Compositoras foram silenciadas na música clássica

No mês das mulheres, relembre a história triste de artistas como Nannerl Mozart, Clara Schumann e Fany Mendelssohn
Robert Schumann (1810 – 1856) e Clara Josephine Wieck Schumann (1819 – 1896)

No mês das mulheres, te convido a revisitar a triste realidade de mulheres silenciadas em razão do gênero, no universo da música clássica, em especial Nannerl Mozart, Clara Schumann e Fany Mendelssohn. Embora a música fosse vista como um “predicado a mais” para as mulheres “de boa família”, excluí-las dessa atividade profissional era algo considerado completamente normal até muito pouco tempo.

Os compositores Amadeus Mozart (1756-1791), Felix Mendelssohn (1809-1847) e Robert Schumann (1810 – 1856) tiveram mulheres extremamente talentosas ao lado deles e, unicamente por serem mulheres, foram desencorajadas a serem compositoras profissionais.

Nannerl Mozart era exibida como criança prodígio

A austríaca Nannerl, Maria Anna Walburga Ignatia Mozart (1751-1829), passou para história como a irmã de Mozart. Deixada para trás, enquanto o pai Leopold Mozart (1719-1787) e o irmão continuavam uma turnê, ela escreveu uma canção e os mandou.

Não existem registros da música, no entanto, a reação do irmão Mozart foi encontrada em uma carta endereçada à irmã. “Eu não consigo acreditar que você componha tão bem. É lindo”, escreveu ele.

A triste realidade é que Nannerl foi exibida como criança prodígio junto com Mozart. Tocou diante da realeza por toda a Europa. Mas, ao atingir a puberdade, foi empurrada pelo pai para os papéis mais tradicionais de gênero: filha submissa, esposa do homem que o pai escolheu e mãe.

Clara Schumann influenciou hábitos na performance musical

Já a alemã Clara Josephine Wieck (1819 – 1896) foi esposa de Robert Schumann, sendo uma das poucas crianças prodígio a se manter famosa e reconhecida como virtuosa do piano por toda a vida. Clara Schumann influenciou hábitos na performance musical, inclusive dos homens.

A pianista teve uma carreira ativa entre os anos de 1828 e 1891. Inovou na escolha de repertório, na programação de suas turnês, exercendo independência junto ao público e aos empresários. No entanto, sua carreira como compositora sempre esteve em segundo plano.

Apesar de toda a segurança em relação à performance, Clara duvidava de sua capacidade como compositora. A pianista viveu em um período em que mulheres que compunham não eram incentivadas, nem levadas a sério. Ela possui obras de inegável valor, embora tenha passado pela história da música ocidental como a esposa pianista do compositor Robert Schumann.

Fany Mendelssohn compôs por volta de 466 obras

Outro triste exemplo de preconceito é da judia alemã Fanny Mendelssohn (1805-1847). Irmã do compositor Felix Mendelssohn (1809-1847), Fany foi em alguns aspectos mais talentosa do que seu famoso irmão, compôs por volta de 466 obras. No entanto, teve suas ambições tolhidas pela família, inclusive pelo irmão.

A falha nas biografias de Nannerl, Clara e Fanny deixam evidente que no ponto de vista histórico as mulheres são negligenciadas. Estamos perdendo parte da história da humanidade simplesmente por desconsiderar a participação das mulheres nela. Ainda é tempo de rever isto!

Homenageando todas as mulheres que de alguma forma foram silenciadas, ouviremos o Piano Trio op. 17, em sol menor, de Clara Schumann, interpretado pelo pianista Gabor Farkas, pela violinista Luosaha Fang e pelo violoncelista Merkin Hall.

Observe!Essa obra de Clara Schumann foi composta em 1846. Vale ressaltar que ela compôs para esta formação, após criar uma série inovadora de concertos, na cidade de Dresden (Alemanha), para valorizar a música de câmara.

