A primavera na “música de concerto”

Primavera

A primavera sempre foi uma estação reverenciada por compositores ao longo dos séculos. O renascimento da natureza, a explosão de cores e vida, e a promessa de renovação espiritual são elementos que, inevitavelmente, encontraram expressão nas obras de alguns dos mestres da música de concerto. Assim, quando a primavera chega, nos vemos rodeados por composições que capturam esse espírito vibrante e efêmero.

 Antonio Vivaldi (1678 – 1741)

Entre as peças mais icônicas que celebram a estação está o Concerto para Violino RV 269 “Primavera” de As Quatro Estações de Antonio Vivaldi. Esta obra, que por si só personifica a primavera para muitos, faz parte de uma coleção de concertos escritos no início do século XVIII. Vivaldi se inspirou no campo italiano, onde a natureza ganha protagonismo através de melodias que evocam o canto dos pássaros, o murmúrio dos riachos e a vivacidade dos campos floridos. Ao ouvir o primeiro movimento, somos transportados para o despertar de um novo ciclo, quando a terra, antes adormecida, começa a florescer. Vivaldi foi um mestre em traduzir cenas da natureza para a linguagem da música, e a “Primavera” é um exemplo perfeito dessa habilidade.

Joseph Haydn (1732 – 1809)

No período clássico, encontramos outra peça marcante: PrimaveraAs Estações de Joseph Haydn, estreada em Viena em 1801. Diferente da abordagem de Vivaldi, Haydn compôs uma obra mais narrativa, onde os trabalhos agrícolas e a simplicidade da vida rural se misturam com o esplendor da estação. Em Primavera, Haydn apresenta não apenas a renovação da natureza, mas também celebra a harmonia entre a humanidade e o ambiente, numa visão pastoral cheia de esperança e otimismo.

Franz Schubert (1797 – 1828)

O espírito da primavera também permeia a obra de Franz Schubert, especialmente em sua canção Im Frühling (D882), onde a primavera é evocada com uma doçura contemplativa, refletindo sentimentos mais íntimos de nostalgia e melancolia. Aqui, Schubert nos lembra de que a primavera não é apenas um evento externo, mas também uma estação que pode despertar memórias e emoções profundamente pessoais.

Robert Schumann (1810 – 1856)

Avançando para o auge do romantismo, Robert Schumann compôs sua Sinfonia nº 1, muitas vezes chamada de Primavera. Escrita em 1841, à obra expressa o entusiasmo juvenil de Schumann diante da mudança das estações. O primeiro movimento, inspirado por um poema de Adolph Böttger, é uma verdadeira saudação à primavera, começando com uma fanfarra luminosa que simboliza o renascimento da natureza e da vida.

Claude Debussy (1862 – 1918)

À medida que adentramos o século XX, Claude Debussy trouxe sua própria interpretação impressionista da primavera com Rondes de Printemps. Debussy, sempre obcecado pela atmosfera e pelos sons da natureza, traduz a estação com cores tímbricas ricas e dançantes. Diferente das evocações mais literais de compositores anteriores, Debussy pinta a primavera com traços mais abstratos, convidando-nos a sentir o frescor do ar primaveril sem necessariamente contar uma história.

 Igor Stravinsky (1882 – 1971)

No entanto, é com Igor Stravinsky que a primavera toma uma forma mais dramática e revolucionária. A Sagração da Primavera, balé estreado em 1913, provocou uma das maiores controvérsias da história da música. Stravinsky não retrata a primavera idílica e tranquila. Em vez disso, ele nos apresenta uma visão primitiva e pagã, onde a terra acorda com uma força brutal, exigindo sacrifício. A complexidade rítmica e a dissonância quase selvagem da obra criam uma imagem da primavera como um momento de intenso poder e transformação – longe da serenidade pastoral de Vivaldi ou Haydn. A música de Stravinsky é uma celebração violenta e visceral do ciclo da vida e da morte, da renovação que, paradoxalmente, surge do sacrifício.

Aaron Copland (1900 – 1990)

Nos Estados Unidos, Aaron Copland ofereceu uma visão mais serena e americana da primavera com seu balé Appalachian Spring. Comissionada por Martha Graham, a obra estreou em 1944 e é uma verdadeira ode à simplicidade e à pureza da vida rural. Copland, com sua linguagem harmônica clara e acessível, evoca a quietude e a beleza das montanhas Apalaches na primavera, num retrato musical que ressoa com esperança e renovação.

Henrique de Curitiba (1934 – 2008)

No Brasil, o compositor Henrique de Curitiba compôs, em 1994, Já vem chegando a Primavera, uma canção para coro com texto do próprio compositor. Publicada pela Santa Bárbara Music Publishing, Califórnia, em 2002, a obra é muito apreciada por coros no Brasil e no exterior. Já vem chegando a Primavera anuncia magistralmente a estação que ora se inicia.

Cada uma dessas obras nos oferece uma perspectiva única da primavera – seja a sua suavidade pastoral, sua melancolia introspectiva ou sua força primitiva. Elas nos lembram de que, assim como a natureza, a música também passa por ciclos de renovação e transformação. A primavera, com suas cores e sons inconfundíveis, continua a inspirar, renovando não só a terra, mas também nossas almas.

Ouviremos de Claude Debussy “L’après-midi d’un faune”  (A tarde de um fauno), um poema de Mallarmé, um marco na história do Simbolismo na literatura francesa. A obra literária inspirou a composição do Prelúdio à tarde de um fauno de Debussy, de 1894, considerado a primeira obra de música moderna. Coreografada por Nijinsky, foi incorporada ao repertório dos balés russos de Diaghilev.

