista.

Ouviremos um pianista da vida real. O argentino Daniel Barenboim (1942) interpretando uma das obras que estão no filme. De Ludwig van Beethoven (1770 – 1827) a  Sonata para piano No. 23 in F minor, Op. 57 “Appassionata”.

Daniel Barenboim (1942)

Observe que “A Última Nota”  traz interessantes e ricas abordagens, que tem como fios condutores a música e arte. Aproveite para desfrutar a brilhante interpretação de Daniel Barenboim nessa Sonata de Beethoven.

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