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Quando se comemora o Dia Nacional da Música Clássica

Consulta nacional foi realizada em 2006 e escolheu o aniversário de Villa-Lobos como marco para a comemoração da data
ASSINATURA DO COMPOSITOR HEITOR VILLA-LOBOS, QUE FOI ESCOLHIDO PARA REPRESENTAR OS CLÁSSICOS BRASILEIROS
Assinatura do compositor Heitor Villa-Lobos, que foi escolhido para representar os clássicos brasileiros

Com o intuito de escolher uma data mais adequada para celebrar os clássicos no Brasil, até então inexistente, a Agenda VivaMúsica! lançou no ano de 2006 uma consulta nacional dirigida a profissionais atuantes do setor. Foram propostos os nascimentos dos compositores José Maurício Nunes Garcia (22 de setembro), Antônio Carlos Gomes (11 de julho) e Heitor Villa-Lobos (5 de março).

Villa-Lobos venceu a enquete, tornando-se o patrono da música clássica do Brasil. Em 2007, a data entrou para o calendário estadual fluminense e, em 2009, o dia 5 de março foi decretado o Dia Nacional da Música Clássica no Brasil.

Heitor Villa-Lobos (1887-1959) foi um maestro e compositor brasileiro considerado o expoente máximo da música do Modernismo no Brasil, com relevante participação na Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo em 1922. Ele nasceu no Rio de Janeiro, no dia 5 de março de 1887, e começou a receber orientação musical ainda criança.

Villa-Lobos incorporou à sua música a brasilidade

Com a fama, também ficaram famosas as viagens de Villa-Lobos pelo Brasil, embora se saiba que algumas aconteceram apenas em sua imaginação. Não foram poucas às vezes em que, fora do Brasil, inventava ou aumentava histórias das “terras selvagens” brasileiras para ganhar maior destaque no meio europeu.

Ao certo, essas viagens ocorreram entre 1905 e 1915, percorrendo o Sul, Nordeste e o Norte do Brasil. Ele voltou ao Rio de Janeiro por volta de 1915, quando teve oportunidade de retornar à vida musical carioca através de apresentações de suas músicas em concertos. Já nestes concertos, Villa-Lobos mostra obras influenciadas por suas viagens ao interior do País como Danças Africanas (1914-1915), Suíte Floral (1917), Amazonas (1917), Uirapuru (1917), entre outras.

Villa-Lobos procurou incorporar à sua música esta ideia de brasilidade musical, buscou a “construção do mito do nacionalismo musical” como ponto de partida em suas composições. Por isso, convido a ouvir o Poema Sinfônico Uirapuru de Villa-Lobos interpretado pela Orquestra Petrobras Sinfônica sob a regência do Maestro Isaac Karabtchevsky.

Observe que, ao compor Uirapuru, o compositor procura demonstrar em sua obra a imagem do Brasil do início do século XX, momento em que a busca pela brasilidade se torna ponto de fundamental importância para os antropólogos e artistas brasileiros.

“Uirapuru é das primeiras obras-primas de Villa-Lobos, e dá início a uma linguagem orquestral tipicamente villa-lobiana. A partitura retrata o ambiente da selva brasileira e seus habitantes naturais – os índios -, com uma impressionante riqueza de detalhes. O argumento que serviu de base para a composição desse poema sinfônico é de autoria do próprio autor, e conta a história de um pássaro (o uirapuru, que na mitologia indígena é considerado o ‘deus do amor’) que se transforma em um belo índio, disputado pelas índias que o encontram. Um índio ciumento, não suportando aquela adoração, flecha-o mortalmente. Ao retornar à sua condição de pássaro torna-se invisível e dele se ouve apenas o canto que desaparece no silêncio da floresta.”

(MUSEU VILLA-LOBOS, 2011)

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A diferença entre música popular e erudita

Se um segmento é mais conhecido e apreciado pelo público, o outro apresenta-se de forma mais formal e restritiva
Harpa parte da música erudita secular
Música erudita tem raízes nas tradições da música secular e litúrgica ocidental e segue cânones preestabelecidos

Todos os segmentos da música têm a sua importância, mesmo que tão diferentes. Na música popular brasileira, por exemplo, houve o cruzamento de diversas tendências. Elas vão desde o lirismo português, que veio com a família real, ao forte elemento rítmico de origem africana, sendo uma das manifestações o samba urbano do Rio de Janeiro.