Assim Debussy escreveu sobre o Prelúdio à Tarde de um Fauno:

“O Prelúdio é uma sucessão de cenas que descrevem os desejos e os sonhos do fauno… Ele toca sua flauta de Pan. Depois, cansado de perseguir as ninfas e as náiades, ele sucumbe a um sono pesado, no qual pode afinal realizar seus sonhos de posse, na Natureza universal.”

Ouviremos Ney Matogrosso interpretando, de Sérgio Sampaio,  “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”.  Esse vídeo pertence ao álbum “Bloco Na Rua” de Ney Matogrosso.

Observe nessa obra o surgir de diferentes atmosferas. É uma das obras mais conhecidas de Debussy, cujo sucesso foi imediato e que constitui um dos melhores exemplos da música chamada impressionista.  Segundo Maurice Ravel: “um milagre único em toda a música”.

No vídeo abaixo, ouviremos a L’après-midi d’un faune  com a Orquestra Sinfônica de Boston sob a regência do Maestro Leonard Bernstein”.

O Menino Beethoven Visita o Brasil: Um Encontro Encantador de Música e Imaginação para o Dia das Crianças

“O Menino Beethoven Visita o Brasil”

Neste Dia das Crianças, que tal uma viagem lúdica pela música, com um toque de magia e cultura? Se você está buscando uma maneira especial de celebrar a data com os pequenos, o filme “O Menino Beethoven Visita o Brasil” é uma recomendação imperdível! Dirigido pela companhia Giramundo, com produção de Elis Ribeirete e Fernando Gasparini, esta obra encantadora une o teatro de bonecos, a música e a história, tudo em uma narrativa acessível e envolvente para crianças de todas as idades.

“Pixinguinha, Chiquinha, Beethoven, Fada Maya,  Luiz Gonzaga e Villa-Lobos”

A história começa com o jovem Beethoven, que inicialmente não gosta de música, até ser visitado por Maya, a fada da música. Ao longo da trama, Maya o incentiva a “sentir a música que vem de dentro” e a explorar diferentes ritmos com o coração, conectando-o à essência da arte musical. Acompanhamos Beethoven em uma jornada fantástica, visitando grandes compositores da música brasileira como Pixinguinha, Villa-Lobos, Luiz Gonzaga e Chiquinha Gonzaga.

Esse filme nos permite refletir, de forma leve e divertida, sobre o poder transformador da música. A cena em que Maya ensina Beethoven a tocar com o coração nos faz pensar: quantas vezes abandonamos algo simplesmente porque nos falta inspiração ou a abordagem certa. A música, como o filme nos lembra, é uma linguagem universal que se conecta com as emoções, e nada mais poderoso do que incentivar esse sentimento desde a infância.

Com uma direção de arte vibrante, repleta de cores e bonecos cativantes, o “média-metragem” é uma fusão harmoniosa de teatro e audiovisual. A obra não apenas aproxima as crianças do universo musical clássico, mas também as coloca em contato com a riqueza da música popular brasileira. O menino Beethoven se encanta ao ouvir choro, baião e maxixe, em uma demonstração clara da nossa diversidade sonora.

Para os adultos, “O Menino Beethoven Visita o Brasil” também oferece momentos de reflexão. Quantos de nós já deixamos para trás o desejo de aprender um instrumento ou de nos reconectarmos com a música? A produção nos faz repensar esses sonhos abandonados e como a arte pode nos ajudar a retomar o caminho da criatividade, despertando o artista adormecido dentro de cada um de nós.

No Brasil, grandes compositores como Villa-Lobos e Chiquinha Gonzaga buscaram inspiração nos ritmos populares para compor suas obras, assim como Beethoven fez com os temas folclóricos de seu país. A relação entre a música de concertos e a música  popular é, portanto, um dos grandes temas do filme, que revela às crianças, e aos adultos,  a importância de manter viva a cultura musical de um povo.

Este Dia das Crianças, aproveite para compartilhar com os pequenos ao seu redor, uma experiência que vai além do entretenimento. “O Menino Beethoven Visita o Brasil” está disponível gratuitamente no YouTube e promete encantar crianças grandes e pequenas, com uma mensagem de amor pela música e pela cultura. Afinal, como diz o ditado: “quem canta seus males espanta”, e quem toca, com certeza, também espanta as tristezas!

Boa diversão, e que a música faça parte do seu dia de uma forma especial!

Vamos assistir esse filme clicando no link abaixo. Essa preciosidade está disponível no YouTube através do canal oficial do projeto: @omeninobeethoven.

Observe a  magia da música e conexão, apresentada,  entre as obras de Beethoven e a música brasileira

Ney Matogrosso

A Voz Transgressora da Música Brasileira

Ney Matogrosso (1941)

A trajetória de Ney Matogrosso é, sem dúvida, uma das mais fascinantes e transgressoras da música brasileira. Nascido Ney de Souza Pereira em Bela Vista, Mato Grosso do Sul, em 1941, Ney Matogrosso teve uma infância e adolescência marcadas pela rigidez e incompreensão.

Filho de militar cresceu em um ambiente austero, movendo-se por diversas cidades brasileiras. Desde cedo, Ney sentia-se diferente dos outros meninos, um sentimento que o isolava ainda mais dentro de sua própria família. Aos dezoito anos, em um ato de coragem e afirmação, assumiu sua homossexualidade e deixou o lar familiar para ingressar na aeronáutica.

A indecisão sobre sua futura profissão começou a se dissipar quando, em 1971, Ney conheceu João Ricardo, que o convidou para ser o vocalista da banda Secos & Molhados juntamente com Gérson Conrad.

João Ricardo, Ney Matogrosso e Gérson Conrad formaram o Secos & Molhados entre 1973 e 1974

O grupo lançou seu primeiro álbum em 1973, um sucesso estrondoso que vendeu mais de 700 mil cópias. As performances de Ney, com maquiagem extravagante e figurinos ousados, transformaram-no em uma figura emblemática do movimento artístico brasileiro. Canções como “Rosa de Hiroshima” e “Sangue Latino” não só se tornaram clássicos, mas também simbolizaram a resistência cultural em tempos de repressão.

Em 1975, Ney Matogrosso iniciou sua carreira solo com o álbum “Água do Céu – Pássaro”. Desde então, lançou uma série de discos que solidificaram sua posição como um dos artistas mais inovadores do Brasil.

O álbum “Bandido” (1976), com a icônica “Bandido Corazón” de Rita Lee, marcou o reconhecimento nacional de seu talento. Ney continuou a desafiar normas e expectativas com álbuns como “Feitiço” (1978) e “Bugre” (1986), sempre combinando música com uma teatralidade única.

Com um registro vocal raro, Ney possui uma tessitura que se situa entre o contralto e o “tenore bianco”, algo extremamente incomum em cantores masculinos. Sua voz potente e luminosa, mesmo aos 82 anos, continua a encantar e surpreender o público.

Além de cantor, Ney é também ator, diretor, coreógrafo e iluminador, demonstrando uma versatilidade artística que poucos conseguem alcançar. Durante a ditadura militar, foi vigiado e censurado, mas nunca se deixou intimidar.

Sobreviveu à sombra da AIDS, manteve-se firme diante das promessas de riqueza fácil do showbiz e enfrentou críticas ao seu “canto de mulher” com uma determinação inabalável. Seus shows, sempre inovadores, atraem públicos de todas as idades, perpetuando seu legado de renovação constante.

A vida desse ícone da música brasileira foi muito bem retratada na publicação: “Ney Matogrosso – A biografia”, escrita pelo o jornalista Julio Maria. A obra revela após cinco anos de pesquisa e quase duzentas entrevistas, a complexidade e a profundidade de uma das personalidades mais transformadoras do cenário cultural do país. O livro percorre a vida de Ney, desde sua infância solitária até sua consagração como ícone da música e da liberdade de expressão.

Aos 82 anos Ney Matogrosso permanece um farol de liberdade, criatividade e autenticidade, lembrando-nos constantemente que a verdadeira arte é aquela que se mantém fiel a si mesma independente das circunstâncias.

Ouviremos Ney Matogrosso interpretando, de Sérgio Sampaio,  “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”.  Esse vídeo pertence ao álbum “Bloco Na Rua” de Ney Matogrosso.

Observe o canto afinado e a dança onde o corpo e voz de Ney Matogrosso são a expressão de sua alma.

Linda Bustani

Uma Jornada de Virtuosismo e Sensibilidade Musical

Linda Bustani (1951)

Nos anais da história da música de concerto, poucos nomes ressoam com tanta intensidade e brilho quanto o de Linda Bustani. De nacionalidade brasileira, essa exímia pianista conquistou o coração dos aficionados pela música clássica em todo o mundo com sua técnica magistral e sua interpretação profundamente emotiva.

Sua carreira musical teve início sob a tutela de Arnaldo Estrela, no Rio de Janeiro, onde demonstrou desde cedo um talento excepcional. Contudo, foi aos 15 anos, ao conquistar o prestigioso Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta em Lisboa, que seu nome começou a ser reconhecido além da fronteira natal.  Sob a orientação de Iacov Zak, Bustani aprimorou suas habilidades no Conservatório Tchaikovsky em Moscou.

O ponto culminante de sua ascensão ocorreu no palco do Concurso Internacional de Piano Leeds em 1974, onde sua performance foi aclamada pela crítica e pelo público, lançando-a ao estrelato internacional. Daí em diante, uma série de concertos e recitais em prestigiados palcos internacionais, incluindo países como Portugal, Países Baixos, Bélgica, Japão e América Latina, solidificando sua posição como uma das principais pianistas de sua geração.

Acompanhada por renomadas orquestras e sob a  regência de maestros renomados , como Simon Rattle, Charles Groves e Louis Fremaux, Bustani demonstrou sua versatilidade e maestria em um repertório diversificado que abrange desde as obras clássicas até composições contemporâneas. Sua interpretação sensível e apaixonada cativou audiências em todo o mundo, estabelecendo um vínculo emocional profundo entre ela e seus ouvintes.

No entanto, o caminho para a grandeza não foi isento de desafios. Após uma intensa turnê de recitais na Europa, Bustani optou por uma pausa prolongada na década de 1980, durante a qual se dedicou ao enriquecimento pessoal, à sua família e ao ensino da música. Essa fase de introspecção e crescimento pessoal foi fundamental para sua evolução artística, preparando o terreno para seu retorno triunfante aos palcos como uma intérprete mais madura e autoconsciente.

Linda Bustani ao piano

Atualmente, Linda Bustani continua a encantar plateias em todo o mundo com sua arte única e sua abordagem musical profundamente reflexiva. Sua dedicação incansável à excelência artística e sua busca constante pela expressão musical autêntica a posicionam como uma das figuras mais notáveis do cenário pianístico contemporâneo.

Recentemente, o Instituto Piano Brasileiro  (IPB), dirigido pelo pianista Alexandre Dias,  disponibilizou em sua plataforma digital uma joia rara: a gravação completa de Linda Bustani durante a semifinal do Concurso de Leeds de 1972.

Linda Bustani (1972)

Embora não tenha avançado para a final desse concurso histórico, sua participação deixou uma marca indelével na história do piano brasileiro e internacional. Ao lado de outros gigantes  da música de concerto, ela é uma inspiração para intérpretes  e melômanos. Linda Bustani não é apenas uma pianista talentosa, mas uma verdadeira embaixadora da música de concerto.  