Há ainda uma grande influência do folclore, vindo de várias regiões brasileiras, e a sofisticação harmônica do jazz, que resultaram no movimento da bossa nova e num grande número de tendências musicais, que sempre caem no gosto da população. Por este motivo, aliás, é denominada música popular.

Música erudita é o nome dado à principal variedade de música produzida ou enraizada nas tradições da música secular e litúrgica ocidental, que envolve um período amplo, que vai aproximadamente do século IX até a contemporaneidade, e segue cânones preestabelecidos no decorrer da história.

A popular está sempre sendo tocada e consequentemente é mais conhecida e apreciada. A erudita, por sua vez, não está inserida na maioria dos meios de comunicação e acaba por ficar afastada do grande público. Ademais, a própria estrutura de um concerto da música chamada erudita apresenta-se de uma maneira mais formal e também restritiva.

Jorge Ben 
Foto: Natalia Bezerra
Música popular, como a produzida por Jorge Ben Jor, é mais tocada e conhecida do que a música erudita. Foto: Natalia Bezerra

Há semelhanças e diferenças básicas entre as músicas chamadas popular e erudita, mas é preciso apresentar a música de concerto para o grande público. Trabalho com um projeto de formação de plateia em música na cidade de Goiânia. Posso afirmar que para a maioria das pessoas que assistem a um concerto pela primeira vez os mitos da erudição são descontruídos. Elas apreciam e querem voltar. Por isso, é preciso conhecer para escolher.

A audição proposta neste post é de música popular executada por um conjunto de violoncelistas da Alemanha. Ouça os 12 violoncelistas da Orquestra Filarmônica de Berlim em performance com arranjos de Valter Despali de Mas que Nada do brasileiro Jorge Ben Jor e, em seguida, o Tema da Pantera Cor de Rosa do compositor estadunidense Henri Mancini.

Observe a música popular tocada por um conjunto de câmara “erudito”. Independentemente da natureza, música boa é música bem tocada. Aproveite!

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Quando o carnaval chega ao Brasil

Portugueses iniciaram a tradição das festas e bailes por volta de 1720 e de lá para cá as celebrações se transformaram
Máscaras ao estilo vienense chegaram ao Brasil nos primeiros bailes de carnaval no Rio de Janeiro
Máscaras ao estilo vienense chegaram ao Brasil nos primeiros bailes de carnaval a partir de 1840 NO RIO DE JANEIRO

O carnaval chega ao Brasil por volta do ano 1720 pelas mãos de portugueses oriundos das Ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde. Na época, as celebrações eram bem populares e consistiam em jogar água uns nos outros. Já os primeiros bailes no Rio de Janeiro eram muito elitizados e chegaram a partir de 1840, bem aos moldes dos bailes europeus, com valsas, polcas, schotiches e máscaras ao estilo vienense.

Foi por volta de 1855 que as pessoas de mais posses passaram a ser organizar em “sociedades” e a desfilar em carros alegóricos, enquanto o povo se divertia com a percussão do Bloco Zé-Pereira, ao som de baterias cadenciadas e canções reaproveitadas de cantigas de roda, hinos patrióticos, trechos de óperas, fados, quadrinhas musicadas e até marchas fúnebres.

CHIQUINHA GONZAGA  COMPÔS A PRIMEIRA CANÇÃO CARNAVALESCA BRASILEIRA
Chiquinha Gonzaga compôs a primeira canção carnavalesca brasileira

No entanto, foi a partir de 1920 que a marchinha destinada expressamente ao carnaval brasileiro passou a ser produzida com regularidade no Rio de Janeiro, vivendo seu período de mais sucesso nos anos 1930, 1940 e 1950.