Ouviremos a gravação disponibilizada pelo IPB com a pianista Linda Bustani, aos  21 anos, na prova  semifinal do Concurso de Leeds de 1972. Ela interpreta: Prelúdio e Fuga No.24 em Ré menor de Dmitri  Shostakovich e a Fantasia Op.17 de Robert Schumann.

Observe! Nessa gravação, Bustani, aos 21 anos de idade, demonstra seu virtuosismo excepcional com uma paixão e uma profundidade emocional que cativam o ouvinte.

Um  interprete barroco no século XXI

Roberto de Regina

Roberto de Regina (1927)

Roberto Miguel de Barros Regina, nascido em 12 de janeiro de 1927, no Rio de Janeiro, emergiu como uma figura singular na paisagem musical brasileira, não apenas como um virtuoso cravista, mas também como um médico anestesista e artesão talentoso. Seu interesse pelo cravo, um instrumento que remonta ao período barroco, levou-o a uma jornada de autodescoberta e inovação.

Além de suas conquistas como músico, Regina encontrou uma paixão na arte da construção de cravos. Influenciado por sua profunda imersão na música barroca, ele embarcou na missão de trazer à vida o som autêntico e a estética do período. Sua oficina particular, situada em seu sítio em Guaratiba, tornou-se um local de criação e  experimentação.

Regina dedicou-se a dominar não apenas a execução do cravo, mas também a intricada arte de sua construção. Sua busca pela perfeição levou-o a aprender com os mestres artesãos em Boston, onde absorveu os segredos e técnicas por trás da fabricação desses instrumentos históricos. Ao retornar ao Brasil, ele aplicou esse conhecimento em sua própria oficina, criando cravos que não apenas ressoavam com autenticidade histórica, mas também exibiam a marca única de sua habilidade artesanal.

O Cravo

A demanda por seus cravos artesanais logo ultrapassou as fronteiras do Brasil, ganhando reconhecimento internacional. Sua busca pela excelência e seu compromisso com a autenticidade musical renderam-lhe uma reputação como um dos principais construtores de cravos da época.

No entanto, seu amor pela música não se limitou à fabricação de instrumentos. Regina continuou a se apresentar e a compartilhar sua paixão pelo cravo através de recitais íntimos em sua Capela Magdalena, preservando o ambiente e a autenticidade das apresentações barrocas.

Sua vida e obra foram imortalizadas em um livro intitulado “Memórias de um Sargento de Malícias”, uma paráfrase do título de um romance de Manuel Antônio de Almeida. Este livro, além de suas experiências de vida, inclui um DVD – “Farsa Madrigalesca com música espanhola da Renascença”, revelando sua irreverência e seu profundo conhecimento musical.

Interior da Capela Magdalena

Além disso, Roberto de Regina também se destacou por suas recepções residenciais temáticas, realizadas em sua casa no Rio de Janeiro. Esses eventos oferecem aos convidados uma experiência sensorial única, combinando música, culinária e cultura em uma atmosfera autêntica e acolhedora. Ao compartilhar sua paixão pela música e pelo cravo, Regina continua a inspirar e encantar aqueles que têm o privilégio de conhecer sua arte e sua hospitalidade.

Mesmo aos 97 anos, Regina, continua a promover visitas ao seu templo particular. Seu sítio em Guaratiba oferece duas modalidades de visitação: Visita a Capela, totalmente pintada por ele, seguida de uma breve apresentação de cravo e um tour pelo museu, ou, uma visita mais completa com a apresentação de um concerto, de aproximadamente 70 minutos, seguido de uma refeição e visita ao museu, sempre acompanhados do próprio maestro Roberto de Regina.

Mesmo aos 97 anos, Regina, continua a promover visitas ao seu templo particular. Seu sítio em Guaratiba oferece duas modalidades de visitação: Visita a Capela, totalmente pintada por ele, seguida de uma breve apresentação de cravo e um tour pelo museu, ou, uma visita mais completa com a apresentação de um concerto, de aproximadamente 70 minutos, seguido de uma refeição e visita ao museu, sempre acompanhados do próprio maestro Roberto de Regina.

Mesmo aos 97 anos, Regina, continua a promover visitas ao seu templo particular. Seu sítio em Guaratiba oferece duas modalidades de visitação: Visita a Capela, totalmente pintada por ele, seguida de uma breve apresentação de cravo e um tour pelo museu, ou, uma visita mais completa com a apresentação de um concerto, de aproximadamente 70 minutos, seguido de uma refeição e visita ao museu, sempre acompanhados do próprio maestro Roberto de Regina.

Mesmo aos 97 anos, Regina, continua a promover visitas ao seu templo particular. Seu sítio em Guaratiba oferece duas modalidades de visitação: Visita a Capela, totalmente pintada por ele, seguida de uma breve apresentação de cravo e um tour pelo museu, ou, uma visita mais completa com a apresentação de um concerto, de aproximadamente 70 minutos, seguido de uma refeição e visita ao museu, sempre acompanhados do próprio maestro Roberto de Regina.

Ouviremos Roberto de Regina interpretando Minuet do compositor francês Jean-Philippe Rameau (1683 – 1764).

Observe Roberto vestido a caráter, tocando em um instrumento de época, levando o publico a vivenciar de forma sensorial a era barroca.

A grande dama do samba

o legado de Dona Ivone Lara

Ivone Lara (1921 – 2018)

No ultimo dia 13 de abril, o Brasil celebrou,  pela primeira vez,  o Dia Nacional da Mulher Sambista, uma homenagem inspirada em  uma das maiores figuras do samba brasileiro, Dona Ivone Lara. Nascida em 1921, no Rio de Janeiro, e falecida em 2018, aos 97 anos, Dona Ivone Lara deixou um acervo de obras fascinantes para a música brasileira, sendo reverenciada como “a grande dama do samba”.

A recente aprovação da Lei n.º 14.834, marca um momento histórico ao oficializar o Dia Nacional da Mulher Sambista, reconhecendo assim a contribuição das mulheres para o cenário do samba. Esta data não só homenageia a compositora Dona Ivone Lara, mas também destaca a importância de todas as sambistas brasileiras.

Ela foi uma figura lendária, deixando um impacto indelével enquanto compositora, cantora e instrumentista, desempenhando um papel fundamental na evolução do samba. Sua trajetória foi marcada por desafios e superações, sendo uma das pioneiras a conquistar espaço em um universo, predominantemente masculino.

Curiosamente, no início  ela não gostou da sugestão de usar o “Dona” na frente do nome, pois achou que a estavam chamando de velha. Mas, logo entendeu que era de “Dona” mesmo: dona, detentora, possuidora de um dos maiores talentos e originalidades da música popular brasileira.

Dona Ivone no hospital no Engenho de Dentro – Foto: Reprodução/Acervo da família

Mas o legado de Dona Ivone Lara vai além. Enfermeira, especialista em Terapia Ocupacional, durante anos, dedicou-se a trabalhos em hospitais psiquiátricos, desempenhando um papel fundamental na reforma psiquiátrica no Brasil. A enfermeira Ivone Lara trabalhou ao lado da doutora Nise da Silveira, no Serviço Nacional de Doenças Mentais, levando a terapia musical para seus pacientes.

Sua jornada na música começou cedo, influenciada por uma família de músicos e marcada por parcerias que moldaram sua carreira. Ela  enfrentou o preconceito e a discriminação com determinação e talento, abrindo caminho para sua consagração como compositora e cantora. Em 1965, aos 44 anos, ela quebrou barreiras ao integrar oficialmente a Ala de Compositores  “Império Serrano”, tornando-se a primeira mulher a assinar um samba-enredo.

Ao longo de sua carreira, Dona Ivone Lara lançou diversos sucessos que marcaram gerações, como “Sonho Meu”, “Sorriso Negro” e “Alguém me Avisou”, conquistando o coração do público e o respeito de grandes artistas, que gravaram suas canções.

Hoje, seu nome é sinônimo de resistência, talento e inspiração. A sambista deixou um exemplo às mulheres, inspirando-as a perseguir seus sonhos e a lutarem por seu lugar na música e na sociedade.

Uma data marcado para comemorar o “Dia Nacional da Mulher Sambista”  é importante para reconhecer e valorizar não apenas o legado de Dona Ivone Lara, mas também a contribuição de todas as mulheres que, como ela, transformaram o samba em uma das maiores expressões da cultura brasileira.

Dona Ivone Lara

Que seu exemplo continue a inspirar e a iluminar o caminho daqueles que têm o privilégio de ouvir sua música e conhecer sua história.

Ouviremos Dona Ivone Lara cantando Alguém Me Avisou; Acreditar e Sonho Meu

Observe como a  “Grande Dama do Samba”, traz em sua música uma profunda conexão com suas raízes afro-brasileiras e uma homenagem à resistência e à vitalidade do samba. 

Maurizio Pollini (1942 – 2024)

A despedida do pianista que encantou o mundo

Maurizio Pollini

Na manhã serena de Roma, no último 23 de março, o mundo da música clássica ficou mais silencioso, as teclas do piano choram a partida de um de seus mais brilhantes intérpretes: Maurizio Pollini. O adeus do virtuoso italiano reverenciado por sua maestria em Chopin e Beethoven ressoa como um vazio acorde final após uma sinfonia.

Ao anunciar a triste notícia, a prestigiada sala de ópera La Scala expressou seu pesar, declarando:

“Maurizio Pollini foi um dos grandes pianistas do nosso tempo e um ponto de referência fundamental na vida artística do teatro durante mais de cinquenta anos”

Maurizio Pollini, 1960 IV Concurso Chopin em Varsóvia, na Polônia

Nascido em Milão, em 05 de janeiro de 1942, em uma família de artistas onde seu pai era arquiteto e músico amador, Pollini fez sua entrada triunfal no mundo da música clássica em março de 1960, ao conquistar o primeiro prêmio no Concurso Chopin de Varsóvia, na Polônia, tornando-se, aos 18 anos, o mais jovem inscrito. O júri, composto por nomes como Nadia Boulanger e Arthur Rubinstein, não poupou elogios ao jovem músico, com Rubinstein proclamando:

Ele já toca melhor do que qualquer um de nós!”.

Após sua vitória, em vez de seguir uma agenda de concertos, Pollini optou por expandir seu repertório, estudando com o renomado Arturo Benedetti Michelangeli.

Para além da música, Pollini se engajava em movimentos políticos, tocava gratuitamente em fábricas e realizava recitais para a elite de Nova York no Carnegie Hall.

Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, realizou uma série de gravações premiadas com a Deutsche Grammophon, incluindo a gravação das “Variações Diabelli” de Beethoven, que lhe rendeu o “Diapason d’Or” em 2011, e sua interpretação dos “Concertos para piano nº 1 e nº 2” de Bartók, que lhe valeu um Grammy.

Em uma entrevista para o “The New York Times” em 1993, Pierre Boulez tentou definir a personalidade de Pollini:

“Ele não fala quase nada, mas pensa bastante”.

Maurizio Pollini

Rotulado de “pianista chopiniano” na juventude, Pollini afirmou-se na maturidade interpretando obras de Beethoven, Schumann, Schubert e Brahms, sendo aclamado pela crítica.