A partir dos anos 1960, entra em cena o samba-enredo e as escolas de samba ganham força na avenida. Vale ressaltar que a musica tocada nos carnavais, têm ritmos e características diferentes nos diversos estados brasileiros, nos propiciando, quando os visitamos, ouvir sambas, batuques, frevos, axés e outras manifestações musicais.

A pioneira marchinha de carnaval brasileira foi composta durante ensaio do cordão Rosa de Ouro, em fevereiro de 1899, no Andaraí, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, onde residia a autora Chiquinha Gonzaga (1747-1935). Como primeira canção carnavalesca brasileira, Abre Alas confirmou o carnaval como festa popular e promoveu o seu casamento com a música urbana.

Observe duas gravações,  Ó Abre Alas composta por Chiquinha Gonzaga em 1899 e, em seguida, a segunda versão composta em 1939 por Piedade e J. Faraj Jorge.

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Vamos voltar a conversar sobre música?

No retorno do Blog Papo Musical, veja a história de uma das mais famosas orquestras do mundo, a Filarmônica de Berlim
Maestro Herbert von Karajan (1908- 1989) foi regente da  Orquestra Filarmônica de Berlim
 Maestro Herbert von Karajan (1908- 1989) foi regente da Orquestra Filarmônica de Berlim

Conversar sobre música é uma das coisas que mais gosto de fazer.  Em maio de 2015, recebi convite da plataforma Ludovica, do Grupo Jaime Câmara, para escrever o Blog Papo Musical. Foi uma experiência incrível! Com um conjunto de quase 200 postagens, abordamos diversos aspectos e temas ligados à música, o que gerou uma intensa interação virtual com o público. 

A Ludovica passou por transformações e os blogs deixaram de existir. Senti falta do Papo Musical e resolvi criar um blog “nosso”. Um espaço para pessoas que gostam de ouvir e conversar sobre música. Nesta primeira publicação, inauguramos o novo “Papo Musical”, onde abordaremos semanalmente curiosidades, sugestões e, principalmente, música.

Vamos iniciar falando de uma das orquestras mais famosas do mundo, a Filarmônica de Berlim. Originada de uma rebelião de músicos em 1882, inconformados com as péssimas condições de trabalho a que eram submetidos, alguns músicos decidiram prosseguir de forma independente, dando início ao embrião da atual orquestra na Alemanha. 

Ao longo de todos esses anos, esse conjunto, que é um dos melhores do planeta, conhecido por sua excelência musical, teve como regentes titulares nomes importantíssimos para a música de concerto: Hans Von Büllow, Arthur Nikisch, Wilhelm Furtwängler, Herbert Von Karajan, Claudio Abbado, Simon Rattle. 

Ouviremos a Filarmônica de Berlim, no qual o maestro Herbert Von Karajan (1908-1989) é o solista e o regente do Concerto n. 21 para piano e orquestra da W. A. Mozart (1756 -1791).

Observe a grandiosidade desta obra composta em 1785 executada por um orquestra de excelência. Um dos concertos mais populares de Mozart, enfatizando todo o brilhantismo e a genialidade do compositor ao transportar para o gênero instrumental toda a dramaticidade operística que ele dominava com maestria.

Boa audição!

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Seja bem-vindo

O blog Papo Musical é para quem quer saber mais sobre música. A proposta é informar e também descomplicar termos e conceitos que envolvam o universo erudito. Vamos nessa?

Semanalmente, farei um texto sobre um tema especial. Por aqui, também quero dividir com você um pouco da minha carreira e projetos.

Quem sou eu?

Gyovana Carneiro

Doutora em Ciências Musicais pela Universidade Nova de Lisboa – Portugal, como bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Professora efetiva da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás (Emac-UFG) desde 1996. Atualmente, presidente da Sociedade Goiana de Música, pesquisadora do Laboratório de Musicologia da EMAC-UFG e membro do GEHIM/UFG/CNPQ. Em 2018, exerceu o cargo de superintendente de Cultura do Estado de Goiás.

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