Seu legado em Chopin é monumental, destacando-se sua interpretação dos “Noturnos” em 2004, considerada uma das melhores já ouvidas.

Mas Pollini era mais do que um mero guardião do passado; ele era um visionário, abraçando as vanguardas musicais e desafiando fronteiras estilísticas. Sua colaboração com compositores contemporâneos e sua exploração do repertório de Schoenberg demonstram sua inquietude artística e sua vontade de expandir os limites do possível.

Com uma carreira internacional sólida, Pollini presenteou o mundo com uma combinação única de rigor técnico e beleza, extraindo o frescor de um som limpo, fundamentado em suas articulações engenhosas.

Assim se pronunciou a pianista portuguesa, Maria Joao Pires, pelas redes sociais:

“Maurizio Pollini deixou-nos… Deixou-nos mais pobres de música, de sobriedade e de conhecimento. Mais pobres daquela música que não é nunca para agradar a todos os públicos, mas sempre para expressar algo de muito verdadeiro”

Enquanto nos despedimos de Maurizio Pollini, lamentamos não apenas a perda de um ícone da música de concerto, mas também celebramos sua vida e seu legado, enriquecendo-nos com sua música, sobriedade e interpretações magistrais.

Ouviremos, Maurizio Pollini, conhecido como o “pianista chopiniano”, aos seus meros 18 anos, emergir como vitorioso do IV Concurso Chopin em Varsóvia, na Polônia, em 1960. No vídeo em questão, ele nos envolve com sua interpretação magistral do Prelúdio em ré menor, Opus 28, nº 24, e do Improviso em Sol bemol maior, Opus 51.

Observe! Desde tenra idade, Pollini exibia uma combinação impressionante de rigor técnico e frescor, refletindo-se em sua execução clara e límpida, resplandecendo em beleza e vitalidade.

A biografia de Nelson Freire escrita por Olivier Bellamy

Bellamy relata detalhes das  relações amorosas de Nelson, descreve o acidente fatal de seus pais, suas perdas, seus conflitos sempre em  meio ao seu amor incondicional pela música

O Livro
 

A obra intitulada “Nelson Freire – O Segredo do Piano” tem provocado polêmicas no meio musical brasileiro desde seu lançamento. A obra, que busca explorar a vida íntima e os últimos anos do renomado pianista brasileiro, tem gerado desconforto entre os colegas e amigos próximos de Freire, especialmente devido à abordagem sobre sua morte.

A narrativa destaca a personalidade tímida e reservada de Nelson Freire, um gênio do piano que preferia evitar os holofotes. A biografia revela aspectos da vida pessoal do pianista, desde sua infância precoce no mundo da música até seus últimos momentos, marcados por acidentes que o impediram de tocar no mesmo nível que o consagrou musicalmente.

Nelson Freire criança Foto disponibilizada pelo Instituto Moreira  Salles Acervo de Família

A abordagem do menino prodígio, da mudança da família de Boa Esperança em Minas Gerais  para o Rio de Janeiro:

 (…) “ a família Freire se muda para o Rio. O prodígio de cinco anos e meio é carregado em triunfo pela multidão até a saída de Boa Esperança, como Chopin despedindo-se de Varsóvia”

 O livro revela também a relação com as novas professoras depois de vários equívocos na educação musical do pequeno Nelson. Quando os pais o levam à casa da renomada professora Lúcia Branco:

(…) “ ela fica perplexa. O garoto é incrivelmente talentoso. Ele respira música por todos os poros”.

Nelson passa a ser orientado por duas grandes educadoras, a gaúcha Nise Obino e a paulista Lúcia Branco. Uma complementa a outra.

“ (…) “ Lúcia Branco aceita ser sua professora e Nise será a assistente dela. Nelson vê Lúcia todas as quinta-feira e Nise, duas vezes por semana. (…) “ Depois de três meses desse regime diário, o menino está pronto para dar um recital completo”.

Pouco depois de conhecer as professoras  Lucia e Nise, o pequeno Nelson escreve uma carta ao pai:

“Eu sou um menino de oito anos de idade

Eu me chamo Nelson José Pinto Freire.

Eu nasci no dia 18 de outubro de 1944.

Eu sou um menino que passo a vida alegre.

Eu brinco muito com meus amigos.

Eu também brinco e brigo com meus amigos.

Eu mostro-lhe o meu desejo.

Música, música.

Eu lhe falo que termino com uma palavra.

Eu acho ela simples.

Fim

Eu passo a vida na música, música, música”.

Com  Nise Obino,  Nelson,   teve uma relação de amor. Ele era movido pelo amor pelas pessoas e pela música.

“  a relação com Nise é intensa, apaixonada, quase assustadora. Eles não podem viver um sem o outro”

Nelson Freire; Luiz Eça; Lúcia Branco; Jacques Klein, Nise Obino e Moreira Lima (1956)

Mais de trinta anos após o encontro de Nelson e Nise, quando moraram juntos nos arredores de Paris, Nise escreve uma carta a Nelson:

“ Descobri hoje que te amei desde o primeiro dia. Quisera naquele tempo que só quando fazia música o mundo era bom. Tocar, palco, palmas, o resto era bem resto. Certo dia te conheci, pinguinho de gente, meio irreal, nem criança, nem bichinho nem pessoa, De pé, na frente de um enorme piano, e correndo as mãozinhas tão pequenas que nem os dedos apareciam com a velocidade dos movimentos. Era tão cômico, era tão comovente e era tão diferente… Era qualquer coisa fora deste mundo, não dava para classificar de feio ou bonito. Neste momento, vendo bem tudo aquilo, eu vejo que te amei porque pensei para mim mesma: que bom, ele já tem o seu mundo, também para ele o resto será o resto”.

Aos 12 anos, Nelson Freire foi  finalista no I Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro (1957).

“O júri só tem olhos para a adorável criança. Guiomar Novaes diz que ele é ‘ um pequeno Rubinstein’. Lili Kraus o acha ‘bonitinho’. Marguerite Long lhe oferece uma bolsa de estudos em Paris”.

Finalista do I Concurso de Piano do Rio de Janeiro (1957)

Após importante conquista, Freire recebeu do então presidente Juscelino Kubitschek uma bolsa de estudos que o levou a Viena, onde estudou sob a orientação de Bruno Seidlhofer.

“ A relação com Seidlhofer é sempre um pouco encrespada. Para entrar na mente de Nelson, primeiro é preciso ganhar seu coração”.

Nelson  Freire e Martha Argerich

Foi em Viena que Nelson conheceu Martha Argerich.

“ Depois da mãe, da irmã Nelma, de Nise, agora ele tem Martha. Desde a mais tenra idade, Nelson sabe que a melhor  maneira de ser amado é se sentar ao piano. Não o piano pelo piano, mas o piano pelo amor”.

Um dos pontos centrais de controvérsia sobre o livro reside na descrição dos eventos que antecederam a morte de Freire. Bellamy relata detalhes das  relações amorosas de Nelson, descreve o acidente fatal de seus pais, suas perdas, seus conflitos sempre em  meio ao seu amor incondicional pela música,   os desafios físicos enfrentados pelo pianista, incluindo acidentes que resultaram em lesões graves. A narrativa culmina na noite de 31 de outubro para 1º de novembro de 2021, quando Nelson, sob circunstâncias obscuras, deixou sua casa e mergulhou na escuridão.

Apesar das críticas e das revelações algumas vezes invasivas, o livro é elogiado por destacar momentos importantes da carreira de Nelson Freire. A biografia oferece um vislumbre da personalidade do pianista e de sua relação única com a música, evidenciando sua dedicação e paixão pelo piano, bem como relata o seu envolvimento emocional com tantos amigos no decorrer de sua vida.

Quem teve o privilégio de ouvir Nelson Freire, ao vivo, sabe que o piano dele era mágico e único.   Ouvir Nelson representa um sentimento misto de emoção e prazer.

“A música tem esse poder de transmissão universal, talvez por ser etérea, não se pode segurar a música, ela precisa ser ouvida”. Nelson Freire

Embora  a publicação de Bellamy contenha elementos fascinantes sobre a vida e carreira de Nelson Freire, a obra é criticada por sua ênfase excessiva em detalhes íntimos, especialmente relacionados aos últimos anos e à morte do pianista, em detrimento de uma exploração mais profunda de seu legado artístico.

No entanto,  vale a pena a leitura, pois mergulhar na vida de Nelson Freire faz com que estejamos mais perto de sua sensibilidade musical,  e isso  é sublime!

Ouviremos  o Concerto de Nelson Freire, realizado em Brasília ,  em janeiro de 2019, pelo Instituto Piano Brasileiro no Auditório Fundação Habitacional do Exército. No programa: W. A.  Mozart – Sonata No.11 (K.331); F. Chopin – Mazurca Op.17 No.4 em lá menor, Mazurca Op.33 No.4 em si menor, Barcarola Op.60; S. Rachmaninoff – Prelúdio Op.32 No.10 em si menor, Prelúdio Op.32 No.12 em sol# menor; H Villa-Lobos – A lenda do Caboclo;  Albéniz e Déodat de Séverac – Navarra;  Albéniz-Godowsky – Tango; Grieg – Dia de casamento em Troldhaugen.

Observe e desfrute da magia de ouvir o piano de Nelson Freire em um recital completo, incluído  as voltas ao palco.

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Despedida do Maestro: Seiji Ozawa (1935 – 2024)

“tocar uma nota errada é insignificante, mas indesculpável interpretar sem paixão.”

Seiji Ozawa
 

O mundo da música lamenta a perda do renomado maestro Seiji Ozawa, falecido na terça-feira aos 88 anos em Tóquio, conforme anunciado pela Veroza Japan, sua agência. Ozawa, ex-diretor da Sinfônica de Boston e da Ópera Estatal de Viena, laureado com prémios Grammy e Emmy, deixa um legado musical que se estende por mais de seis décadas.

A notícia do falecimento surgiu após uma despedida discreta no funeral, reservada apenas a familiares próximos, conforme desejado pelo maestro para garantir um momento sereno. Ozawa dedicou 29 anos de sua carreira à Sinfónica de Boston, superando o recorde de regência estabelecido por Serge Koussevitzky, e durante seu mandato, a orquestra se tornou uma referência tanto nacional quanto internacionalmente.

Além de suas notáveis realizações como maestro, Ozawa deixou um impacto duradouro no ensino e na promoção da música, estabelecendo academias no Japão e na Suíça.

Seiji Ozawa e Hideo Saito

Nascido em Shenyang, China, em 1935, sob administração japonesa, ele iniciou sua jornada musical estudando piano na infância e, aos 16 anos, ingressou na Toho School of Music, onde estudou direção de orquestra com o renomado Hideo Saito.

Vencedor do Concurso Internacional de Direção de Orquestra de Besançon em 1959, Ozawa conquistou o cenário internacional ao ser convidado por Charles Munch, então maestro titular da Sinfônica de Boston para trabalhar com ele. Sua carreira nos Estados Unidos decolou em 1960, após conquistar o Prémio Koussevitzky de melhor regente.

Ozawa Seiji e Herbert von Karajan

Ao longo dos anos, colaborou com figuras proeminentes como Leonard Bernstein e Herbert von Karajan, tornando-se maestro assistente da Filarmônica de Nova Iorque, diretor do Festival Ravinia e diretor musical de diversas sinfônicas, antes de estabelecer residência em Boston em 1973.

Sob a regência de Ozawa, a Sinfônica de Boston atingiu o patamar de maior orçamento do mundo, com doações significativas e uma transformação notável ao longo dos anos. Sua influência se estendeu a outras grandes orquestras, incluindo a Filarmónica de Berlim, Sinfônica de Londres e a Filarmônica de Nova Iorque.

Além de suas realizações como maestro, Ozawa construiu um histórico discográfico com mais de 500 títulos, muitos deles premiados. Seu talento foi reconhecido com vários premios, incluindo um Grammy de Melhor Gravação de Ópera em 2016.

O maestro Ozawa também deixou suas digitais nos principais teatros líricos, colaborando com artistas de renome mundial. Sua dedicação ao ensino musical culminou na fundação da Academia Internacional Seiji Ozawa, na Suíça, e na formação da Orquestra Saito Kinen e da Academia de Música de Câmara Okushiga no Japão.

O Maestro Seiji Ozawa, cuja última apresentação pública ocorreu em dezembro de 2022 no Japão, deixa uma lacuna na arte da regência. O mundo da música chora a perda de um dos grandes maestros da história contemporânea.

Essa frase, de sua autoria, define bem sua relação com a música:

“tocar uma nota errada é insignificante, mas indesculpável interpretar sem paixão.”

Ouviremos  de Ludwig van Beethoven “Egmont” Overture” sob a regência do Maestro Seiji Ozawa com a Orquestra filarmônica de Berlin, gravado em abril de 2016.

Observe a regência de Seiji Ozawa, ele  não  transmite expressões faciais dramáticas nem gestos exagerados com ao reger.  Mas  transmite suas ideias de interpretação perfeitamente. Embora  sereno e calmo, o maestro Ozawa sabia muito bem ser enérgico e se impor perante a orquestra. 

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MAESTRO O FILME!

UMA SINFONIA DA VIDA DE LEONARD BERNSTEIN

Maestro
 

Uma cena marcante do filme é o momento do encontro entre Felicia e Bernstein em uma festa do então professor de piano dela, o pianista chileno Claudio Arrau. 

Felicia Montealegre Cohn

Embora outros eventos significativos, como a estreia de Bernstein na regência da Filarmônica de Nova York, estejam presentes na obra, são apenas detalhes na construção do panorama que revela a essência do homem por trás do maestro. Este enfoque proporciona uma experiência cinematográfica que transcende a mera cultuacão das conquistas profissionais.

Bernstein, uma figura ímpar na música americana, não é retratado aqui apenas como um compositor prolífico, mas como um homem complexo cujas paixões, dúvidas e conflitos pessoais desempenham papéis centrais na trama. Se você assistir o filme com a expectativa de uma exploração aprofundada do processo criativo de Bernstein, o filme pode desapontar nesse aspecto.

Leonard Bernstein

O enredo mergulha na vida íntima do maestro e sua sexualidade passando pelas tensões conjugais com Felicia, evidenciadas por cenas delicadas e românticas. O longa se desenvolve em torno da dolorosa separação do casal, destacando o desconforto crescente da esposa e o dilema do maestro em aceitar sua verdadeira identidade. O drama interpretado por Carey Mulligan e Bradley Cooper, aprofunda-se nas ambiguidades emocionais, privilegiando a exploração do âmago dos personagens sobre a mera narrativa bibliográfica.

“Maestro”Carey Mulligan e Bradley Cooper

Vale destacar a habilidade e o talento de Cooper, como diretor, em utilizar opções técnicas para evidenciar a passagem do tempo, como a sequência em preto e branco dos anos 40. Neste momento, a paixão do casal é retratada de forma delicada e romântica, absorvendo o espectador em um número musical, demonstrando o amadurecimento do cineasta no domínio da linguagem visual.

Ao abordar diferentes períodos entre 1943 e 1987, “Maestro”,  não apenas destaca a atuação excepcional dos atores, mas também expõe a capacidade de Bradley Cooper como diretor.  Este cuidado estendido à arte cinematográfica sugere que “Maestro” pode surgir como um candidato promissor nas premiações da Academia

Familia Bernstein

A equipe de produção de  do filme,  incluindo o diretor Bradley Cooper, buscou garantir a precisão histórica, contando com a colaboração dos filhos do casal Bernstein. A produtora Kristie Macosko Krieger enfatiza a importância do envolvimento dos filhos, Jamie, Alexander e Nina, na validação da autenticidade da história de amor.

Segundo Nina Bernstein Simmons:

“realmente o filme conseguiu capturar sua essência, seu eu mais íntimo”

Leonard Bernstein, uma figura multifacetada, deixou um legado duradouro na música mundial. Suas realizações artísticas, desde a composição de trilhas sonoras notáveis até sua atuação como regente da Filarmônica de Nova York, são imortalizadas no filme “Maestro”.

Ver esse filme possibilitará, ao expectador, refletir sobre até que ponto a tela reflete com fidelidade as complexidades e nuances de uma vida marcada por paixões, compromissos e contradições da sinfonia que foi a vida de Leonard Bernstein.

Para finalizar vamos ouvir Bernstein ao piano, regendo a Filarmônica de Nova York, interpretando a Rhapsody in Blue de George Gershwin no “Royal Albert Hal” em 1976.

Observe! Rhapsody in Blue, composta em 1924, combina elementos da música de concerto com o jazz. Essa obra, estabeleu a reputação de Gershwin e tornou-se uma das peças mais executadas pelas prestigiadas salas de concertos do planeta.

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